Empreendedores brasileiros faturam com um setor que só cresce: o dos LGBTs

No mês em que se celebra o orgulho LGBT, conheça as histórias de quem encontrou a oportunidade de criar seu próprio negócio nesse nicho de mercado

Empreender de olho em um nicho de mercado é uma das principais tendências para quem quer investir em um negócio próprio. Se o setor faz parte da vida e dos interesses do empreendedor, esse é um cenário ideal. É o caso de empresários que viram potencial de consumo no público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) e decidiram criar seus negócios voltados para o meio do qual já fazem parte. Por conta da identificação e da empatia com o tema, a criação e o desenvolvimento da empresa acabam se tornando uma aposta mais segura.

Atualmente, o público LGBT é um dos que mais crescem no mercado consumidor em todo o mundo. O potencial desse segmento pode ser visto em eventos como a Parada do Orgulho LGBT, que ocorre anualmente em São Paulo. O evento atrai milhares de pessoas do Brasil e do exterior e, de acordo com os organizadores, reuniu 3 milhões de participantes em 2017.

Augusto Lima, 27 anos, é de Boa Viagem, no Ceará. De família pobre, ele se sentia preso para alcançar seus sonhos. Aos 17 anos, decidiu se arriscar e deu o primeiro passo para conseguir algo que nem imaginava ter. Veio a São Paulo e, por dois anos, trabalhou como auxiliar de produção em uma loja de Diadema. Mas sabia que não era aquilo que queria para sua vida. Foi quando Lima começou a ver vídeos de drag queens famosas na internet e ficou encantado pela arte drag. Ele se aproximou de um amigo que se montava (vestia-se de drag queen) e em uma ida à Rua 25 de Março para comprar adereços surgiu a ideia de comercializar perucas.

Na época, ele e o amigo compraram uma peruca cada e foram a outra loja para moldá-las. “A dona do estabelecimento me propôs divulgar os produtos dela em troca de descontos e comissão, eu aceitei e não imaginava que daria tão certo”, diz. Lima começou a se montar e fazer shows na noite de São Paulo enquanto divulgava os produtos na sua conta pessoal no Facebook. Não demorou para que interessados entrassem em contato para saber a origem dos adereços. “No começo, eu ficava até as 5h no computador porque queria responder a todos os clientes que mandavam mensagem”, lembra.

Apesar das dificuldades, Lima nunca pensou em desistir, mesmo começando com uma vitrine de perucas penduradas em pregos. Conseguiu melhorar a qualidade dos produtos e também dos lugares onde os expunha. Em cinco meses de venda, criou um site, regularizou a empresa, procurou referências internacionais, contratou um contador e investiu até ter retorno. Hoje, a Hair Perucas Brasil tem escritório em Mogi das Cruzes e a venda é feita exclusivamente pela internet. Nesse período, Lima encontrou uma fornecedora que exportava perucas front lace, de qualidade melhor e aparência mais natural. Atualmente, ele entrega em média de 80 a 90 perucas por mês, de diversas formas e preços variados, por todo país e também para o exterior.

Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca

Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca (Flávio Florido / Ricardo Yoithi Matsukawa - ME/Jornal de Negócios do Sebrae/SP)

Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca“Cheguei a um momento em que passava R$ 12 mil para uma fornecedora, R$ 15 mil para outra. Foi quando percebi que estava ficando sério.” A Hair Perucas Brasil ganhou destaque no segmento e blogueiras começaram a contatá-lo para parcerias. A marca também já fez parcerias com a atriz Giovanna Ewbank e com a drag queen e cantora Pabllo Vittar. O empreendedor ressalta que há um grande público para o setor de perucas, incluindo os LGBTs.

“A lace é um acessório que está pegando agora no Brasil, mas lá fora é comum. A praticidade de troca de visual sem mexer no cabelo real é muito vantajosa”, diz. Apesar da aptidão pela dança e de querer se tornar um artista de glamour, Lima não trabalha mais na noite como drag queen. Montar-se agora é apenas um hobby. Além de ser empresário, cabeleireiro e maquiador, ele é o modelo da sua própria empresa virtual.

