WeWork dos estoques: startup aluga mini-galpões para pessoas e e-commerce

A paulistana GoodStorage aluga compartimentos na capital paulista para guardar de móveis de pessoas físicas a parte do estoque de empresas de e-commerce

Apartamentos cada vez menores, metro quadrado mais caro próximo aos grandes centros e um setor de comércio eletrônico que cresce dois dígitos ao ano e pode chegar a 10% do varejo em 2023.

Foi neste cenário que o então analista Thiago Cordeiro decidiu deixar os grandes bancos de investimento — onde desde 2003 tinha como função procurar bons ativos no mercado imobiliário — para criar uma empresa que desse utilidade ainda maior ao metro quadrado no qual ele até então investia.

Cordeiro pensou em soluções que iam da moradia estudantil à moradia para idosos, mas a saída que encontrou foi comprar imóveis nas regiões centrais da capital paulista para guardar coisas. Assim nasceu a empresa de armazenamento GoodStorage, que saiu do papel no fim de 2013 com o intuito de atender a pessoas físicas que quisessem alugar um espaço para deixar bens que não coubessem em suas próprias casas.

A companhia seguiu o conceito de self storage (ou auto armazenamento), que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960. Soa como o bom e velho galpão sujo para móveis e objetos encalhados, mas a ideia, segundo Cordeiro, é ser “uma extensão” da casa das pessoas físicas ou do estoque das empresas.

As atuais 13 unidades em funcionamento da GoodStorage estão em bairros como Tatuapé, Vila Olímpia, Lapa, Aclimação, Morumbi e marginal Tietê. O preço médio por metro quadrado é de 65 reais por mês, a depender do espaço alugado, e o foco são lugares estratégicos e com grande circulação de pessoas, alguns mais próximos ao centro do que outros. 

“A ideia não é ter suas coisas jogadas em um galpão distante que você nunca mais vai ver, mas tê-las perto de casa ou do trabalho e poder acessá-las de forma fácil”, diz Cordeiro, hoje presidente e sócio minoritário da GoodStorage.

Box da GoodStorage: há espaços de 1 a 500 metros quadrados, a depender das necessidades dos locatários

Box da GoodStorage: há espaços de 1 a 500 metros quadrados, a depender das necessidades dos locatários (GoodStorage/Divulgação)

Colorido e bem localizado

Como a ideia é que as pessoas entrem e saiam o tempo todo, os galpões da GoodStorage são todos coloridos e com mais cara de escritório de startup do que de quartinho da bagunça.

Em cada unidade há pequenos (ou grandes) compartimentos, que vão de 1 a 500 metros quadrados, a depender da necessidade de cada locatário. Há até um espaço de co-working na portaria e café grátis para os clientes utilizarem enquanto estiverem por lá.

O contrato para locação é flexível: o usuário paga mês a mês, com contrato 100% digital, e pode cancelar a assinatura a qualquer momento sem taxas.

Há usos de todos os tipos para os compartimentos, dos que precisam de espaço para guardar móveis enquanto estão se mudando a quem aluga para guardar itens de colecionador. (A empresa conta o caso de um grupo de estudantes de Direito que, morando longe do centro, alugou um compartimento para fazer uma pequena biblioteca.)

“São Paulo tem muita gente, tem escala. Há muitos eventos acontecendo na vida das pessoas que fazem com que elas precisem de soluções”, diz Cordeiro, quando questionado se a solução teria público para continuar crescendo no Brasil.

Apesar das muitas utilidades, o mercado ainda é incipiente por aqui: além da GoodStorage, há cerca de 150 empresas atuando no setor de self storage, com nomes como GuardeAqui, MetroFit e Local Box. São 250 unidades do tipo em operação em todo o país, totalizando 500.000 metros quadrados para locação e faturando cerca de 315 milhões de reais ao ano, segundo a Associação Brasileira de Self Storage.

Contudo, Cordeiro afirma que a solução, que já vem com limpeza, segurança e estrutura do local, pode ser mais interessante — e barata — do que alugar um apartamento maior. “Qual de fato é o gasto daquele quarto a mais que só serve para armazenar coisas? Tanto para empresas quanto para pessoas físicas, se colocado na ponta do lápis, é possível ter uma estrutura mais enxuta e flexível”, diz.

