As estratégias dos fundos para proteger as startups do coronavírus

EXAME conversou com gestores de fundos de investimento e aceleradoras brasileiras para saber como eles têm orientado as startups durante a crise

É hora de apertar os cintos. Com o aumento do número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil, as empresas precisam se preparar para uma desaceleração na economia. Na última sexta-feira 13, o índice Ibovespa terminou a semana em queda de 15,68%, a pior desde outubro de 2008. No dia, o dólar encerrou cotado a 4,8128 reais, na máxima história de fechamento frente ao real.

A crise nao vai poupar o ecossistema de startups brasileiro. Para tentar minimizar o impacto, gestores e sócios de fundos de investimento estão aconselhando os presidentes das empresas de seu portfólio para que elas adotem medidas para manter tanto seus funcionários como seus negócios a salvo durante o período de maior turbulência.

“Vamos levar algum tempo até ver a recuperação econômica que coloque tudo nos mesmos patamares que estávamos em dezembro de 2019 e por esse motivo, precisamos rever e questionar todas as premissas de negócios que estavam planejadas para o ano”, escreveu em nota Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups.

Empresas afetadas

O difícil é prever qual será o impacto da crise no setor como um todo, considerando que existem startups em diferentes fases de negócio e atuando nas mais diversas áreas. Neste primeiro momento, segundo Pedro Pinho Teixeira, sócio da aceleradora Troposlab, as startups mais afetadas devem ser as que importam produtos dos países mais afetados pela doença, como China, Itália e Coreia do Sul.

Ele aponta que empresas brasileiras de hardware, por exemplo, dependem de produtos chineses e já sentem a escassez ou o aumento de preço dessas peças. Startups voltadas para a indústria 4.0 ou com soluções de internet das coisas, que precisam de sensores e equipamentos de medição, devem ser diretamente afetadas.

Já Pedro Waengertner, confundador da empresa de inovação ACE (Cuponeria, Love Mondays), aponta que os negócios que dependem de atuação no mundo offline serão os primeiros a sentir o impacto da crise do coronavírus. Startups do mercado imobiliário, por exemplo, dependem dos corretores em campo para fechar negócio, podendo sofrer com menos pessoas saindo de casa.

Mas nem todas as empresas serão prejudicadas. “Startups que trabalham com eventos vão ser muito impactadas, mas as que trabalham com streaming de eventos podem crescer. Depende do tipo do produto”, diz o presidente da ACE.

As empresas de entregas devem crescer muito nesta fase, principalmente com as políticas de trabalho remoto e o interrompimento das atividades escolares. Só no último mês, por exemplo, o aplicativo colombiano Rappi verificou um aumento de 10% nos pedidos de farmácia.

 

Como se preparar

A principal preocupação que os empreendedores precisam ter neste primeiro momento é com a gestão de caixa. “Como investidores, temos passado a mensagem para os fundadores de que a crise uma hora vai passar, mas que é preciso chegar vivo do outro lado”, diz Marcos Toledo, gestor do fundo Canary (Loft, Buser).

O sócio tem orientado os presidentes das empresas de seu portfólio a adotarem medidas para garantir a sobrevivência do negócio por um ano, pelo menos, sem a necessidade de levantar capital. “A gente pode viver alguns meses de não liquidez no mercado, com investidores retraídos, então eles podem não conseguir levantar dinheiro caso precisem”, diz Toledo.

Daniel Chalfon, sócio da Astella Investimentos (Resultados Digitais, Kenoby), tem orientado as empresas investidas pelo fundo nessa direção também. Para ele, startups em estágios iniciais, que estão captando investimentos seed ou série A não devem ser muito afetadas agora. “Os processos continuam, quem tem negócio para anunciar vai anunciar nas próximas semanas”, afirma.

Para ele, a situação é mais complicada para startups maiores, que estão levantando valores maiores de investimento, em rodadas que dependem quase que exclusivamente de investidores internacionais — mais sensibilizados pela crise. “Empresas precisam ter cautela redobrada com o caixa. Talvez não seja adequado fazer uma rodada nos próximos doze meses”, diz Chalfon.

Guilherme Horn, diretor de estratégia e inovação do BV, concorda que as rodadas de captação de investimento talvez sejam adiadas. Apesar disso, ele está otimista e não acredita que a situação vai ser tão crítica para as startups como será para outros setores da economia. “De uma forma geral, crises costumam ser boas para startups — nesses momentos elas podem respirar, aprender um pouco mais sobre produto, rever processos internos”, diz.

Os investidores também estão positivos quanto ao futuro. Depois do pico da crise, eles acreditam que a animação do mercado de Venture Capital com as empresas brasileiras deve voltar. “Os fundos estão super capitalizados, vivemos em um ambiente de juros baixos, o que ajuda na tomada de risco. Passando essa turbulência, os investidores vão botar o capital para trabalhar”, diz Toledo.

O desafio será maior para as empresas menores, que não fazem parte de nenhuma rede apoio, como lembra Chalfon. “A situação é grave e pode ter impacto grande nos pequenos e médios negócios do país.  A sociedade e o governo deveriam estar preocupados em como minimizar o impacto para essas empresas”.