“Tinder do campo” usa tecnologia para vender grãos e conquista a Monsanto

A Grão Direto faz o campo abandonar antigos hábitos ao comprar e vender grãos. A proposta da startup acabou de conquistar um aporte de 700 mil dólares

São Paulo – O agronegócio continua grande responsável pelo crescimento do Brasil – mas nunca precisou tanto de tecnologia. Ainda que o setor represente um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país, conserva práticas do século XX e é um dos menos digitalizados de todo o mercado.

Os empreendedores Alexandre Borges, Carlos Rocha, Frederico Marques e Pedro Paiva dariam como exemplo de hábito ultrapassado usar o telefone para negociar a melhor cotação de grãos comprados e vendidos. Eles são os criadores da Grão Direto, startup que permite a agricultores e compradores das mais de 240 milhões de toneladas de grãos brasileiros produzidas por ano visualizarem diversas ofertas em tempo real, pelo computador ou pelo smartphone.

Fazer o campo desistir das ligações – e, com isso, aumentar sua eficiência – é uma ideia que já atraiu nomes de peso. A Grão Direto acabou de receber um aporte de 700 mil dólares (na cotação atual, cerca de 2,6 milhões de reais). O aporte foi liderado pelos fundos Canary e OpenVC, além da Monsanto (que, após a fusão com a Bayer, deixará de existir como marca).

A transação confirma a tendência de as agtechs captarem cada vez mais investimentos e estes se tornarem cada vez mais polpudos. Em 2017, as startups da agricultura e agropecuária captaram mais do que o dobro visto em 2016. Tanto a Grão Direto quanto seus investidores possuem estratégias claras por trás desse aporte financeiro – e que apontam para o potencial de negócios desse ramo no Brasil.

Vivência de mercado

A ideia da Grão Direto veio de Pedro Paiva, engenheiro de produção que vem de uma família de produtores rurais em Uberaba (Minas Gerais). Paiva observou como o processo de revenda de itens agropecuários – como grãos – era obsoleto tanto entre pequenos quanto entre grandes fazendeiros.

Os agricultores geralmente fecham negócios com cooperativas agrícolas, fábricas de rações, traders de exportação, pecuaristas e revendedores por visitas presenciais, telefone ou, quando muito, pelo WhatsApp. Nem sempre a negociação é veloz ou possui o preço ideal.

Junto com o amigo de infância e administrador Alexandre Borges, Paiva pensou que a melhor forma de resolver o problema era por tecnologia – um movimento recente na agropecuária do mundo todo, mas que ganha força ano após ano e conquista aportes na casa de centenas de milhares de dólares. Frederico Marques, formado em Ciências da Computação, queria empreender e se juntou ao negócio. Depois, Carlos Rocha completaria a sociedade.

A Grão Direto quer colocar toda a oferta e demanda por grãos como milho e soja em uma só plataforma, em prol da agilidade e do melhor preço para os dois elos da cadeia. A plataforma faz o match entre agricultor e comprador, como um “Tinder do campo” – mas, no lugar do charme, leva em consideração condições de pagamento, localização da safra de grãos e prazo de entrega.

De acordo com Borges, hoje presidente da Grão Direto, a startup permite que o comprador pule dos 10 a 20 produtores originalmente em negociação para centenas, ou até milhares de agricultores. Dessa base, pode escolher os que atendem sua urgência ou sua necessidade de preços.

A plataforma é responsável por registrar os contratos de negociação e agendar as transações bancárias, dando para os dois elos da cadeia tanto segurança quanto economia com funcionários e processos.

Em troca, a Grão Direto pede do comprador uma porcentagem não revelada das transações. Mas que, afirma Borges, é no mínimo um quinto mais econômica do que a corretagem tradicional de grãos – o que faz com que corretores também transacionem pela startup.

O aplicativo Grão Direto existe há quase dois anos e possui 1,3 mil produtores de grãos cadastrados espalhados por mais de 250 municípios de Goiás e Minas Gerais. Do lado dos compradores, há 40 empresas ativas, com 90% de recorrência.

