Desde Itajubá (MG), esta startup organiza 3 milhões de entregas por mês

Comprovei atua digitalizando logística de empresa para empresa. Escolha do modelo de negócio foi fundamental para equilíbrio entre receitas e despesas

O mercado de logística é mais conhecido pelos motoboys que rondam as metrópoles brasileiras, com caixas de empresas como a brasileira Loggi, a colombiana Rappi ou a americana Uber. Mas entregar e receber produtos é um mercado gigante — o país gasta o equivalente a 12,7% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em logística –, com espaço mais concorrentes que sabem escolher e apostar em um nicho de mercado.

É o caso da mineira Comprovei. Fundada em 2015, a startup acompanha entregas de empresa para empresa (um modelo conhecido como B2B). Seus clientes são as próprias fabricantes dos produtos ou transportadoras próprias e terceirizadas. A startup medeia três milhões de entregas todos os meses e projeta um faturamento de 4 milhões de reais neste ano. O ritmo de crescimento, na casa dos 50% anualmente, deve se manter no próximo ano — sem abrir mão do equilíbrio entre receitas e despesas 

De São Paulo para Minas Gerais

Os engenheiros Halley Takano e Ricardo Miura estagiaram em empresas de logística durante sua graduação, na Universidade de São Paulo. “Vendíamos softwares de gigantes de tecnologia, como Oracle e SAP, para a logística dentro dos galpões das empresas. Mas elas nos contavam que o cliente continuava reclamando da entrega do produto. O problema estava fora das docas”, diz Takano.

Ainda que estivessem na cidade de São Paulo, os sócios decidiram levar sua ideia de negócio para um programa na Incubadora de Empresas e Base Tecnológica de Itajubá (Minas Gerais). A cidade tem um parque industrial próprio e é sede de diversas indústrias, como Helibras (subsidiária da Airbus, da indústria aeroespecial) e Mahle (indústria automotiva).

A incubação de três anos se iniciou em 2013. No processo, os engenheiros passaram de um modelo de negócio focado no motorista (como fazem as startups CargoX e TruckPad) para focado nas empresas que enviam ou recebem as encomendas (chamadas de “embarcadoras”). 

No último ano do programa, em 2015, Takano e Miura fundaram a Comprovei. O negócio recebeu um aporte de 350 mil reais por dois investidores anjos, os hoje sócios Gustavo Padial e Weber Oliveira.

Como funciona a Comprovei?

O objetivo com a Comprovei é o mesmo para as embarcadoras e as transportadoras: entregar mais rápido e melhor, tanto para que o cliente tenha uma percepção melhor do produto quanto para organizar as próprias contas com eficiência. “Ainda é um setor que opera no manual. Os entregadores pedem para os clientes assinarem os canhotos, levam para as empresas e elas os arquivam. Só então a transportadora é paga, o que pode levar dias ou até semanas. Elas também não sabem quais motoristas performam mais”, afirma Takano.

A Comprovei oferece um aplicativo aos entregadores, com soluções que digitalizam o processo logístico. Os motoristas sabem melhor rota, com a previsão de tempo do trajeto, e a contratante acompanha se eles seguem o caminho sugerido. Se houver algum problema que pode ocasionar o atraso da entrega, a embarcadora ou transportadora pode se antecipar e avisar seu cliente de forma proativa. O cliente é notificado quando o seu pedido está chegando.

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No momento da entrega, o motorista pode tirar uma foto do comprovante de entrega assinado e a solução Comprovei digitaliza a foto automaticamente, utilizando uma tecnologia de escaneamento da própria startup. O app também permite colher a assinatura digital do cliente, assinando na própria tela do smartphone. Acompanhando o ritmo do motorista, os próximos clientes na fila também são atualizados do horário que seus pedidos chegarão.

Segundo Takano, o uso da Comprovei diminui o custo dos fretes em 20% pelo acompanhamento do motorista e pelas rotas de entrega otimizadas. As reclamações do cliente final diminuem até 80%, especialmente em entregas capilarizadas e fracionadas (como farmácias e minimercados, que recebem pequenos lotes constantemente).

Com o aumento da base de dados, a Comprovei busca melhorar suas estimativas de tempo. Considerando quanto uma empresa já demorou para receber as cargas que estacionam em sua sede, por exemplo, os entregadores saberão melhor quantas entregas podem fazer no dia. Os clientes distribuidores e revendedores também saberão quando exatamente a encomenda chega, tranquilizando seus próprios consumidores.

A Comprovei medeia três milhões de entregas mensalmente, por meio de 70 mil motoristas, em duas mil cidades em todos os estados brasileiros. São 60 embarcadores ativos de médio e grande porte, como a química BASF, a alimentícia Catupiry e a empresa de papel e celulose Suzano. 

A Catupiry, por exemplo, atua pelo país com um volume de entregas de 24 mil toneladas de produtos refrigerados e congelados por ano. Cerca de 60 veículos próprios e de transportadoras contratadas são monitorados pela Comprovei. A Catupiry reduziu de 600 para 100 os e-mails de cobrança e reclamação ligados às entregas nos pontos de venda.

Resultados

A startup de logística recebe uma comissão que varia de acordo com o volume de entregas, mas costuma ir de 0,50 a 0,80 centavos por pedido. Tem um feito raro entre as startup: o equilíbrio entre receitas e despesas, ou break even, foi atingido em 2017. “Acredito que acertamos na escolha da nossa equipe e na escolha de um modelo B2B, que garante um tíquete médio maior do que na logística B2C e sem a necessidade de capital intensivo”, diz Takano.

No último ano, a Comprovei viabilizou 28 milhões de entregas e faturou 2,7 milhão de reais. Para 2019, o empreendimento projeta um faturamento de 4 milhões de reais e 3,6 milhões de entregas mensais. Em 2020, o plano é faturar 6 milhões de reais e realizar 5 milhões de entregas mensais.

A Comprovei foi reconhecida como a startup de logística mais inovadora no ranking da rede 100 Open Startups sobre as startups brasileiras mais desejadas pelas empresas. No ranking geral, que selecionou as 100 startups de diversas áreas de atuação, ficou classificada na quinta posição.

A sede da empresa continua em Itajubá, com 20 funcionários. “Desde o começo vimos uma mão-de-obra talentosa, mas com pouca disputa no mercado”, diz Takano. Aos poucos, pequenas cidades brasileiras vão ganhando ideias inovadoras para chamarem de suas — que poderão se tornar, quem sabe, clientes da Comprovei.