“Corretoras” de bitcoin crescem até 1.400% no faturamento em 2017

Negócios como Foxbit e Mercado Bitcoin explodiram em usuários, transações e receitas - mas têm o desafio de lidar com uma demanda inesperada.

São Paulo – No mundo dos investimentos, não se fala em outro assunto que não seja o das criptomoedas descentralizadas – tendo como principal expoente a bitcoin.

É uma moeda que não pode ser encontrada colocando a mão no bolso, ou ser controlada por alguma instituição financeira: ela é produzida por milhares de pessoas ao redor do mundo, que emprestam a capacidade de seus computadores para criar as bitcoins e registrar as transações feitas.

Mais do que tal processo, chamado de “mineração”, as criptomoedas chamaram a atenção por suas grandes valorizações: hoje, tem até gente procurando seu HD com as moedas digitais no lixão.

Mas tal número já foi maior: nas últimas 24 horas, a bitcoin caiu assombrosos 25%. Seus adeptos acreditam, porém, que logo o valor voltará a subir – incluindo diversos brasileiros, que resolveram colocar suas economias em intermediadoras financeiras que transacionam a compra e venda de criptomoedas.

O Site EXAME falou com as duas maiores empresas que fazem tais operações no Brasil, Foxbit e Mercado Bitcoin, para saber como lidar com moedas digitais se tornou um negócio cada vez mais atrativo – e exigente.

O interesse por bitcoins

Rodrigo Batista, CEO do Mercado Bitcoin, elenca três fatores que explicam a demanda maior pelas criptomoedas em 2017: regulações legais, soluções técnicas e possibilidades de mercado.

“No aspecto legal, tivemos grandes avanços. Diversos países se posicionaram em relação à bitcoin, sendo o principal deles o Japão”, afirma. “O país se tornou o maior mercado dessa moeda em maio, sendo a bitcoin equiparada a qualquer moeda estrangeira. A atitude dos orientais motivou a Austrália a indicar que regulará o ativo de forma semelhante. Obviamente que aconteceram proibições temporárias, como a da China, mas o impacto delas não foi tão forte quanto o das notícias positivas.”

Para o CEO, também houve discussões técnicas acaloradas nos últimos dois anos – especialmente sobre o aumento da capacidade de processamento da rede. A maioria das questões foi resolvida neste ano (o que inclui o surgimento de uma nova moeda, a bitcoin cash).

Por fim, em outubro deste ano, futuros de bitcoin passaram a ser negociados por duas operadoras americanas de bolsas: a Chicago Board Options Exchange (CBOE) e a Chicago Mercantile Exchange (CME). “O ativo financeiro digital ficou ainda mais atrativo para clientes institucionais, que passaram a vê-lo de forma diferente. Isso gera uma nova demanda e, consequentemente, a valorização das moedas digitais.”

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Segundo Marcos Henrique, sócio da FoxBit, o interesse no mercado brasileiro de bitcoins triplicava a cada ano, entre 2011 e 2016. Em 2017, houve uma explosão. “Todas as empresas que movimentaram bitcoin no Brasil, em 2016, somaram 330 milhões de reais transacionados. Em 2017, o número subiu para 6 bilhões de reais”, afirma, ressaltando que a FoxBit possui cerca de 43% do mercado.

Dentro do ano, o grande pico de interesse ocorreu a partir de outubro – visto nos números de usuários cadastrados e de volume de operações nas empresas que transacionam criptomoedas.

Henrique dá o alerta costumeiro quando se fala em bitcoins: não invista um valor vital para sua sobrevivência financeira.

“As pessoas têm de entender que bitcoin continua sendo um investimento agressivo, de risco. Pressupõe uma adaptação à tecnologia, um conhecimento de como guardar suas moedas de forma segura contra possíveis ataques. Também pressupõe um planejamento de longo prazo para tal investimento – se a bitcoin despencar, que isso não prejudique suas finanças pessoais.”

