Como as empreendedoras superam os desafios do dia a dia?

Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora, compartilhou alguns desafios que as empreendedoras enfrentam em sua jornada e deu dicas de como superar barreiras.

São Paulo – A primeira necessidade de uma mulher que está pensando em abrir um negócio é identificar uma oportunidade de negócio. O que isso significa? Ao invés de abrir alguma coisa que será igual a todas as outras, a mulher precisa identificar, dentro de suas competências e experiências, o que de fato seria uma oportunidade.

As mulheres também precisam de inspiração, conhecer outras empreendedoras, outros modelos que deram certo e que estão se desenvolvendo. Outro ponto importante é a capacitação, pois empreender por si só já é uma jornada: se a mulher não se capacitar nesse momento, a jornada ficará muito mais difícil.

A mulher que já abriu um negócio…

Essa mulher normalmente trabalha sozinha, pois no começo dificilmente ela tem parceiros e percebe que, de fato, a capacitação faz toda a diferença na sua vida. Pesquisas mostram que, em sua maioria, as mulheres trabalham home office, e isso está muito relacionado ao fato de ficar perto dos filhos.

Quando ela já abriu o negócio, ela também descobre modelos femininos, que são mulheres que ela usa de inspiração e começa a seguir para ajudar nesse momento da sua jornada. Quais são as necessidades básicas desse estágio do negócio?

Vender: segundo pesquisas, a maior parte das mulheres não gosta de vender. Vender é absolutamente essencial, principalmente quando o negócio está começando.

Acesso ao capital: esse é um tema super abrangente. Muitas vezes, as mulheres acham que o dinheiro vai significar a mudança do negócio, mas, na verdade, ela não tem um plano de negócio bem feito, justificando esse problema como falta de capital.

Mentoria: no momento em que você está precisando crescer ou mudar seu plano de negócio, você começa a perceber o quanto a mentoria é fundamental e faz uma grande diferença para o seu negócio.

Networking: em todas as pesquisas realizadas, os resultados apontam que as mulheres fazem menos networking do que os homens. Segundo pesquisa do GEM (Global Entrepreneurship Monitor), as brasileiras são as que menos fazem networking no mundo.

“Nós, mulheres, somos capazes de contar toda a nossa vida para alguém que acabamos de conhecer no ônibus, mas somos incapazes de falar do nosso negócio para essa mesma pessoa”, afirma Ana Fontes.

Networking pode ser conhecer a pessoa certa no momento certo, na hora certa e isso pode significar a mudança do seu negócio. É preciso parar de pensar em networking como sendo algo que se faz em um lugar específico. Os homens fazem networking no banheiro, no bar, no almoço e no futebol, então por que as mulheres tem essa restrição? As mulheres precisam falar com as pessoas, seja na escola dos filhos ou em outro lugar.

Um dado bastante interessante é que mulheres costumam ir a eventos de parzinho, sempre acompanhadas, e ficam com o parzinho do início ao fim do evento. “Não é possível ir a um evento com 600 pessoas e ficar o dia inteiro conversando só com o seu par: vai ao banheiro com a amiga, come com a amiga, senta com a amiga. Parece brincadeira, mas é um ponto muito importante: é preciso conhecer outas pessoas”, afirma Ana.

Os negócios passam a ter um momento de crescimento quando as mulheres passam a fazer mais networking. Ele é essencial para o seu negócio e não pode ficar por último na sua lista de tarefas. Nós sabemos que as mulheres têm filhos, cachorro, papagaio, marido, mas pelo menos uma vez a cada quinze dias as mulheres precisam ir a um evento para fazer networking.

Depois de pensar no negócio e o inaugurar, chega o ciclo das dificuldades…

A mulher é multi tarefa: ela faz 10 coisas ao mesmo tempo e ninguém faz as coisas melhor do que ela. Elas reconhecem que a empresa está com dificuldade, reconhecem que precisam de certa capacitação, mas uma grande dificuldade que elas encontram é delegar as tarefas.

