Zilda Arns, indicada ao Nobel, fala sobre a Pastoral da Criança

A pediatra e sanitarista Zilda Arns, criadora e administradora da Pastoral da Criança, organismo de ação social da CNBB, já recebeu as mais diversas homenagens. Entre elas, prêmios da Organização Panamericana de Saúde, da Associação das Nações Unidas, do Unicef e da Unesco.

O maior reconhecimento, no entanto, poderá vir este ano, com a segunda indicação da entidade, pelo governo brasileiro, para o Prêmio Nobel da Paz.

“Isso nos ajudaria muito a disseminar o trabalho em outros países”, afirma dona Zilda, que é também representante da CNBB no Conselho Nacional de Saúde e coordenadora da Comissão Intersetorial de Saúde do Índio.

Numa passagem recente por São Paulo, ela conversou com EXAME. A seguir, alguns trechos da entrevista.

AS AÇÕES DA PASTORAL

“Começamos o programa com foco em algumas ações básicas. Em primeiro lugar, nutrição, apoio à gestante e encaminhamento para o pré-natal. Em segundo, cuidados com o recém-nascido, aleitamento materno e vigilância nutricional, que consiste em pesar sempre as crianças. Outras ações diziam respeito à vacinação e à reidratação oral. No início, nossa maior preocupação era mesmo a sobrevivência. Hoje, com resultados consistentes na redução da mortalidade infantil e da desnutrição, podemos abrigar também outros temas, como a educação infantil. Estamos com quase 40 000 alunos na alfabetização. O trabalho com a educação, ao contrário do que acontece com a saúde, depende mais da disponibilidade de recursos. Professoras que não moram na comunidade precisam receber uma ajuda de custo.”

AS REUNIÕES COM A COMUNIDADE

“Orientamos nossos líderes a usar determinadas técnicas da discussão nas conversas com a comunidade. Nossa pedagogia é problematizadora. Considere, por exemplo, o problema da gravidez precoce. Quando surge um caso na comunidade, você não começa a discussão pelo fim, dizendo “tem que usar camisinha”. Começa pela nossa técnica: ver, julgar, agir, avaliar e celebrar. O ver diz respeito a descobrir as causas daquela gravidez. Depois vem o julgar. Quem está falhando? São os pais que não conversam com os filhos ou os filhos que não têm o que fazer? Então é hora de agir, checar o que nós podemos fazer. Devemos conversar com os pais? Falar com diretor da escola e pedir permissão para que os meninos freqüentem as áreas de lazer depois das aulas? Ou temos que conversar com o prefeito sobre educação para o trabalho? A avaliação existe para conferir se não deixamos alguma coisa importante de fora. O último passo é o encaminhamento, o momento em que celebramos o compromisso. Fulano vai falar com o prefeito, ciclano vai fazer outra coisa e por aí vai.”

A IDENTIFICAÇÃO DOS PROBLEMAS

“Sempre trabalhamos na identificação das três principais causas de morte na comunidade e fazemos materiais educativos especiais para atacá-las de forma mais eficiente. No passado, a diarréia era responsável por 60% dos casos. Hoje já não temos registro desse problema em alguns estados. Certa vez visitei um município no qual morriam muitas crianças com diarréia. Imaginei que não haveria saneamento lá. Mas fiz uma reunião com as autoridades locais e descobri que saneamento não era um problema. A distribuição de água é que tinha sido cortada na comunidade por falta de pagamento. Vejo isso com freqüência: o município é rico mas existe ali um bolsão de miséria. Então a Pastoral procura motivar as autoridades para concentrar esforços nessas áreas.”

O TRABALHO VOLUNTÁRIO

“Para mim o voluntariado é um estado natural do ser humano. Acredito que o egoísmo não traz felicidade. A doação, sim. E o voluntário não partilha coisas. Ele dá o seu tempo, o seu conhecimento, a sua bondade. Temos voluntários que abrem suas casas para pesar as crianças. Gente que pensa na Pastoral o dia inteiro. Psiquiatras sociais já me falaram que a Pastoral da Criança atende três necessidades básicas do ser humano. A primeira é a promoção humana. Qual é a pessoa de qualquer classe social que não quer aprender mais, ser reconhecida e valorizada? A segunda necessidade é a de se sentir acompanhado. As mães falam com as líderes como se fizessem parte de uma mesma família, elas sentem que pertencem à Pastoral. Por último vem a referência. Há tanta gente sem referência por aí, dizendo que não acredita mais em ninguém. Essas pessoas podem acreditar na Pastoral, porque ela fortalece o sentido de cidadania, de fé em Deus e de esperança. É uma referência positiva.”

OS PRIMEIROS TREINAMENTOS DE LÍDERES

“Nas primeiras reuniões eu sempre escrevia a mesma coisa no quadro negro. Em primeiro lugar, vamos fortalecer os amigos. Quem acredita na Pastoral precisa ser fortalecido. Temos que treinar essas pessoas para que estejam aptas a trabalhar na comunidade. Em segundo lugar, vamos neutralizar os inimigos. Isso é importante para que eles não saiam falando o que não devem. A melhor forma de contornar a ação dos inimigos é fazendo uma visita, mostrando o nosso trabalho e convidando para entrar na Pastoral. Em terceiro lugar, vamos conquistar os indiferentes. Também essas pessoas podem sentir que a Pastoral é uma coisa boa.”

O TRABALHO EM COMUNIDADES VIOLENTAS

“É muito mais difícil trabalhar onde existe guerra. Imagine marcar uma data para o Dia do Peso numa comunidade e o evento não poder acontecer por causa de uma briga entre traficantes. Por isso acho que prevenção é importantíssimo. E, para prevenir, é importante que exista um trabalho intersetorial auto-sustentável. Estamos agora trabalhando com áreas indígenas. Vou precisar me articular com outras organizações para encontrar formas não só de dar comida aos índios desnutridos, mas principalmente de desenvolver a agricultura entre eles. Nas áreas violentas também deveria existir prevenção. Acredito muito na música e no esporte, talvez por ter sido campeã de vôlei e de tênis de mesa quando jovem. Os jovens precisam ter o que fazer.”