Números de negócio: crescimento explosivo

O Mercado Bitcoin começou a operar em 2011, mas foi adquirido em 2013 pelos atuais sócios da plataforma: André Oda, Gustavo Chamati, Maurício Chamati e Rodrigo Batista. No mesmo ano, a empresa foi formalizada e teve um investimento inicial de 300 mil reais, vindo dos próprios empreendedores. O Mercado Bitcoin trabalha com outras criptomoedas, além da “tradicional” bitcoin: a bitcoin cash e a litecoin.

Já a FoxBit nasceu em dezembro de 2014 e até hoje comercializa apenas bitcoins. O negócio começou com os fundadores João Canhada e Guto Schiavon e um investimento anjo de 440 mil reais, que incluiu os sócios Felipe Trovão, Bernardo Faria e Marcos Henrique. A FoxBit também transformou alguns colaboradores em sócios, por ter um esquema de partnership. Hoje, há nove sócios no negócio.

Tanto a Foxbit quanto o Mercado Bitcoin se consideram as maiores intermediadoras financeiras de bitcoin do Brasil. Porém, cada uma delas usa critérios distintos. A FoxBit considera o volume em reais movimentados na plataforma, por meio do BitValor.com, além do market share divulgado pelo site – em 2017, a FoxBit tem 42,9% do mercado, contra 34,1% do Mercado Bitcoin.

Já o Mercado Bitcoin considera o volume de negociações de moedas digitais em dólares, visto pelo CoinMarketCap. No site, o Mercado Bitcoin ocupa a 44ª posição entre intermediadoras financeiras do mundo todo, enquanto a FoxBit está em 47º lugar.

Clientes e transações

No começo de 2017, o Mercado Bitcoin tinha 200 mil cadastros. Hoje, possui 700 mil clientes – segundo a empresa, mais do que a própria B3, que possui 500 mil investidores cadastrados. Metade desses clientes são ativos (já fizeram alguma ação de depósito ou saque).

Na última semana, a média de cadastros tem sido de 10 mil por dia. “Temos os mais diferentes perfis de clientes, do micro ao grande negociador. Porém, não divulgamos o ticket médio deles”, afirma Batista.

A FoxBit começou seu ano com 100 cadastros por dia, totalizando 50 mil usuários em janeiro. Em dezembro, houve dias em que havia 4.000 cadastros – o número de clientes, hoje,  já é de 300 mil. Deles, 40% são ativos. A compra mínima na FoxBit é de 250 reais, enquanto o ticket médio é de 10 mil reais.

O número de cadastros acompanha o crescimento explosivo de volume de operações: na FoxBit, houve um crescimento de 700% no volume nos últimos dez dias. No Mercado Bitcoin, foram negociados 105 milhões de reais em todo o ano de 2016 pela plataforma; apenas em dezembro deste ano, a média diária de transações é de 125 milhões de reais.

Monetização e faturamento

Como forma de monetização, a FoxBit afirma que sua maior fonte de faturamento são as taxas de saque em reais: quando uma pessoa vende bitcoins, ela precisa tirar o valor correspondente a partir de uma conta bancária registrada na plataforma. A taxa para isso é de 1,39% sobre a quantia transacionada. A empresa não cobra taxa de depósito.

Outra forma de monetização são as taxas para operações de compra e venda de bitcoins dentro da plataforma, em uma espécie de mercado secundário: você pode vender certa quantidade da moeda a certo preço, ou comprar alguma oferta interessante cadastrada na plataforma. Nessas operações, as taxas vão de 0,25% e 0,50% do valor transacionado. Veja mais informações no site.

O Mercado Bitcoin também ganha com taxas: nas operações de depósito e saque, há uma taxa fixa de 2,90 reais mais uma porcentagem de 1,99% sobre o valor. Já nas operações de compra e venda de moedas digitais, as taxas são respectivamente de 0,30% e 0,70% sobre o transacionado. Veja mais informações no site.

