Antes focada em carga, TruckPad planeja ser “shopping dos caminhoneiros”

Conhecida como "Uber dos caminhoneiros" por conectar motoristas a cargas, a startup começou a vender pneus Michelin e entra de vez no varejo

A startup especializada em caminhoneiros TruckPad nasceu em 2013 com o objetivo de conectar os motoristas a cargas que precisavam ser transportadas — modelo que fez a empresa e outras concorrentes do setor ganharem o apelido de “Uber dos caminhoneiros”.

Agora, o próximo objetivo da empresa é usar sua base de 1,2 milhão de motoristas ser também o “marketplace dos caminhoneiros”. O último movimento foi o lançamento em janeiro de uma parceria com a fabricante de pneus Michelin para vender os produtos da marca aos caminhoneiros que usam a TruckPad. A empresa entrará de vez no segmento de marketplace, com produtos de terceiros vendidos em seu aplicativo, diz o presidente e fundador Carlos Mira.

Os itens à venda irão de peças a serviços, como troca de óleo ou reparos no caminhão. As compras serão feitas dentro do próprio sistema da TruckPad, e não em um site terceiro, o que faz a startup entrar diretamente no segmento de varejo.

Além da Michelin, a empresa já trabalhou nos últimos anos com parceiros como a montadora Mercedes-Benz (que comprou uma participação na startup), a ZF, de autopeças, e a Sascar, de rastreador de veículos. Como as parcerias deram certo, a TruckPad decidiu agora alavancar sua participação em vendas e afirma que deve assinar com pelo menos outros dez parceiros nos próximos meses.

Para aprimorar o processo das vendas, a startup está desenvolvendo seu braço de business intelligence, que coleta dados com base no comportamento dos clientes. O público de caminhoneiros já é específico, mas Mira acredita que é possível personalizar ainda mais com os produtos oferecidos. Se um caminhoneiro comprou um pneu há certo tempo, por exemplo, é possível saber quando ele precisará de um novo. Assim, com base em sua localização, o app da TruckPad manda uma notificação oferecendo desconto para comprar um pneu Michelin, por exemplo, em uma cidade ou parada próxima de onde o motorista está.

São dados cruciais para a operação das empresas que trabalham com o público caminhoneiro. Na lendária greve dos caminhoneiros de 2018, que paralisou o país por semanas, Mira diz que a TruckPad conseguia obter mapas de calor e entender onde a concentração de motoristas estava maior.

“Nenhuma varejista tem informação suficiente para fazer uma campanha com esse nível de assertividade para o público de caminhoneiros”, diz Mira. “A TruckPad possibilita saber o tipo de caminhão que o motorista usa, que cidades ele frequenta e uma série de outras informações.”

Ao longo do trajeto do motorista, o aplicativo também faz perguntas sobre o estado do pneu, sobre o modelo do caminhão ou hábitos de direção. O presidente afirma que as informações são coletadas com consentimento dos caminhoneiros, que podem escolher responder ou não às perguntas, e que há um processo de proteção de dados.

“Toda a dor de cabeça do motorista toda manhã era ter carga. Essa parte já resolvemos com a TruckPad. Agora, vamos resolver essa segunda preocupação, que é abastecer o caminhão, trocar peças, encontrar um bom fornecedor na hora de necessidade”, diz Mira.

Carlos Mira, da Truckpad: empresa deve crescer de 700 milhões para 2 bilhões de reais em movimentação neste ano

Carlos Mira, da Truckpad: empresa deve crescer de 700 milhões para 2 bilhões de reais em movimentação neste ano (Truckpad/Divulgação)

Investimento chinês

A entrada mais direta da TruckPad no varejo vem incentivada pela investidora mais recente, a chinesa Full Truck Alliance, que liderou um aporte na startup (de valores não divulgados) em novembro do ano passado. A FTA atua na China em formato semelhante à TruckPad, incluindo no modelo de inteligência e marketplace. “O conhecimento que eles têm na área nos ajuda muito, porque eles já sofreram na China alguns dos desafios que teremos aqui e podem nos mostrar alguns atalhos”, diz Mira.

Antes de fundar a TruckPad, Carlos Mira era presidente de uma empresa de logística da família, mas decidiu usar a experiência no setor e lagar tudo para empreender — a contragosto da família. “Achavam que eu era louco”, diz. O investimento da FTA na startup brasileira vem com o interesse dos chineses em expandir sua atuação para o mercado de logística brasileiro e latino-americano. Embora tenha sido criada somente em 2015 (depois da Truckpad), a empresa chinesa tem 8 milhões de caminhoneiros usuários na China e planeja um IPO, abertura de capital na bolsa.

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Já a TruckPad, com o aporte e os novos produtos, espera fechar 2020 com 2 bilhões de reais movimentados na plataforma, ante 700 milhões de reais no ano passado. A startup também deve passar de 200 funcionários que tem hoje para mais de 500 pessoas até o segundo semestre deste ano. Com o crescimento, as operações estão mudando rumo a uma nova sede em São Paulo, a ser inaugurada nos próximos meses.

No segmento de serviços para caminhoneiros, a TruckPad concorre diretamente com a CargoX, que oferece um serviço parecido de conexão de caminhoneiros a cargas e está na lista de alguns especialistas para tornar-se neste ano um dos próximos unicórnios brasileiros.

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), são mais de 2 milhões de caminhoneiros trabalhando no Brasil, sendo 700.000 deles por conta própria. A disputa será acirrada para atingir o bolso — e o celular — desses usuários.