De agricultor a empreendedor de tecnologia

O paulista Gilmar Batistela tinha 17 anos quando deixou as lavouras de café no interior e procurou emprego em São Paulo. Hoje, é dono da Resource, que faturou mais de 300 milhões de reais em 2012 fornecendo softwares para grandes empresas

São Paulo – Assim como muitas crianças que cresceram na roça, o empreendedor Gilmar Batistela, de 52 anos, começou a trabalhar ainda pequeno nas plantações de café que seus pais ajudavam a administrar em Monte Castelo, cidadezinha do interior paulista. Sem perspectivas de melhorar de vida, foi estudar na capital e procurar trabalho.

Desde o primeiro emprego, como empilhador de peças num almoxarifado, percorreu uma trajetória que o levou a criar a Resource, que desenvolve softwares e integra sistemas. No ano passado, faturou mais de 300 milhões de reais vendendo para bancos, varejo e indústrias. “Competimos com multinacionais como IBM e Accenture”, diz Batistela. Neste depoimento a Exame PME, ele conta sua história. 

“Passei a infância em Monte Castelo, cidade com apenas 4.000 habitantes do interior de São Paulo. Meus pais eram agricultores e tínhamos uma rotina bastante puxada. Aos 7 anos de idade, eu já conciliava os estudos com o trabalho. Acordava bem cedinho e caminhava 7 quilômetros até a escola. À tarde, quando voltava, pegava a enxada e ia para a roça ajudar meu pai nas plantações de café. 

Durante o ensino médio, em meados dos anos 70, comecei a sonhar em fazer engenharia, um curso sotisficado para a época. Os professores diziam que eu levava jeito para a coisa,  pois tirava excelentes notas em matemática. Além disso, não havia como ficar em Monte Castelo.

Uma forte geada havia desvastado as lavouras. Nesse período, meus pais já haviam conseguido comprar alguns pedaços de terra, mas mesmo as famílias com posses estavam empobrecendo. Quando podiam, os jovens migravam para as cidades maiores da região ou para a capital do estado. Foi o que fiz.

Em janeiro de 1978, com 17 anos, cheguei a São Paulo. Fui morar de favor na casa de parentes. Minha intenção era procurar emprego e fazer faculdade. Foi difícil conseguir trabalho fixo na cidade grande. Diziam que eu não tinha nenhuma habilidade. E era verdade. Comecei, então, a aceitar alguns bicos temporários.


O primeiro serviço foi no almoxarifado da Telesp (antiga empresa de telefonia do estado). Minha função era carregar aparelhos de PABX e orelhões para todo canto. No horário do almoço, eu passeava pelas salas, sentava em alguma mesa e fingia que estava digitando na máquina de escrever. Eu pensava que alguém poderia me ver ali e me promover para trabalhar dentro do escritório. Quanta ingenuidade! Ficava horas ali sozinho. Eu não tinha dinheiro para comer fora e levava marmita de casa. 

 Um tempo depois, participei de um processo seletivo para trabalhar na aérea financeira da Vasp (companhia aérea que não existe mais). A função exigia habilidade em calculadora elétrica, e fui reprovado nos testes. Minha sorte foi que a gerente para a qual a vaga tinha sido aberta me chamou num canto e disse que era de Monte Castelo e conhecia minha família. Ela decidiu me dar uma chance.

Em pouco tempo provei a ela que era capaz de aprender o serviço.  Com estabilidade no emprego, em janeiro de 1979 me matriculei na faculdade. Mas não pude escolher engenharia, que exigia dedicação quase que exclusiva.  Optei por matemática com ênfase em processamento de dados. Foi durante o curso que tive contato pela primeira vez com programação de softwares.

Me apaixonei pela ideia de pegar uma máquina e conseguir programá-la para fazer o que quisesse. Me transformei num verdadeiro nerd. Na época, os programas de computador tinham primeiro de ser escritos à mão por meio de um fluxograma de dados. Eu passava madrugadas em claro para dominar os cálculos.