“Eu não tinha capital de giro, não tinha família com dinheiro, só tinha uma vontade muito grande para que meu negócio desse certo. E deu, com humildade, honestidade e muito planejamento.”

O analista do Sebrae-SP Otavio Gallego Lorente ressalta a vantagem de abrir uma empresa voltada para o segmento LGBT. “É o nicho que mais cresce no mundo e quanto mais visibilidade esse público tiver, maior vai ser o potencial de compra deles. Há tempos é um dos públicos que mais consomem e que mais investem”, diz. Para quem deseja abrir um empreendimento voltado ao público LGBT, Lorente diz que é indispensável investir no planejamento e estudar o que almeja. “É importante planejar, pensar qual é seu público, como ele se comporta, o que precisa, o que gosta e, a partir disso, definir os outros conceitos da empresa”, afirma. “São pessoas comuns e devem ser tratadas como tal, sempre com muito respeito”, conclui Lorente.

Outro negócio que surgiu na comunidade LGBT foi o Coletivo de Dois, marca paulista de roupas do casal Hugo Mor, 33 anos, e Daniel Barranco, de 41. Barranco é designer de formação, sempre teve empresa, mas largou a vida que tinha para se arriscar no mundo da moda. Mor é estilista e ator, porém hoje só desenha e costura roupas para a loja. Ele teve outra loja anteriormente, que acabou servindo como uma espécie de protótipo para o negócio atual.

Antes de a marca existir efetivamente, eles começaram a vender peças em uma loja colaborativa na cidade de São Paulo. Deixaram os produtos expostos por três meses, tiveram prejuízo e itens foram roubados. Porém, a partir desse ocorrido, perceberam que a ideia poderia dar certo. “Se roubaram é porque há interesse, então vamos fazer mais e dessa vez nós vamos vender”, conta Mor. Pesquisando na internet, acharam uma feira chamada “Como Assim?”, no Shopping Center 3, na Avenida Paulista. “Fechamos contrato de seis meses com a feira”, diz Mor.

Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca

Proprietários da Coletivo de Dois Daniel (xadrez) e Hugo (camiseta branca) na loja da marca (Flávio Florido / Ricardo Yoithi Matsukawa - ME/Jornal de Negócios do Sebrae/SP)

A iniciativa deu bons resultados, então começaram a procurar ambientes parecidos, até chegar a uma feira livre que ocorre no Minhocão, centro de São Paulo. Foi nesse lugar que surgiu o reconhecimento por um público mais jovem e descolado. “No Center 3, alcançamos um público mais velho e LGBT, muitas lésbicas. A linha das nossas roupas é muito unissex, não tem pences marcando, não é muito refinada, tem algo meio brusco, é como se não houvesse gênero e talvez elas curtam justamente isso”, afirma.

Após tantas feiras, conseguiram juntar recursos para abrir a primeira loja física no final de 2017. O investimento inicial foi de R$ 500 em material e a máquina de costura que já tinham. Além disso, todo dinheiro que recebiam era reinvestido. A confecção trabalha com um processo de produção diferente das grandes marcas: utiliza retalhos e sobras para fazer roupas únicas. “Não temos uma produção grande, mas temos liberdade para utilizar qualquer
tipo de material”, explica Mor.

Os empreendedores contam que a aproximação com o público LGBT é muito natural. “Não gostamos de colocar em nossas publicações, não gostamos de forçar nada, deixamos as pessoas livres para se identificarem da forma que elas querem com nosso produto”, diz Barranco. A marca também tem feito sucesso com as drag queens. Recentemente, tiveram algumas peças expostas no programa “Drag me as a queen” do canal E!.

Algo que preocupa os donos é como a marca é vendida. Geralmente, produções em menor escala são mais caras do que o convencional, pelo fato de serem feitas manualmente. Mas, apesar disso, eles dizem fazer o possível para que a grife seja acessível. “Não podemos cair na armadilha de elitizar o público e o produto, isso acaba excluindo uma parcela da população que gosta desse estilo e gostaria de consumir esses produtos de forma mais consciente”, afirma Barranco.

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