Como os investidores pensam

Na hora de buscar investimento externo, muitos empreendedores têm ideias preconcebidas — algumas vezes irreais — sobre como funcionam os investimentos de risco. Veja os mitos mais frequentes

São Paulo – Nos últimos anos, o investimento de risco tem ganhado força no Brasil. Segundo pesquisa feita pela consultoria KPMG, em 2013 os fundos de private equity e venture capital investiram 17,9 bilhões de reais em empresas brasileiras, 20% mais do que em 2012. Também tem se popularizado a figura do investidor-anjo, que faz aportes em empresas nascentes antes mesmo de os primeiros resultados serem alcançados.

De julho de 2012 a julho de 2013, eles investiram 619 milhões de reais, de acordo com uma pesquisa da Anjos do Brasil, principal associação do gênero no país. É 25% mais do que no ano anterior. Mesmo que haja mais dinheiro na praça, o investimento de risco ainda gera dúvidas nos empreendedores. Em alguns casos, as informações inexatas se transformaram em mitos.

A seguir, Exame PME reúne as principais ideias preconcebidas — e descreve o que há de certo e de errado por trás delas.

Para receber um aporte em sua empresa, o empreendedor precisa necessariamente ter anos de experiência em gestão

Os investidores encaram a experiência em gestão como uma das características esperadas de um candidato a receber aporte — mas não a mais importante. Na visão deles, é fundamental que o empreendedor tenha clareza sobre como seu negócio irá gerar receitas — e em quanto tempo elas cobrirão os custos.

“Um empreendedor precisa cuidar da estratégia, buscar novos mercados e se certificar de que seu planejamento inicial continua fazendo sentido”, diz Jairo Margatho, gestor do Criatec, fundo de capital semente criado pelo BNDES. “Para cuidar das tarefas do dia a dia, basta contratar um administrador.”

Outra característica valorizada é a capacidade de reunir profissionais com habilidades complementares para fazer a empresa gerar o retorno que o investidor espera. “Ter gente capacitada e motivada é meio caminho para fazer o negócio prosperar”, diz Margatho.

Quem reúne todas essas características é a empreendedora carioca Zica de Assis, fundadora da Beleza Natural, rede de salões de tratamento para cabelos cacheados. Zica não tem formação como administradora e, antes da Beleza Natural, nunca tinha trabalhado em grandes empresas. Mesmo assim, em 2013 o fundo GP Investimentos comprou 33% da empresa por 75 milhões de reais.

O aporte foi conseguido porque Zica sempre teve clareza sobre seus pontos fortes — e soube delegar a outros profissionais as tarefas com as quais não tinha tanta familiaridade. Logo no começo da empresa, Zica percebeu que precisaria de ajuda para elaborar um plano de expansão.

Foi aí que Leila Velez, sua ex-cunhada e sócia, passou a administrar a empresa — e implantou os processos que permitiram à Beleza Natural criar um negócio de grande escala num setor em que isso é pouco comum. “Gosto de me dedicar ao treinamento das funcionárias e de atuar como embaixadora de nossa marca”, disse Zica a Exame PME na época do aporte.

Só empresas que criaram produtos e serviços inéditos têm chance de receber dinheiro

O ineditismo não é o principal critério usado pelos investidores para selecionar empresas. Negócios pioneiros podem até ter mais desvantagens do que vantagens — já que tendem a ser mais arriscados. “Os investidores costumam gostar de pequenas inovações em modelos que já dão certo”, diz Maria Rita Spina, da Anjos do Brasil.

Um exemplo disso é a loja de móveis e artigos para casa Mobly, de São Paulo, criada pelos empreendedores Marcelo Marques, de 33 anos, Victor Noda, também de 33, e Mario Fernandes, de 42. O negócio não é pioneiro — varejistas como Casas Bahia e Tok&Stok já vendiam móveis pela internet muito antes de a Mobly existir.

Mas seus fundadores conseguiram melhorar a gestão dos estoques, que costumam gerar altos custos para empresas de comércio eletrônico. A Mobly negocia com parte de seus 600 fornecedores o envio dos produtos diretamente para a casa do cliente — algo pouco usual entre seus concorrentes. “Com isso conseguimos ter um portfólio de 45 000 produtos”, diz Marques.

Isso chamou a atenção dos gestores do fundo alemão Rocket, que fez um aporte na empresa em 2011. “Já tínhamos investido numa empresa alemã que fazia algo parecido”, diz Rodrigo Sampaio, presidente da Rocket na América Latina. Segundo estimativas, a Mobly faturou 120 milhões de reais em 2013 — mais do que o dobro do ano anterior.

Especula-se que a empresa tenha levantado 80 milhões de reais em investimentos desde 2011 — além do ­Rocket, o banco JP Morgan e o grupo venezuelano Cisneros também são sócios da empresa.

Depois do aporte, as ideias do empreendedor ficam em segundo plano porque o investidor sempre terá o controle da operação 

Não se trata de uma regra, mas a maioria dos investidores de pequenas e médias empresas não costuma comprar a maior parte das cotas. Eles alegam que, com mais participação acionária, o empreendedor é motivado a perseguir os resultados almejados. Não quer dizer que os investidores abram mão de participar das decisões.

Geralmente, os pontos mais importantes são definidos em conjunto — é para isso que servem os conselhos consultivos e de administração. “Para o investidor, a presença do empreendedor é fundamental”, diz Camila Farani, diretora da Gávea Angels e cofundadora do grupo Mulheres Investidoras-Anjo. “O criador da empresa geralmente conhece bem seu mercado e, com a orientação dos sócios, pode reagir com rapidez a mudanças de cenário.”

Em 2009, o paranaense Roberto Dariva, de 40 anos, teve de lidar com suas desconfianças quando a Navita, sua prestadora de serviços de telecomunicações, recebeu um aporte de 2,3 milhões de reais do fundo Invest Tech. “Tinha sempre a impressão de que algo importante aconteceria sem eu saber”, afirma Dariva. Passado algum tempo, ele se surpreendeu positivamente.

Dilemas importantes foram resolvidos em conjunto. Um deles foi a decisão de vender uma unidade de negócios menos rentável da Navita, que fazia sites de intranet para outras empresas. “O Roberto concordou com a venda depois que mostramos que, no futuro, aquela operação poderia corroer a rentabilidade”, diz Miguel Perrotti, presidente da Invest Tech.

Nos últimos cinco anos, a Navita tem crescido a taxas anuais de 45%. Segundo estimativas de mercado, a empresa deverá faturar cerca de 30 milhões de reais em 2014. Recentemente, a Navita recebeu um novo aporte, dessa vez de um fundo mantido pela fabricante americana de processadores Intel.

O empreendedor é sempre obrigado a deixar a empresa quando os investidores saem da operação

Não é bem assim. Um empreendedor só é obrigado a vender sua fatia e sair da operação caso, durante a negociação do aporte, tenha permitido ao investidor acionar uma cláusula conhecida como drag-along (algo como “arrastar todos juntos”) no momento de sua saída. “Esse dispositivo prevê que, se um dos sócios quiser vender sua parte, o outro será obrigado a fazer o mesmo”, diz Margatho, do Criatec.

De maneira geral, os contratos também trazem uma cláusula chamada de tag-along (algo como “seguir o mesmo preço”). Ela assegura que, quando um sócio decide vender sua participação a terceiros, o outro automaticamente terá direito a negociar suas cotas em condições idênticas.

Há também uma cláusula de preferência de compra, que determina que o lado que pretende sair só poderá vender sua parte a terceiros se os demais sócios manifestarem desinteresse em comprá-la nas mesmas condições.