De executivo a empreendedor: os riscos e benefícios da mudança

Marcelo Noll Barboza, do Labi, e Diego Dzodan, do Facily, contam como se prepararam para a mudança e por que decidiram empreender

Apostar em uma ideia e criar uma nova empresa é uma aventura, repleta de riscos e inseguranças. Mesmo assim, executivos estão deixando o mundo corporativo para abrir startups, em busca do sonho de impactar mais o mundo.

Empreender depois de passar pelo mundo corporativo é o novo desafio de Marcelo Noll Barboza, que passou duas décadas em grandes empresas de saúde, como GE Healthcare, Dasa e Bausch Health Companies. Há dois anos, ele assumiu a presidência do Labi Exames, startup de exames clínicos a preços populares criada ao lado do médico Octavio Fernandes, que conheceu na Dasa. 

O objetivo do Labi Exames é atrair os cerca de 160 milhões de brasileiros que não têm um plano de saúde e que precisam recorrer a exames privados ou ao Sistema Único de Saúde. O motivo para oferecer exames acessíveis é também pessoal. Com dois filhos com diabetes, Barboza se comove com os cerca de 7 milhões de brasileiros que convivem com a doença sem saber. Por isso, o exame de detecção do diabetes custa apenas 34 reais no Labi. 

A história completa do Labi está na edição 1194 da revista EXAME.

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Amadurecimento do mercado

Embora o setor seja lembrado por empreendedores jovens, que abriram um negócio ainda durante a faculdade, a idade média dos fundadores tem crescido. De acordo com a Associação Brasileira de Startups, ABStartups, entre os empreendedores, o maior grupo etário é o de 30 a 35 anos, representando 28,6% do total. Os mais novos, de 20 aos 25, representam apenas 6% do total, enquanto empreendedores de 45 a 50 anos são 7,3% do total. 

O setor também amadureceu. Há hoje cerca de 60 aceleradoras no país. Entre fundos de investimentos e investidores anjo, há cerca de 100 instituições para fomentar o crescimento das startups, diz a instituição.

Há também cada vez mais casos de empreendedores que, após fundar a primeira startup, decidiram criar um segundo negócio. Ariel Lambrecht e Renato Freitas, fundadores da 99, aplicativo de mobilidade, por exemplo, criaram a Yellow, de compartilhamento de bicicleta. Florian Hagenbuch e Mate Pencz, fundadores da gráfica online Printi, abriram a Loft, startup de reformas de imóveis. 

“O sucesso de uma startup não depende da idade ou experiência do fundador, mas sim se ele consegue colocar o cliente no centro e criar soluções que resolvam seus problemas”, diz Arthur Garutti, sócio da empresa de inovação ACE.

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Mais contato com o usuário

Outro executivo a trocar um grande cargo pelo empreendedorismo é Diego Dzodan, que passou quatro anos como vice-presidente do Facebook para a América Latina. Ele criou em 2018 o site de compras coletivas Facily. 

“Estava exercendo um trabalho muito bonito, de impacto no mundo, em meio a um setor que evolui rapidamente como a tecnologia”, diz. Mesmo assim, sentia que faltava uma coisa: contato com o usuário. Segundo ele, como executivo ele estava muito distante do usuário final e que hoje, no comando de uma empresa com cerca de 100 funcionários, consegue dedicar uma grande parte de seu dia a dia para ouvir e entender as dores dos clientes. 

A mudança o ajudou a ter mais contato com o cliente. Como empresário, seu trabalho era coordenar um time de supervisores. Hoje, sua equipe é bem menor, de apenas 14 funcionários, de um total de 100 colaboradores na startup, e sua agenda é mais flexível. Hoje dedica pelo menos uma hora por dia para pensar em maneiras de ajudar o consumidor e cerca de três horas por dia para responder as mensagens que chegam.

“Muitas inovações que aplicamos da Facily vieram de ideias dos usuários”, diz. “Com a agenda mais livre, há mais espaço para exercer a criatividade.”

Preparação por dez anos

Abrir mão de um gordo salário e benefícios também requer preparo financeiro. Para Dzodan, era importante ter recursos o suficiente para garantir a faculdade dos filhos. Já Barboza conversou com a família sobre usar parte dos investimentos guardados para a empreitada.

Para Dzodan, a escolha por empreender foi resultado de um longo processo de introspecção e sua preparação começou muitos anos antes. Durante uma viagem de férias, há uma década, começou a traçar seu plano de futuro em um caderno. Um de seus projetos era “começar uma empresa nova que pode mudar o mundo”. 

“Nos próximos dez anos, voltei diversas vezes às minhas anotações para acrescentar detalhes, como o setor em que gostaria de empreender e qual seria o formato da empresa”, diz o empreendedor. Apesar de ter sido criada há pouco mais de um ano, a startup foi idealizada por uma década, o que pode ajudar a mitigar os riscos de um novo negócio.

“Ainda há uma jornada muito longa pela frente para mim e a Facily, mas já é a etapa mais interessante da minha carreira”, afirma Dzodan.