Thiago Cordeiro, fundador e presidente da GoodStorage: solução expandida para atender a empresas

Thiago Cordeiro, fundador e presidente da GoodStorage: solução expandida para atender a empresas (GoodStorage/Divulgação)

Solução para o e-commerce

Com a diversidade de possibilidades de uso dos metros quadrados da GoodStorage, a solução, que nasceu como serviço para pessoas físicas, acabou começando a fazer sentido também para empresas.

A ascensão do e-commerce no Brasil (responsável por 4% das compras no varejo no ano passado, segundo a eBit/Nielsen), somado a um MBA com foco em logística que Cordeiro fez na Northwestern University, em Chicago, nos Estados Unidos, fizeram o empresário começar em 2017 a adaptar parte do negócio para foco na pessoa jurídica.

Muitas empresas não têm estoques próprios, ou os têm muito longe dos grandes centros. Assim, os compartimentos da GoodStorage são úteis na chamada “última milha” (last mile, no termo logístico em inglês), a última etapa do produto antes de chegar à casa dos clientes.

EXAME visitou uma unidade na rua Pedroso de Morais, coração do bairro de Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, um dos bairros com o metro quadrado mais caros de São Paulo. Por lá, já é possível ver os responsáveis por uma pequena empresa que aluga equipamento para festas trabalhando em mesas dentro de seu próprio compartimento, ou motoboys da startup de entregas Loggi se encontrando com o locatário de um dos estoques da unidade para pegar mercadorias e levar até algum cliente.

“As empresas podem testar self storage como ponto avançado de estoque. Dá para, por exemplo, alugar mais espaço durante épocas como Dia das Mães ou Black Friday, ou ver onde está sua frequência de entrega e fortalecer a presença ali”, diz Cordeiro.

Usar a GoodStorage como estoque tem limitações: apenas pessoas autorizadas podem entrar nos compartimentos, de modo que um motoboy não conseguiria ir até as unidades da GoodStorage retirar uma mercadoria. As empresas, contudo, podem deslocar um funcionário autorizado para dar os produtos aos entregadores.

Pessoas jurídicas respondem por 30% dos clientes da GoodStorage (e metade do espaço alugado), mas a meta é que essa fatia chegue a 50% nos próximos anos. A empresa vai abrir na marginal Pinheiros neste mês sua primeira unidade híbrida, em que o primeiro andar será todo dedicado a pessoas jurídicas.

Unidade da GoodStorage: 70% dos clientes são pessoas físicas e 30% são empresas

Unidade da GoodStorage: 70% dos clientes são pessoas físicas e 30% são empresas (GoodStorage/Divulgação)

WeWork dos estoques

A solução da GoodStorage para os estoques vai na linha de companhias como a WeWork, que aluga espaços de co-working em áreas bem localizadas da cidade para empresas cujo investimento em um escritório próprio não valeria a pena.

“É uma forma de rentabilizar o metro quadrado”, diz Paulo Humberg, presidente da companhia de investimentos em tecnologia A5 Digital“Mas é uma solução cara para muitas pessoas físicas, nem todo mundo vai pagar mais de 200 reais ao mês para guardar coisas. Para negócios, faz um pouco mais de sentido.”

Com entregas precisando ser cada vez mais rápidas, ter esses pontos avançados de estoque passa a ser um diferencial para empresas. As grandes varejistas já estão se movimentando para que suas próprias lojas físicas atuem como um ponto de estoque de última milha, mais bem localizado que seus grandes centros de distribuição, no geral afastados das cidades.

Contudo, Humberg acredita que o mercado de armazenamento, tal como acontece no exterior, vai trazer a cada dia soluções diferentes, de modo que um modelo de guardar coisas pode tornar-se obsoleto. “Talvez o grande desafio de empresas como a GoodStorage seja continuar no caminho da inovação e trazer cada vez mais novas soluções.”

Por ora, o foco da GoodStorage é consolidar o modelo para pessoas jurídicas e crescer em São Paulo. A empresa recebeu em 2019 aporte de 250 milhões de reais do fundo americano Evergreen, para além de 150 milhões de dólares que já havia recebido do Evergreen e do brasileiro HSI em 2013.

A expectativa é abrir nove novas unidades até 2020, totalizando 120.000 metros quadrados para locação, segundo Cordeiro. “Se vamos ser uma empresa com 200 unidades, só o tempo vai dizer. Mas sendo uma de 50, já conseguimos ser rentáveis.”