Contas com real, dólar e euro: os planos da Transferwise para o Brasil

A fintech criada por estonianos vê o Brasil como um de seus cinco maiores mercados e pretende trazer diversas novidades -- se o Banco Central aprová-las

A Transferwise, fintech que oferece uma solução de transferência internacional alternativa a bancos tradicionais e serviços como o PayPal, tem grandes planos para o mercado brasileiro. Mas todos dependerão da aprovação do Banco Central, uma das principais autoridades monetárias do país.

Criada pelos estonianos Taavet Hinrikus e Kristo Käärmann em 2011, a Transferwise cobre mais de 1.300 rotas e 49 moedas. A fintech tem cinco milhões de clientes e processa mais de cinco bilhões de dólares em pagamentos mensalmente. Com isso, estima uma economia de mais de 1 bilhão de dólares por ano aos seus consumidores. O negócio é lucrativo desde 2017 e captou 772,7 milhões de dólares com investidores.

O real é uma das cinco moedas mais transacionadas pela Transferwise, o que indica que o Brasil é um de seus cinco maiores mercados. A fintech espera trazer ao Brasil serviços para pessoas jurídicas e para pessoas físicas, como contas multimoedas e cartões que descontam com o melhor câmbio possível. 

As funcionalidades deverão ajudar no crescimento das movimentações brasileiras, que já são de 15 bilhões de reais.

Como funciona a Transferwise?

Diferentemente de serviços como o PayPal, para ver os preços e receber dinheiro pela Transferwise não é preciso abrir uma conta na fintech. O usuário cadastra sua própria conta bancária e vê antecipadamente o preço das transferências, com taxas já inclusas. Para realizar a transferência, aí sim é preciso abrir uma conta na Tranferwise. É preciso colocar seu nome completo, data de nascimento, telefone e endereço e os dados bancários do beneficiário do dinheiro. 

O câmbio é garantido por 48h, tempo para ele realizar o pagamento em reais por meio de boleto ou TED. Depois desse pagamento, a transferência costuma ser feita em até 24h e o dinheiro cai na conta do beneficiário na moeda desejada.

O câmbio praticado pela Transferwise é o comercial. Tal decisão, segundo Sirotá, permite que os spreads [diferença entre preço de venda e o de compra do câmbio] cobrados sejam menores do que os vistos nos bancos tradicionais. 

Segundo a Transferwise, os bancos cobram uma média de 5% de spread. “As pessoas se tornaram reféns da cotação do câmbio e das taxas. Queremos mudar isso”, afirma Heloísa Sirotá, gerente geral da Transferwise no Brasil.

Heloísa Sirotá, gerente geral da Transferwise no Brasil Heloísa Sirotá, gerente geral da Transferwise no Brasil

Heloísa Sirotá, gerente geral da Transferwise no Brasil (Tiago Queiroz/Transferwise/Divulgação)

Taxas e insatisfação

De acordo com uma pesquisa da própria Transferwise e da empresa de marketing de conteúdo Rock Content, 94,6% das pessoas que fazem remessas para o exterior afirmam entender quanto pagam por uma transferência internacional. Porém, só 8,7% sabiam que não pagam apenas uma tarifa fixa, mas também a diferença entre a taxa de compra e venda do câmbio. Apenas 11,2% dos entrevistados se consideram muito satisfeitos com as taxas cobradas pelos bancos.

Em vez de transferências diretas entre fronteiras, o que a TransferWise faz é encurtar o caminho. Ela faz parcerias com bancos locais nos países em que atua e deles manda o dinheiro na moeda local para os beneficiários. Por aqui, a fintech faz parceria com o Banco Rendimento e o MS Bank, por exemplo, que precisam enviar relatórios sobre as transações para o Banco Central.

Mesmo com intermediários, a fintech afirma que seu envio é até três vezes mais econômico do que em bancos tradicionais. Em uma simulação de transferência de mil dólares, a diferença média entre a Transferwise e bancos é de “mais de 200 reais”. 

A Transferwise também estima que os brasileiros teriam economizado 200 milhões de reais em 2018 com sua solução. O Brasil enviou mais de dois bilhões de dólares em remessas para o exterior nesse mesmo ano, segundo o Banco Central.

No Brasil, a média de tarifa cobrada pela Transferwise é de 1,5%. Globalmente, a média é de 0,67%. A TransferWise justifica que as taxas praticadas no Brasil são superiores em grande medida por conta da inclusão do IOF. Para enviar uma transferência internacional para a conta de outra pessoa no exterior, o IOF é de 0,38% do valor a enviar. Já se a transferência for enviada para conta de mesma titularidade, o IOF é de 1,1%.

Novos serviços e obstáculos no Brasil

A Transferwise chegou ao Brasil em abril de 2016. A maioria dos clientes da Transferwise por aqui são pais sustentando filhos no exterior; brasileiros que migraram enviando dinheiro para sua família por aqui; ou brasileiros que migraram trazendo ao novo país o dinheiro de sua aposentadoria no Brasil. 

Os maiores destinos dos brasileiros que usam a Transferwise são Estados Unidos, Portugal, Canadá, Reino Unido e Austrália. O cliente médio da Transferwise tem 39 anos de idade e é de classe médio para cima. O tíquete médio de transação é de 1.000 dólares, cerca de 3.975 reais.

A Transferwise já mediou a movimentação de 15 bilhões de reais por aqui. “Nosso volume está crescendo, principalmente por uma divulgação boca a boca. Temos espaço para crescer na pessoa física e, no futuro, dialogar com empresas”, afirma Sirotá.

A Transferwise busca trazer uma série de funcionalidades que só existem no exterior ao Brasil. Por exemplo, permitir as transferências internacionais entre contas de pessoa jurídica. Isso permitiria que um pai brasileiro enviasse o dinheiro da mensalidade em uma universidade americana diretamente, por exemplo, ou atender pequenas e médias empresas que realizam pequenas exportações.

Outras novidades serviriam tanto para empresas quanto para pessoas físicas. A principal delas é uma conta multimoeda, na qual é possível ter valores em reais, dólar, euro e qualquer outro câmbio ao mesmo tempo. 

EXAME pôde testar a funcionalidade e ver a conversão automática dos valores na cotação desejada. O recurso poderia servir para deixar dinheiro em dólar apostando em sua valorização futura e depois convertê-lo para reais, por exemplo. 

Lá fora, a Transferwise já possui um cartão associado à conta multimoeda que desconta as transações no câmbio que tenha a conversão mais eficiente. “É como ter a vida de um local em qualquer país”, resume Sirotá.

No momento, a fintech está pleiteando com o Banco Central uma licença para operar os novos serviços financeiros. A Transferwise atende apenas quem faz transferências para disponibilidade própria ou para outros residentes. Viajantes e suas compras internacionais não entram no público atendido hoje, por exemplo. 

As conversas começaram há dois anos e, supostamente, estão nos estágios finais. As licenças permitiriam não apenas novos serviços, mas a independência de parceiros locais. A Transferwise ganharia mais agilidade nos processos e afirma que poderia reduzir suas taxas.

A Transferwise se insere em um efervescente mercado de fintechs brasileiro. São mais de 500 startups de serviços financeiros, todas com a proposta de oferecer algo que falta nas instituições financeiras tradicionais. Algumas alcançaram avaliações de mercado bilionárias, como PagSeguro, Stone e Nubank. Como elas já mostraram, combater as altas taxas dos serviços bancários brasileiros pode se provar um bom negócio — e a Transferwise há tempos busca participar do movimento. Só está faltando uma canetada do Banco Central.