Wal-Mart anuncia compra do Bompreço por US$ 300 milhões

O Wal-Mart Brasil confirmou nesta segunda-feira (1/3) que comprou a rede do Bompreço, varejista nordestino que pertencia ao grupo holandês Royal Ahold. O valor da aquisição foi de 300 milhões de dólares. As negociações também envolveram venda do Hipercard, cartão de crédito da rede Bompreço, para o Unibanco por 200 milhões de dólares. “É a maior venda no setor varejista já realizada no país”, diz Rodolfo Spielmann, consultor especializado em fusões e aquisições da Bain & Company.

A oportunidade de compra dos ativos da Ahold surgiu como um fato excepcional. A rede, a terceira do mundo, atrás de Wal-Mart e Carrefour, é investigada por fraude contábil na Europa e tem uma dívida de 11 bilhões de euros para quitar. As operações da empresa no Peru, no Chile e no Paraguai já foram vendidas como parte do saneamento contábil. As negociações com o Wal-Mart, que corriam desde abril de 2003 assessoradas pelo ABN Amro, devem ajudar a apagar o incêndio.

Com o negócio fechado, o Wal-Mart a maior empresa no mundo segundo a revista Fortune, com vendas de 245 bilhões de dólares no ano passado finalmente sai da letargia no mercado brasileiro. A aquisição dá início a uma etapa de concorrência nacional entre as grandes redes de supermercados brasileiras. As cinco líderes do mercado Pão de Açúcar, Carrefour, Bompreço, Sonae e Sendas vêm se fortalecendo apenas regionalmente, com a compra de cadeias menores. Até agora, o movimento criou redes hegemônicas em suas regiões, mas sem presença nacional relevante. A exceção era justamente o Wal-Mart, que, desde a chegada ao país em 1995, manteve-se fiel a uma estratégia de abertura de lojas próprias.

Com a venda do Bompreço, uma das consolidadoras e líder absoluta no Nordeste, tudo muda. Pela primeira vez, o Pão de Açúcar e o Carrefour as duas líderes terão de encarar o Wal-Mart com desvantagem. Isso ocorrerá em cidades nordestinas. No mercado nacional, a Wal-Mart deixa uma discreta sexta posição para chegar à terceira, com vendas de quase 6 bilhões de reais e cerca de 7% de participação, segundo o ranking da Associação Brasileira de Supermercado (Abras).

“Não devemos mudar a marca Bompreço, pelo menos, a princípio”, diz o espanhol Vicente Trius, presidente do Wal-Mart no Brasil. “É uma bandeira fortíssima para consumidores no Nordeste.” Com o fechamento do negócio, Rius e mais 15 colegas encaram uma pereguinação às 118 lojas da rede nordestina, baseada em Recife.

Para a Wal-Mart, cujas 24 lojas estão basicamente concentradas em São Paulo, a compra representa um avanço e tanto. Mas ainda a deixa com pouco menos da metade da participação de mercado da líder Pão de Açúcar, que detém 15% do mercado. “Não é uma posição confortável”, diz Spielmann. “Mas o Wal-Mart tem muita capacidade de investimento para seguir sua trajetória de expansão.”

Os concorrentes devem reagir. Há poucos meses, o Pão de Açúcar manifestou intenção de estender seus domínios para outros mercados com a compra de outra grande rede, a Sendas. Em novembro de 2003, anunciou uma troca de ações com a empresa carioca. O Pão de Açúcar, com mais de 70% de suas lojas no estado de São Paulo, também já teria se candidatado, ao lado de nove concorrentes, a levar as 32 da sergipana G.Barbosa, adquirida pela Ahold em 2001.

A Ahold só não vendeu as duas redes Bompreço e G. Barbosa para o mesmo comprador por uma restrição do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A saída, acertada com os conselheiros do Cade, no último dia 19, será vender a G.Barbosa integralmente para outro concorrente. E aí também Pão de Açúcar e Carrefour são candidatos naturais.

Além da G.Barbosa, o próximo alvo das aquisições poderia ser o português Sonae, em apuros financeiros, mas com grande participação no Sul do país. Recentemente, executivos do grupo manifestaram insatisfação com os resultados no país e o desejo de concentrar os investimentos em seu país de origem. Tudo indica que mais novidades vêm por aí.

Hipercard

O Unibanco, o terceiro maior banco brasileiro, com patrimônio líquido de 7,1 bilhões de reais em 2003, arrematou o HiperCard e consolidou-se como o mais agressivo no Brasil no segmento de cartões private label (criados para ser distribuídos a clientes de redes varejistas). Atualmente, dos 14 milhões de cartões que o Unibanco possui, pouco mais da metade 8,5 milhões são de lojas como Magazine Luiza. Com os 2,3 milhões de cartões da HiperCard, o banco adquire uma não apenas uma bandeira vinculada a uma rede varejista, mas aceita em cerca de 60 000 estabelecimentos em todo o varejo nordestino.

“Há apenas 12% de coincidência entre a carteira de clientes do HiperCard e a que já tínhamos no Nordeste”, diz Márcio Schettini, presidente da Unicard. “A aquisição representa uma ótima porta de entrada para clientes de baixa renda daquela região.” O Unibanco venceu um processo concorrido, em que estiveram outros bancos nacionais, como o Bradesco, e a Credicard.

O Hipercard surgiu em 1970, quando João Carlos Paes Mendonça, que vendeu o Bompreço aos holandeses em 1996, criou uma carteirinha de papel para facilitar o recebimento de cheques emitidos por clientes preferenciais. Dali para a frente a idéia prosperou exigindo a menor renda mínima do mercado, oferecendo isenção de anuidade e uma das taxas mais baixas da praça. O Hipercard deixou de ser apenas um cartão de fidelidade para se tornar um cartão de crédito convencional. “É um dos programas de fidelidade mais bem-sucedidos do mundo”, diz Robert Ford, analista de varejo do Merrill Lynch, com base em Nova York. Cerca de 90% das vendas do Bompreço são feitas pelos 2,3 milhões de associados. No Pão de Açúcar, por exemplo, o cartão Mais, lançado em 2000 e considerado um modelo entre os programas de fidelidade, representa 54% do faturamento. Colaborou Ana Luiza Herzog