As startups que atacam a incompetência na mineração

Empreendedores se unem a mineradoras para resolver problemas crônicos. Brumadinho escancarou necessidade de reinvenção do setor

A tragédia de Brumadinho pode impulsionar um movimento que já estava em gestação: levar a mineração, definitivamente, para o século 21. A aposta é colocar as grandes mineradoras em contato com pesquisadores e empreendedores para atacar as grandes ineficiências, e os grandes riscos, da mineração.

Uma das iniciativas mais recentes nesta seara vem justamente do Brasil. Um convênio entre 18 mineradoras — entre elas, a Vale e a Samarco —, fornecedores e o fundo de capital de risco Neo Ventures levantou 6 milhões de reais para aplicar em startups nos próximos quatro meses.

O projeto tem execução do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que inaugurou no dia 17 de janeiro o “mining hub”, na sede da empresa de escritórios compartilhados WeWork em Belo Horizonte.

Segundo o Ibram, um conjunto de dez desafios lançados pelas mineradoras atraíram 100 startups interessadas — 95 delas brasileiras e cinco de Chile, Peru, Ilhas Cayman, Singapura e Portugal. Boa notícia: a maioria das startups (29%) escolheu se dedicar a resolver os problemas da gestão de resíduos, como a utilização do rejeito das mineradoras para gerar novos produtos e o controle geotécnico de pilhas e barragens.

E 17% para propor soluções em segurança, como o acesso não invasivo para realização de atividades críticas e a realização de inspeções sem exposição dos profissionais.

As demais se inscreveram para propor fontes de energia alternativa para a produção, sugerir soluções para aumentar a eficiência operacional e melhorar a gestão da água. Na próxima segunda-feira, 4, o Mining Hub anunciará as 15 selecionadas para seu primeiro programa de aceleração.

O tratamento e a redução de rejeitos é um motivo de atenção de empreendedores mundo afora. Um exemplo é a canadense MineSense, que no dia 28 de janeiro entrou para a lista de 100 startups de tecnologia limpa mais promissoras do mundo, elaborada pela consultoria especializada Cleantech Group.

A empresa desenvolveu uma tecnologia inédita ao integrar sensores em pás que, utilizando análise em tempo real, classifica o minério conforme seu valor inerente, permitindo à mineradora capturar a receita do minério que, pelos meios tradicionais, teria sido designado como resíduo. Além disso, evita o custo, a energia e a água no processamento desnecessário de resíduos. Segundo a MineSense, o sistema pode ser usado sobretudo no modelo de produção a montante, como é o caso da Vale em Brumadinho.

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Ineficiências em série

Historicamente, o monitoramento de barragens de rejeitos é limitado a leitura mensal de dispositivos de medição de líquidos comprimidos submetidos a altas pressões, os piezômetros. Além de placas de assentamento verificadas a cada semestre. Como tem ficado flagrante, os padrões atuais de monitoramento e segurança não são suficientes.

“As barragens de rejeitos podem falhar em 24 horas, tornando o monitoramento menos frequente ineficaz na detecção de sinais de instabilidade”, diz o professor e pesquisador David Williams, do centro de engenharia geotécnica da escola de engenharia civil da Universidade de Queensland, na Austrália.

Segundo ele, a taxa média de insucesso das barragens de rejeitos nos últimos 100 anos é de 1,2%, o que a maioria dos especialistas considera inaceitável. “Essas recentes falhas de barragens de rejeitos estão ameaçando a licença financeira e social da indústria de mineração para operar e o controle desta indústria”, diz Williams.

Aí entra a demanda por inovação aberta: a solução para esses dilemas pode estar na colaboração entre governo, empresas, consultorias especializadas, universidade e startups. As oportunidades de inovação vêm aumentando. Com a tecnologia da internet das coisas aliada à computação em nuvem e a análise de grandes volumes de dados, as medições dos dispositivos e radares podem ser monitoradas em tempo real.

Assim, o sistema é programado para indicar constantemente se a operação está segura, se exige a avaliação de um engenheiro geotécnico ou se é necessário iniciar de imediato um plano de resposta a emergências, incluindo sirenes de evacuação.

O setor já teve negócios relevantes. Um exemplo é a australiana GroundProbe, startup criada em 2001 e adquirida em 2017 por 205 milhões de dólares pela Orica, a maior fornecedora de explosivos e sistemas de detonação para os mercados de mineração e infraestrutura do mundo.

A GroundProbe desenvolve sistemas de radar para monitorar movimentos de edificações, que recentemente passaram a ser aplicados para acompanhar o movimento de barragens de rejeitos. Esse tipo de sistema pode estar conectado a dispositivos vestíveis, como os relógios inteligentes, para aumentar a segurança dos trabalhadores de minas.

A startup canadense Vandrico, criada em 2011, desenvolveu um software para ser utilizado em relógios inteligentes capaz de ser acionado mesmo sem internet. Os sensores e radares da mina, em caso de acidentes, podem emitir sinais ao relógio e acionar uma tela vermelha indicando emergência, e informações do que fazer a seguir — como um checklist de ações ou um mapa que leve ao ponto seguro mais próximo. A Vandrico tem entre seus clientes as mineradoras Rio Tinto e a Kore Mining.

Um dos maiores negócios do mundo nesta frente foi feito justamente pela Vale. A mineradora comprou, em dezembro, a brasileira New Steel, startup que desenvolve um processo de extração de minério a seco, sem necessidade de barragem. O valor da compra: 500 milhões de dólares.

A tragédia de Brumadinho mostra que, além de mirar grandes inovações, convém atentar para o básico. O Mining Hub de Belo Horizonte, mais audaciosa iniciativa brasileira de inovação em mineração, fica a apenas 60 quilômetros de Brumadinho, onde nem a sirene de alerta contra acidentes funcionou.