Ana conta que 90% das empreendedoras dizem “Eu sei fazer o meu negócio, mas eu não sei vender. Eu sei ser jornalista, eu sei ser assessora de eventos, mas eu não sei vender a minha empresa. Isso não dá”. Este é o momento em que a empresa está com uma certa dificuldade, então a empreendedora começa a entender certas questões de divulgação. Ela começa a participar mais de eventos de networking, pois a dificuldade a movimenta nesse sentido e começa a usar fortemente as redes sociais para divulgar seus negócios.

O que as mulheres precisam nessa fase do negócio não é muito diferente dos casos acima. Elas precisam de mentoria, acesso a crédito e o essencial: entender que gestão do negócio não é estar na operação do negócio. Se estivermos na operação todos os dias, qual a chance do negócio crescer? Nenhuma!

Outro ponto é perceber que é preciso contratar pessoas e aprender a eficiência da divulgação. Nesse momento, elas também precisam de motivação. Segundo Ana, apesar de não acreditar que motivação é uma coisa externa, precisamos de pessoas que nos ajudem e digam “vai dar certo”, “deu errado, mas continua”. Esse é um momento crucial para as empreendedoras.

Depois de passar pela dificuldade, chega o momento do “preciso crescer”…

Nesse momento, a empreendedora está muito ocupada cuidando do negócio e precisa de uma parceria na gestão financeira. Nas pesquisas, as mulheres dizem não gostar de cuidar da gestão das finanças. Ana contou que, há 7 anos trabalhando com empreendedoras, o que ela vê são muitas empresas fechando, pois as empreendedoras costumam delegar a parte financeira a um sócio, a um funcionário ou ao marido.

Também nesses 7 anos, Ana já viu meia dúzia de casos em que o próprio marido fez uma fraude na empresa da mulher. Ela cita o exemplo de uma mulher que descobriu, depois de três anos, que o marido havia desviado 3 milhões de reais do seu negócio. Ana questiona: como pode a gente não querer cuidar das finanças do negócio? Isso é essencial!

“A gestão financeira é absolutamente essencial para o seu negócio. O meu marido é meu sócio, mas toda semana eu procuro saber como estão as finanças, qual é o fluxo de caixa, como estamos de previsão financeira e o que estamos devendo. Você precisa saber, o negócio é seu, você precisa cuidar”, argumenta Ana.

Outro problema é a contratação e retenção de colaboradores. É difícil contratar pessoas, e as mulheres têm tendência a contratar pessoas da família ou conhecidos. Ana Fontes dá uma dica para as empreendedoras que estão passando por esse momento: “Nunca contrate alguém que você não pode mandar embora. Pense direito, pois isso pode acabar com uma briga familiar”.

Nesse momento, em que a empresa precisa crescer, as mulheres precisam melhorar a gestão financeira. Ana Fontes conta que perguntou para mulheres que faturam dois milhões de reais por ano qual era sua margem e qual era o seu lucro. Elas simplesmente não sabiam responder, e isso é super importante. “Assim como os homens, nós temos capacidade de fazer a gestão financeira”, afirma.

Também é muito importante trabalhar a inovação, pois o seu negócio é um ciclo: quando ele está crescendo, é preciso pensar em novos produtos, novos modelos e ampliar a visão dos negócios para crescer. Hoje, existe um deslumbre de que empreender é fácil e a realidade não é bem assim, mas é possível!

Ana Fontes fundou a Rede Mulher Empreendedora em 2010, quando participou do programa 10.000 mulheres da FGV. Ela percebeu que ninguém falava em mulheres, muito menos em mulheres empreendedoras e, por isso, criou a rede com o objetivo de apoiar e reconhecer empreendedoras para que elas transformem sua realidade através dos negócios, dando luz e voz às iniciativas dessas mulheres.

“Empreender vai fazer a diferença para o nosso país e ter mais mulheres empreendedoras só irá contribuir. Para isso, precisamos ajudar essas mulheres a empreender da forma certa, no melhor momento e com o melhor modelo”, finaliza Ana.