Com 35 reais, ex-ambulante cria empresa de lanches e fatura 3 vezes mais

Depois de várias dificuldades, o empreendedor Frederico Amorim estudou e chegou a uma receita de negócio estratégico e sustentável

São Paulo – Muitos desistiriam do empreendedorismo se passassem pelo que Frederico Amorim passou. Sua inexperiência em gestão fez com que diversos negócios quebrassem, desde a revenda de bugigangas na escola até uma lan house, além de uma indústria de confecção.

O êxito só veio quando Amorim resolveu buscar conhecimento de mercado – tanto nos estudos quanto na conversa com potenciais clientes da sua região, a comunidade mineira de Morro das Pedras. 

Desse esforço nasceu a Mix Lanches, empresa especializada em alimentação acessível e saudável para empresas e seus eventos. Hoje, Amorim afirma que fatura três vezes mais do que no início do negócio, que começou com ele próprio, vendedor ambulante, e 35 reais.

História de empreendedor: altos e baixos

Morador da comunidade Morro das Pedras, em Belo Horizonte, Amorim começou a trabalhar aos 12 anos de idade. Ele queria uma bicicleta, mas sua mãe não tinha condições financeiras para o presente.

“Ela me deu 10 reais. Fui a um atacadista, comprei um pacote de balas e revendi na escola. Com o dinheiro, procurei outras bugigangas para vender, como brincos magnéticos e mechas coloridas para prender no cabelo. Assim, consegui comprar peças no ferro-velho e montar minha própria bicicleta.”

Esse foi o primeiro negócio de Amorim – e o primeiro fracasso. Percebendo que os alunos saíam da aula para comprar os produtos do estudante, a diretora da escola proibiu a venda.

Mesmo assim, Amorim não parou de empreender. Em 2008, quando tinha 17 anos de idade, desejava comprar jogos novos para brincar no Playstation de seu irmão. Para isso, alugava jogos que já tinha aos seus amigos, em troca de dois reais. Juntando dinheiro aos poucos, chegou a ter 100 games. A ideia de abrir uma lan house e faturar mais ainda foi natural.

Com 350 reais, Amorim comprou um freezer e um balcão para estocar balas e refrigerantes. Enquanto cedia os jogos, seu irmão entrou com os consoles. Pensando em atrair clientes mais endinheirados, abriram logo na saída de Morro das Pedras. Porém, logo teriam uma nova decepção: um dia, ladrões entraram e roubaram tudo que havia na lan house.

Inexperientes em gestão de empresas, os empreendedores não tiveram como recomeçar. “A gente pagava as contas e logo tirava para nós e para nossa mãe. Não tínhamos reserva, éramos crus em conceitos como fluxo de caixa.”

O irmão voltou para corte e costura, ramo em que trabalhava, e Amorim procurou o primeiro emprego de carteira assinada. Tornou-se de estoquista de uma loja e, seis meses depois, sua proatividade e presteza com os clientes o alçaram a vendedor. Com dois anos de emprego, seu irmão novamente propôs um negócio: revender roupas de confecção própria.

Aos 20 anos de idade, Amorim saía para vender as peças nas feiras-shoppings de Belo Horizonte, para empreendedoras não muito diferentes dele. O volume dos pedidos fez Amorim se endividar para contratar 30 costureiras terceirizadas, vendendo encomendas com um bom prazo de pagamento.

Porém, as peças não fizeram sucesso nas feiras-shoppings – e as empreendedoras devolveram as roupas ou simplesmente não pagaram. “Na minha cabeça, eu iria receber tudo de volta, pagar minha dívida das costureiras terceirizadas e ficar rico. Mas me vi cheio de roupas e sem nenhum dinheiro”, conta. Amorim subiu o morro e vendeu as peças a preço de atacado, batendo de porta em porta. Conseguiu pagar as costureiras e os juros do cheque especial. Mas ficou completamente zerado de dinheiro – e sem negócio.

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Com três meses de desemprego, no ano de 2012, Amorim foi convidado para um serviço de garçom. Pegou roupas emprestadas e fez a barba em esquema de fiado. Ganhou 50 reais com a noite de garçom em uma festa. No dia seguinte, pagou a dívida de 15 reais ao barbeiro. Então, tinha 35 reais no bolso para criar um novo empreendimento.

Dessa vez, resolveu fazer diferente: procurou o Sebrae antes de abrir mais uma empresa. Na sua comunidade havia a Escola do Sebrae, um colégio de ensino médio associado a um curso técnico em Administração. O local abriga a terceira edição de sua própria pré-aceleradora para negócios de ensino médio e, para o próximo ano, espera criar uma incubadora e realizar investimentos financeiros.

Como a Escola do Sebrae é particular, o empreendedor não conseguiria pagar as mensalidades – mas encontrou em uma padaria o panfleto do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, projeto social da Escola do Sebrae. O NEJ segue a mesma metodologia, mas possui apenas um ano de duração e é destinado a jovens de escolas públicas.

“Fui a uma lan house, entrei no site, fiz a inscrição e participei do processo seletivo. Contei a minha história, de todos os meus negócios que não deram certo, e passei. Acho que enxergaram meu perfil empreendedor”, conta. “Descobri que ser um empreendedor não é só montar um negócio incrível, mas sim uma forma de lidar com a vida. Esse curso foi um divisor de águas para mim.”

Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ

Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ (NEJ/Divulgação)

Lanches de sucesso

Enquanto montava um plano de negócios como trabalho de conclusão do NEJ, Amorim usou seus 35 reais para comprar ingredientes e fazer palhas italianas a partir de tutoriais no site YouTube. Ele vendia seus doces à tarde, na Praça Sete, centro de Belo Horizonte. Amorim comercializava até 300 unidades por dia.

O ambulante elaborou um questionário sobre por que os consumidores compravam a palha italiana dele. Percebeu que era uma forma de tapear a fome com um produto pouco industrializado, sem frituras. “As lanchonetes da região manipulavam muito a comida e as pessoas passavam mal. Daí surgiu a ideia de um projeto de alimentação mais saudável, mas ainda assim rápida.”

Nasceu a Mix Lanches, empresa de sanduíches com o “creme mix”, substituto da maionese – que estragaria em poucas horas na lancheira térmica do ambulante. Ouvindo seus clientes na Praça Sete e na comunidade, Amorim mudou suas embalagens e comercializou mais produtos, como bolos no pote e sucos naturais – sempre aprendendo com tutoriais online e comprando novos ingredientes a partir dos resultados com as vendas.

A Mix Lanches se tornaria o TCC de Amorim. Assim que terminou o NEJ, registrou-se como MEI e oficializou empresa, seguindo normas da Anvisa. O negócio deslanchou.

Mas mesmo o melhor empreendimento de Amorim enfrentou obstáculos até realmente virar um sucesso. A associação com um sócio que retirava dinheiro demais, por ter uma família para sustentar, quebrou a empresa. A Mix Lanches tinha cinco funcionários: três na produção, um motoboy e a própria mãe de Amorim, que era a telefonista.

“O negócio ficava na minha casa e não tinha mais água e luz. Estava com 250 reais em caixa e uma dívida de 5 mil reais, incluindo salários. Pedi dinheiro emprestado a um vizinho para mandar o pessoal embora. Montei sanduíches e espremi laranjas na mão, no escuro, e voltei a vender na comunidade. Dei dez passos para trás para continuar meu sonho”, conta o empreendedor. Em um mês, Amorim conseguiu acertar o empréstimo e voltar a ter água e luz na empresa (e em casa).

Novamente com base na procura dos clientes, a Mix Lanches expandiu para encomendas de bolos grandes. “Tive de ir ao YouTube de novo para aprender a fazer a massa e decorar. Tomei prejuízo, de tantos ingredientes que gastei nos testes. Mas descobri um mercado que pouca gente fazia com qualidade lá em Morro das Pedras.”

A namorada de Amorim, que procurava algo para pagar sua graduação em Moda, tornou-se funcionária responsável pelos bolos, enquanto o empreendedor toca os salgados e a gestão do empreendimento.

Aos poucos, a Mix Lanches pivotou das vendas ambulantes para eventos empresariais, com coffee breaks e kits de lanches e frutas a funcionários. O pagamento é melhor, assim como a recorrência dos pedidos. Hoje, Amorim emprega quatro pessoas e trabalha apenas com alimentação acessível e saudável para empresas. Fatura três vezes mais do que quando era ambulante, tendo ganhos mensais de 15 a 18 mil reais – que dobram nos últimos meses do ano.

A Mix Lanches faz por mês cerca de 20 eventos, cozinha de 15 a 20 bolos grandes e entrega três vezes por semana saladas de frutas a três empresas.

“Recomendo observar as pessoas e trazer o máximo do que elas querem, em atendimento e produto. A gente gosta muito de algo, mas às vezes não é o que o cliente quer. E não fique sentado esperando as coisas acontecerem”, aconselha.

Núcleo de Empreendedorismo Juvenil

O NEJ é um projeto do Sistema de Formação Gerencial do Sebrae MG, em parceria com o governo estadual de Minas Gerais. Nasceu em 2010, com a proposta de formar jovens empreendedores e protagonistas. De lá para cá, formou 1.900 alunos e expandiu para o estado da Bahia.

Os alunos recebem por um ano formação técnica em Administração, com ênfase em gestão de negócios. Para ingressar, o jovem precisa estar cursando ou ter concluído o terceiro ano do ensino médio na rede pública de ensino, ter idade entre 16 e 24 anos e ser aprovado no processo seletivo, que consiste em provas de matemática e português, dinâmicas em grupo e entrevistas individuais. Por ano, são ofertadas 330 vagas.

Segundo Ricardo Pereira, gerente do Sistema de Formação Gerencial do Sebrae MG, o curso é uma mistura de materiais técnicos com projetos práticos. Os alunos visitam empresas, simulam a gestão de um empreendimento por uma plataforma e apresentam um plano de negócios como trabalho de conclusão do curso.

Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ

Sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, ou NEJ (NEJ/Divulgação)

“Vemos que o jovem perdeu a capacidade de sonhar. A família, a escola e a sociedade não acreditam nele. A gente mostra que, sim, é possível realizar. Mostramos as possibilidades de abrir um negócio, mas também refletimos que empreender é um modo de vida, mesmo nas profissões”, afirma Pereira. Cerca de 70% dos alunos estão no mercado de trabalho e 35% deles montam um empreendimento, de acordo com dados do NEJ.

“É um ensino fantástico, com uma metodologia prática. Em um ano me desenvolvi muito lá, e a maior lição que aprendi foi não desistir no primeiro obstáculo. Temos de ter resiliência, buscarmos conhecimento e termos redes de contato. É isso que me mantém no mercado”, finaliza Amorim.

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