Como a Qranio, de jogos de educação, passou a mirar o ensino corporativo

Só com negócio voltado ao consumidor, a empresa teria quebrado, diz o fundador Samir Iásbeck

A startup de educação Qranio é conhecida por seu objetivo de “tornar o aprendizado divertido”. Nascida em 2013 na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, a empresa oferece jogos, quizzes e “trilhas” de conhecimento em seu aplicativo no celular, a empresa ajuda os usuários a aprender e treinar seu conhecimento em conteúdos que vão de história mundial a política e matemática.

Mas, por trás das cortinas e com muito menos marketing, a companhia vem se especializando em uma outra frente: oferecer seu conhecimento em forma de jogos para grandes corporações.

Samir Iásbeck, fundador da Qranio, afirma que viu no segmento de educação corporativa um gargalo gigantesco que a “gamificação” pela qual a Qranio é conhecida poderia ajudar. “Os treinamentos em empresas ainda são feitos com Power Point, vídeos, coisas chatas e pouco estruturada, que o colaborador acaba não retendo”, diz.

Assim, a Qranio passou a vender uma plataforma customizada de aprendizagem para grandes empresas, que podem ensinar aos funcionários qualquer treinamento específico que necessitem.

O foco está justamente na “autoria” das empresas, diz Iásbeck. O empresário compara o projeto com o Duolingo, empresa americana que oferece cursos de idiomas pelo celular. “É como se cada empresa pudesse ter seu próprio Duolingo, para ensinar o que quiser”, diz.

A empresa tem cerca de dez clientes no segmento corporativo e mais de 40 em negociação, diz Iásbeck. Os primeiros foram nomes como o banco Bradesco e a farmacêutica Eli Lilly, há mais de três anos. Foi aí que a Qranio viu que o segmento poderia ser expandido. “Vimos que, se nossa plataforma de treinamento era útil para o Bradesco, poderia ser para qualquer empresa”, diz.

Iásbeck diz que a Qranio acredita num processo de life-long learning, ou seja, um aprendizado contínuo, e de self-learning, que é aprender de forma individual, sem uma sala clássica com professores e alunos. É o que tenta vender às empresas.

Na Lilly, a plataforma da Qranio foi usada a partir de 2017 para treinar representantes de vendas, que precisam ter diálogo técnico com os médicos. “Estávamos em busca de uma nova plataforma online de treinamento, pois como os representantes moram em diversas regiões do Brasil, nos reunimos poucas vezes no ano para treinamentos presenciais”, diz Pedro Constatino, gerente de vendas da Lilly. Atualmente, são 300 usuários cadastrados no Brasil, e a empresa afirma estar expandindo a solução para suas operações na América Latina e na Europa.

Na plataforma feita pela Qranio, os usuários aprendem conceitos específicos de diabetes, oncologia, imunologia, urologia e reumatologia. Constatino afirma que se atraiu pela Qranio pelas mecânicas de jogos para proporcionar um ambiente onde o aluno se sente engajado a estudar.

No Bradesco, a Qranio desenvolveu um aplicativo chamado b.Quest. Os usuários têm questionários não só diretamente relacionados ao negócio, mas em temas como saúde, bem-estar, relacionamento e comunicação. Dentre os 15 temas disponíveis, há também os que se relacionam mais diretamente com o banco, como Previdência, inovação e liderança. O aplicativo tem mais de 25.000 usuários no Brasil dentro do Bradesco, e mais de 3 milhões de perguntas respondidas até hoje, segundo informou o banco.

Um dos softwares vendidos pela Qranio às empresas atua no passo a passo do funcionário na integração, ajudando os departamentos de recursos humanos em uma lista de coisas a serem feitas, inclusive em miudezas como senhas e computador. “Temos um ‘botão de pânico’, que faz os RHs saberem que a pessoa não recebeu ainda uma coisa ou outra”, diz Iásbeck. Documentos necessários para a contratação também são enviados todos pelo celular. O empresário aponta que, às vezes, fazer um software próprio é mais caro. “Em empresas de tecnologia, a rotatividade é de cerca de dois anos. Se a companhia conseguir otimizar essa integração que invariavalmente vai ter de acontecer, gera uma grande economia.”