Quando me formei, em 1982, já trabalhava no departamento de tecnologia da Vasp. Depois, fui para a empresa de confeções e calçados Alpargatas como analista de sistemas, uma posição acima da de programador iniciante e que demanda uma visão maior das necessidades da empresa. Um novo mundo se abriu para mim. Perdi a timidez e ganhei aptidão para negociar e me relacionar com executivos de diversas áreas de negócios.


Em 1991, com 30 anos, fui chamado para trabalhar com um conhecido que prestava serviços de TI para o então Unibanco. Ele propôs que eu abrisse minha própria empresa para ajudá-lo a atender às demandas do banco. Achei que era um desafio promissor. Pedi demissão e montei o escritório que foi o embrião da Resource. No início, só havia três mesas — a minha, a de um programador e a de uma estagiária. 

Com o tempo, meus ex-empregadores também passaram a encomendar softwares. O negócio foi ganhando escala. Desde a época do Unibanco, sempre mantive um relacionamento bacana com o mercado financeiro. A partir de 1996, fomos conquistando grandes clientes, como Credicard, banco Noroeste, Itaú, Bradesco, Santander e Citi.

Hoje, o setor representa 60% do faturamento da Resource. Acredito que essa relação de confiança venha da minha preocupação em construir um negócio que preza a transparência. Nunca escondi números, por exemplo. Faço questão de ser auditado. Os bancos pedem nossos balanços para atestar a saúde financeira da empresa. 

Enfrentamos duas grandes crises na trajetória da Resource. A primeira foi em 2000, quando a  internet se disseminou pelo mundo. Na época, a empresa faturava cerca de 20 milhões de reais. As companhias americanas demandavam profissionais de TI que quisessem se mudar para os Estados Unidos. Vi ali a oportunidade de intermediar o envio de brasileiros como mão de obra especializada. Abri duas filiais da Resource, em Nova York e em Miami. Mas cinco dias antes de o primeiro grupo embarcar, em 11 de setembro, aconteceu o atentado às torres gêmeas. A economia americana parou e as contratações foram canceladas. O plano de internacionalização da Resource foi por água abaixo.

Em 2002, houve outro momento delicado. Fomos contratados por três bancos para montar um grande portal de comércio eletrônico. Para isso, importamos uma metodologia de programação cara e sofisticada. Na hora de entrar no ar, o sistema não rodou de jeito nenhum e não conseguimos resolver o problema. Tivemos de jogar no lixo um trabalho que havia consumido 1 milhão de dólares e um ano inteiro de dedicação. Para a empresa não quebrar, precisei demitir metade dos 300 funcionários. 


O episódio afetou a imagem da Resource. Não conseguíamos novos contratos. Percebi que os próprios empregados  ajudavam a espalhar boatos negativos. No final daquele ano, numa tentativa desesperada de recuperar a credibilidade da empresa, mandei organizar uma festa de arromba para os funcionários. Sorteamos um carro e uma moto. Sabe que funcionou? As pessoas pensavam: a empresa não deve estar quebrando, senão como estaria sorteando um carro?

Aos poucos, retomamos o crescimento. A partir de 2004 abrimos filiais em 13 cidades do país. Hoje, regiões como Sul, Norte e Nordeste sediam grandes grupos empresariais regionais que estão se profissionalizando e precisam das tecnologias que a Resource oferece. Também abrimos filiais no Chile e na Argentina e reativamos o escritório de Miami. Em 2007, iniciamos a aquisição de dez concorrentes e carteiras de clientes mais fortes que a Resource em determinadas áreas de atuação, como indústrias e varejo. Isso diminuiu nossa dependência do setor financeiro.

Ainda não penso em me afastar do comando da empresa. Sempre tive muita vontade e persistência para superar desafios e vencer na vida — uma atitude que vejo faltar entre muitos jovens que chegam ansiosos ao mercado hoje em dia e querem reconhecimento imediato. Ainda tenho dois grandes sonhos a realizar: transformar a Resource numa fornecedora global de TI e alcançar 1 bilhão de reais de faturamento até 2017 — sozinho ou com a ajuda de sócios estratégicos que venham a entrar no negócio. Também estamos negociando para breve a aquisição de mais concorrentes.”

Com reportagem de Bruno Vieira Feijó