Dois dias de inspiração

No 6º Curso Exame PME, mais de 600 donos de pequenas e médias empresas se reuniram para ter aulas de gestão e saber como pensam empreendedores bem-sucedidos

São Paulo – No início de abril, mais de 600 empreendedores participaram do 6o Curso Exame PME, no auditório Frei Caneca, em São Paulo, para saber como tornar seus negócios mais competitivos. Foram cinco aulas: como prospectar clientes; combate à inadimplência; o que aprender com ­boas redes de franquia; por que a computação em nuvem diminui gastos; e as vantagens de colaborar com fornecedores, clientes e até concorrentes.

O curso trouxe também fundadores de negócios que cresceram espetacularmente em poucos anos — Chieko Aoki (hotéis Blue Tree), Flávio Augusto da Silva (escolas de idiomas WiseUp), Carlos Wizard Martins (escolas Wizard, também de idiomas), David Pinto (Doutor Resolve, rede de serviços de reparos para casas e empresas) e José Janguiê Bezerra Diniz (SER Educacional, grupo que reúne 35 centros universitários).

Na manhã do dia 8 o curso começou com a palestra de Chieko. A mulher poderosa com fama de durona que todos esperavam deu lugar a outra persona. Subiu uma senhora miúda, de 1 metro e meio de altura, num tailleur branco-gelo e de salto alto. Parecia uma bonequinha — japonesa, no caso, pois ela nasceu no Japão e veio criança para o Brasil.

“Sempre fui tímida, e falar em público é um desafio enorme para mim”, disse. “Fui cantar em karaokês para perder a vergonha.” Se ela não tivesse dito, não teria dado para perceber, pois Chieko parece colocar a alma em tudo o que fala. É assim que ela quer que os funcionários se comportem nos hotéis. “É impossível agradar ao cliente sem que os funcionários estejam envolvidos de verdade com o que fazem”, disse.

Flávio Augusto, de 43 anos, que fundou as escolas WiseUp, fez o maior sucesso. Ele contou como um curso que poderia ter sido apenas mais um chegou a quase 400 unidades e, em 2013, foi vendido por 877 milhões de ­reais. “Havia muitas escolas, mas poucas ofereciam cursos específicos para adultos”, disse.

Após a venda da WiseUp, Flávio foi explorar mundos novos. Em dois anos, criou um fundo de investimento em empresas de tecnologia, uma escola virtual de gestão e comprou o Orlando City, time de futebol (o soccer, não o futebol americano) que está na primeira divisão do campeonato americano.

Nas horas vagas, dedica-se à Geração de Valor, página no Facebook em que dá dicas de empreendedorismo para mais de 2 milhões de fãs. Assim que terminou a palestra, foi cercado por mais de 50 empreendedores-alunos. Foi como nas notícias de TV em que os fãs tiram fotos e grudam no cantor — ele só conseguiu sair com a ajuda de seguranças.

Como Flávio Augusto, o paranaense Carlos Wizard Martins, de 58 anos, também fundou uma rede de escolas de idiomas, a Wizard (o nome da rede é que virou sobrenome — não o contrário). E também vendeu-a. A editora inglesa Pearson pagou 1,9 bilhão de reais pelo negócio. As semelhanças acabam aí. Em 2014, Martins comprou a Mundo Verde, rede de mais de 300 lojas de alimentos naturais e outros produtos para o bem-estar.

Martins é um mórmon com uma crença: tudo vai dar certo, pelo menos para ele. Como deu, escreveu Desperte o Milionário Que Há em Você e Sonhos Não Têm Limites, para espalhar otimismo por aí. Os livros estão entre os mais vendidos em 2014. Motivar outros empreendedores é uma missão que ele abraçou.

“Se você continuar fazendo o que sempre fez, vai continuar obtendo sempre o mesmo resultado” é uma das coisas que ele gosta de dizer. Para demonstrar que é mais fácil falar do que fazer, mandou as pessoas se levantarem e juntar as palmas das mãos, como numa oração. Ninguém teve problemas. Em seguida, mandou fazer o mesmo, só que nas costas. Se o leitor tentar e se enroscar todo, não faz mal: pouca gente no curso conseguiu. “Fazer as coisas de um jeito diferente é difícil”, disse.“Mas depois fica a sensação de desafio superado.”

A manhã seguinte começou com o paulista David Pinto, de 30 anos, do grupo Resolve. Ele virou empreendedor depois de ter dificuldade de encontrar funcionários para uma reforma simples em sua casa. “Eu pedia indicações e vi que muita gente estava na mesma situação”, disse.

Ele largou um emprego com um salário bacana para montar um negócio que reunisse pedreiros, carpinteiros, pintores e outros profissionais de serviços gerais. Isso foi há apenas cinco anos. Hoje, seu grupo fatura 400 milhões de reais. Não foi uma ideia original — outros chegaram antes a esse mercado. Alguma coisa diferente ele deve ter feito. Quem foi ao curso descobriu o quê.

Ao meio-dia era hora de almoçar. Mas havia uma razão para segurar a fome — esperar que Janguiê, paraibano de 51 anos, terminasse de contar como passou de menino pobre a fundador de um grupo educacional com 150 000 alunos no Norte e no Nordeste. Na juventude, foi engraxate, feirante e vendedor de picolés.

Nos anos 80, enquanto cursava direito e letras, montou um escritório de cobranças. O negócio foi à falência. Muita gente no lugar dele teria desistido de em­preen­der. “Passei uma borracha nisso e encontrei forças para começar de novo”, disse. Muitos empreendedores que se identificaram com esse jeito de pensar permaneceram lá, conversando com ele. Alguns não devem nem ter comido direito, pois antes das 2 da tarde já estavam de volta para as aulas.

Todos os outros palestrantes que nos perdoem, mas o momento mais emocionante do curso (e talvez de todas as seis edições até agora) ficou por conta do carioca Pedro Janot, de 55 anos. Ele não é famoso como os outros, mas foi um dos executivos mais bem- -sucedidos do país. Foi ele que a Zara e a Azul contrataram, por exemplo, para iniciar suas operações no Brasil.

Em novembro de 2011, sua vida mudou completamente. Ele ainda presidia a Azul quando foi passar o fim de semana num sítio da família, no interior paulista. “Fui dar um passeio a cavalo com um amigo, desmaiei e caí de cabeça no chão”, contou. “Perdi os movimentos do pescoço para baixo.”

Ele contou que, como quase todo mundo naquela situação, teve pensamentos do tipo “por que eu?” “Mas questionar o destino não ajudaria em nada”, disse. “Fui à luta.” Em 2014, ele abriu a Contravento, sua consultoria de varejo de moda. Os resultados de quatro anos de fisioterapia estão aparecendo — na palestra, ele mexeu um pouquinho os dedos. No final, ajudado por enfermeiros, ficou em pé por alguns segundos. “Soltei minhas amarras”, disse. “Soltem as suas.”