Startups, grandes empresas e interesses

A Grão Direto se associou a ESALQTEC, incubadora de empresas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da Universidade de São Paulo (USP). Depois, fez acelerações na Startup Farm e no InovAtiva Brasil, programa realizado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

As acelerações foram a porta de entrada para acessar players do mercado e conquistar sua rodada de aportes. Borges destaca o perfil de inovação em agricultura da Monsanto; o capital financeiro e de empreendedorismo do Canary, com executivos de negócios como 99, Peixe Urbano e Uber; e o foco em tecnologias do OpenVC.

Com o aporte, a Grão Direto enxerga uma forma de aumentar a equipe, evoluir e plataforma a expandir sua operação.

Hoje com 12 pessoas, a startup espera dobrar de membros nos próximos 12 meses. Com isso, quer lançar serviços como os de contratos digitais e conexão com operadores logísticos na própria plataforma, usando tecnologias como blockchain e inteligência artificial.

As mudanças farão a solução ir a outras regiões produtoras e abranger mais culturas, como café e trigo. O negócio espera ultrapassar 200 empresas compradoras e aumentar entre 20 a 30 vezes seu volume transacionado até o fim de 2019. A parceria com fundos globais pode ser útil para uma futura expansão a outros países – mas, por enquanto, o mercado brasileiro ainda tem muito potencial.

Do lado dos investidores, também há interesses que vão além do retorno do investimento – especialmente no caso da Monsanto. Segundo o CB Insights, a gigante das sementes e pesticidas mudou seu foco das aquisições para os investimentos quando se fala em startups. Tal movimento começou em 2011, com a criação do grupo de capital de risco Monsanto Growth Ventures, focado em financiar empresas em estágio inicial.

A Monsanto é uma grande personagem de um cenário maior: a participação crescente das grandes empresas no financiamento às agtechs. O número saltou de 5% para 25% entre 2013 e 2017.

A gigante ainda não usa os serviços da Grão Direto, mas vê uma ótima sinergia com outra startup que adquiriu em 2014, chamada Climate Corporation – transação que foi responsável por virar os olhos dos investidores para as agtechs. A Climate Corporation possui uma ferramenta, chamada Climate Fieldview, que captura dados gerados dentro das fazendas e disponibiliza mapas acessíveis pela computação em nuvem.

A Climate Fieldview virou uma plataforma neste ano, agregando parceiros como empresas de imagens aéreas por drones. A Grão Direto poderia ser parte da plataforma, com produtores da Fieldview adquirindo um pacote de serviços integrados.

“Nosso interesse de estar perto de startups é estar na vanguarda de tudo que há de novo no mercado. Produzimos mais de cinco milhões de sacos de semente de milho por ano e convidamos empreendedores e nos ajudar a sermos mais eficientes e produtivos, melhorando nossa entrega aos clientes”, afirma Bernardo Nogueira, líder da Monsanto Growth Ventures no Brasil.

“Vemos oportunidades em operações como as de barter [financiamento do insumo para a safra através da entrega de grãos]. Estamos analisando com o pessoal da Monsanto a melhor forma de digitalizar esse processo na empresa.”

A Monsanto investe em startups tanto diretamente, por meio do Monsanto Growth Ventures, quanto pelo fundo BR Startups, que possui participação de empresas como Algar, Microsoft, Qualcomm e Votorantim. A gigante de sementes e pesticidas pretende fazer mais um ou dois investimentos neste ano, diretos ou pelo fundo.

“Um ponto interessante é como o Brasil sempre exportou bastante commodities e, agora, temos a oportunidade de exportar tecnologia através dessas agtechs. Isso fará com que sejamos um celeiro não só de alimentos, mas de tecnologias para o agronegócio”, resume Nogueira. Os quatro empreendedores da Grão Direto não poderiam pedir um prognóstico mais otimista de um investidor.

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