A busca pelo lucro

Esse braço da receita da Qranio se consolida em um momento de especial questionamento para os modelos gratuitos voltados ao consumidor. O ano de 2019 foi de questionamento para o modelo de startups que consomem muito dinheiro do investidor, mas sem ter perspectiva de lucro em um futuro próximo. O maior fracasso do ano foi uma startup voltada a outras empresas, a WeWork, que aluga espaços compartilhados para escritórios — e não conseguiu abrir capital na bolsa em 2019 depois que investidores acharam o prejuízo alto demais e o modelo pouco sustentável financeiramente.

Ainda assim, a tendência de gastar muito dinheiro e ter pouco retorno é muito maior no mercado voltado ao consumidor final. Muitas startups com esse modelo, para atrair usuários, acaba oferecendo muitos conteúdos gratuitos. Mas nem todos, uma vez fidelizados, escolhem pagar pela versão paga do produto. Em educação, especificamente, quando as contas apertam, muitos usuários podem desistir de comprar um curso ou assinar uma plataforma de educação à distância.

Já as grandes empresas possuem um orçamento alocado para treinamentos corporativos e sentem a queda em produtividade quando funcionários não possuem os conhecimentos necessários para suas funções. No fim, é uma briga entre volume de acessos e de usuários e ter alguns poucos clientes com o bolso fundo. 

Das mais de 400 startups de educação no Brasil, cerca de 9% atua duplamente no formato B2B (business to business), voltado a outras empresas, e no B2C (business to consumer), voltado ao consumidor, segundo um estudo da Distrito, empresa que produz conteúdo de inteligência de mercado sobre startups. Assim como a Qranio, edtechs como Beetools, Descola e Witseed, originalmente voltadas ao consumidor, também intensificaram seus braços de treinamento corporativo nos últimos anos. Todas elas descobriram um nicho que, se bem explorado, pode gerar um rendimento mais seguro do que dos voláteis usuários.

A Qranio não revela números de receita, mas afirma que fecha no azul há dois anos. A empresa recebeu pouco mais de 3 milhões de dólares em investimento, segundo o site Crunchbase, mas o negócio começou com recursos do próprio fundador. “Se a gente tivesse só B2C, teria quebrado. O custo de manter é muito alto”, diz Iásbeck.

O empresário critica em partes o modelo de alta dependência de investidores que se criou nos últimos anos. Embora os investimentos sejam necessários para alavancar o negócio, algumas empresas não conseguiriam se manter sem dinheiro de fora, afirma.

O Brasil deverá fechar o ano com 2,5 bilhões de dólares em rodadas de investimento em startups, quase o dobro de 2018 e mais de 60% do capital de risco da América Latina, segundo cálculos da empresa de inteligência de startups Distrito com base em dados da Lavca, associação latino-americana de venture capital. Em 2016, a região inteira havia recebido 500 milhões de dólares. Dois anos depois, em 2018, a foodtech iFood captou sozinha a mesma quantia em um único aporte. Neste ano, a colombiana Rappi levou o dobro, 1 bilhão de dólares, em uma rodada liderada pelo SoftBank. Sinal de novos tempos na região.

No mundo, os investimentos de fundos de capital de risco cresceram exponencialmente, e dobrou-se a aposta em startups, na esperança de que elas, um dia, tornem-se o novo Google, Amazon ou Facebook. Os investimentos de fundos de venture capital passaram de 36 bilhões de dólares, em 2009, para 287 bilhões no ano passado, parte graças a uma onda de juros baixos, que torna maior a tolerância ao risco.

Iásbeck faz questão de usar uma camiseta rosa com o cérebro desenhado com elementos de game, que é logotipo da Qranio, em todos os seus compromissos. A empresa segue firme e forte com seu produto para consumidores individuais, em que há tanto uma versão gratuita quanto paga. Mas Iásbeck quer que o cérebro esteja aí para ajudar também as corporações.