Nenhuma das intermediadoras abre números absolutos de faturamento, mas percentuais. Não dá para saber se faturam muito ou pouco apostando nas criptomoedas: apenas constatar que a receita cresce a cada dia.

A FoxBit diz ter crescido 1.400% em faturamento neste ano, em relação a 2016. Já o Mercado Bitcoin divulga um crescimento de 500% seu faturamento na mesma base de comparação.

Demanda, reclamações e planos para o futuro

Com o aumento da demanda, vieram os obstáculos de infraestrutura – e as reclamações dos investidores.

“O aumento do interesse aconteceu de uma forma não prevista pelo setor inteiro, e não apenas com empresas brasileiras. Em um único dia, batemos o recorde 120 milhões de reais movimentados. Diversos negócios tiveram problemas com suas plataformas, gerados pelo excesso de usuários”, afirma Henrique, da FoxBit. “Nenhum setor consegue multiplicar sua base de atendimento tantas vezes em um tempo tão curto: é um desafio de tecnologia e de recursos humanos.”

A FoxBit travou o cadastro de novos usuários interessados em comprar e vender bitcoins até 8 de janeiro. “Obviamente temos de prestar serviços de qualidade, e estamos com dificuldade de atender nossa base. Foi uma decisão difícil, mas optamos por travar os cadastros para organizar nosso backlog [base de dados dos usuários cadastrados e em processo].”

A fila de espera, hoje, está em 10 mil usuários – e esse é o volume que a empresa planeja zerar até o começo de janeiro. Para dar conta da demanda, a primeira ação tomada foi iniciar o processo de automatização de algumas operações, como validação de usuários.

Os saques e depósitos também serão automatizados. “É importante dizer que as reclamações de saques e depósitos nas redes sociais e em sites especializados, em sua maioria, vêm de clientes com problemas cadastrais”, defende Henrique.

“Por exemplo, a pessoa faz uma transferência de 70 ou 80 mil reais para a conta dela. Isso ativa nosso sistema de segurança monetária e pedimos um comprovante de recursos tão significativos, como imposto de renda, documento de herança ou contato de venda de um terreno. Via de regra, um cliente com documentos certinhos não fica mais de 48h sem receber um saque ou depósito.”

A segunda ação da FoxBit para dar conta da demanda é aumentar a equipe. Em dezembro de 2016, havia 12 pessoas na equipe; hoje, há 60 funcionários e 10 vagas em aberto para áreas mais operacionais, como a verificação de cadastros por meio de compliance e sistemas anti lavagem de dinheiro (“AML”). Para 2018, o negócio planeja ter 250 funcionários – e não apenas em funções operacionais, mas também em áreas como marketing e tecnologia da informação.

Já o Mercado Bitcoin afirma não ter problemas no momento de cadastro porque seu sistema já é automatizado para tal operação. “Nosso sistema é próprio, em parceria com a Amazon, e nos permite ter uma estrutura forte e lidar com surpresas do mercado. Não tivemos problemas em relação a esse ponto e os novos cadastros seguem acontecendo sem lista de espera”, afirma Batista.

Os problemas que o Mercado Bitcoin enfrenta estão ligados às operações bancárias – a empresa pediu maiores prazos para saques e depósitos. “Parte dessas operações depende de mão de obra. Por isso, nossa equipe de operações está dobrando de tamanho este mês.”

A equipe do Mercado Bitcoin, no começo de 2017, era de 10 pessoas. Até o final do ano, a meta é chegar a 100 funcionários.

Para o ano que vem, um dos planos do Mercado Bitcoin é incluir novas moedas digitais. A FoxBit também pretende ir além das bitcoins.

“Em 2014, quando a gente abriu a empresa, as outras criptomoedas não eram tão relevantes. Durante os três primeiros anos, resolvemos focar no que fazemos muito bem, que é bitcoin. Mas temos a previsão de, no primeiro trimestre de 2018, colocar outras criptomoedas: a primeira será a etherium, e a segunda ainda estamos avaliando entre dash, litecoin e outras opções”, afirma Henrique.