Você confiaria sua saúde à Amazon?

Mesmo uma tímida iniciativa da Amazon passou a ser suficiente para provocar tremores no mercado

A Amazon é uma espécie de rei Midas ao contrário. Basta que ela anuncie – ou que os analistas profetizem – sua entrada em algum novo mercado, e o ouro que todos viam ali de repente perde seu brilho. Isso se deve a um dos mantras que Jeff Bezos, seu fundador e CEO, segue com uma consistência de duas décadas: “a sua margem de lucro é a minha oportunidade”.

Se um gigante do tamanho da Amazon trabalha com margens de lucros tão irrisórias (para dar uma ideia, ela andou entre 0,5% e 0,6% nos últimos dois trimestres divulgados), é porque ela pode. Seu financiamento vem do mercado de ações, alimentado pela voracidade com que ela devora mercados – o que cria uma espécie de círculo virtuoso: os investidores acreditam nela, e seu dinheiro lhe permite atacar em mais frentes e vender mais barato, o que leva os investidores a acreditarem mais ainda.

Com essa lógica trabalhando a seu favor, é claro que sua entrada em um mercado deve ser temida por qualquer concorrente com um mínimo de sanidade.

A lista de setores que a Amazon já chacoalhou ou está em vias de chacoalhar vai desde o varejo tradicional até o armazenamento de dados (é pioneira e líder da computação em nuvem), da logística de entrega de produtos ao mercado de serviços de instalação de aparelhos em casa.

Com o passar do tempo, mesmo uma tímida iniciativa da Amazon passou a ser suficiente para provocar tremores no mercado. No ano passado, as ações de supermercados despencaram quando a Amazon comprou a cadeia de lojas orgânicas Whole Foods, mesmo ela sendo uma competidora secundária. E quando a empresa anunciou que passaria a vender máquinas de lavar roupas da marca Kenmore, abalou as ações das marcas concorrentes.

Pois agora parece que, como diz a canção dos anos 50, estamos prestes a ver uma força irresistível encontrar um objeto inamovível: a Amazon quer baixar preços na área de saúde.

Não é à toa que, desta vez, Jeff Bezos pediu a ajuda de dois de seus mais poderosos amigos: o bilionário Warren Buffett, presidente da mítica firma de investimentos Berkshire Hathaway, e Jamie Dimon, executivo-chefe do JP Morgan, o banco americano com mais ativos sob sua gestão.

A ideia, divulgada na terça-feira, é formar uma companhia independente para cuidar da saúde dos empregados das três companhias. Não foram dados muitos detalhes, e os três admitiram que ainda não sabem bem o que vão fazer, nem como.

Segundo o The Wall Street Journal, os planos ainda estão em fase de evolução e quase nada foi decidido além de associar-se e prosseguir nas discussões. Mesmo assim, o anúncio afetou a saúde de uma boa parcela das companhias do setor.

A seguradora de saúde United Health, a maior dos Estados Unidos e dona da brasileira Amil, chegou a perder 6% do seu valor no primeiro momento, e dois dias depois suas ações ainda estavam 4,7% mais baixas. Outras quatro das principais empresas de planos de saúde caíram entre 3% e 5%. As cadeias de farmácias CVS e Walgreens perderam 4% de valor. E a empresa de gestão de benefícios de saúde Express Scripts caiu quase 7%.

A saúde não para… de gastar

O foco inicial da nova companhia deverá ser prover soluções de tecnologia para gerenciar melhor os gastos com saúde. A agilidade e a transparência na compra de remédios, com indicações de tratamentos similares de preços menores, são sempre bem-vindos – mas não é isso que fará alguma diferença no gigantesco setor, que abarca cerca de um sexto da economia americana.

O abalo é pela percepção que os três titãs dos negócios, especialmente Bezos, podem descobrir algum método para frear o aumento de custos na área de saúde.

O desafio não é nada pequeno. Num mundo em constante processo de comoditização – os preços não só de tudo o que é sólido, mas também de intangíveis como serviços, desmancham no ar – a saúde opera na contramão. Só para dar uma ideia: no começo do milênio, o preço médio de uma droga contra câncer, para um ano de tratamento, variava entre 5.000 e 10.000 dólares nos Estados Unidos; saltou para mais de 120.000 dólares hoje.

É um baita problema para as empresas, que pagam os planos de saúde para cerca de metade da população de segurados nos Estados Unidos (no Brasil, a fatia chega a 80%). Com custos crescentes. O preço anual de um plano de saúde oferecido pelas empresas americanas subiu em média 3% no ano passado, para quase 19.000 dólares (a contribuição dos trabalhadores é de pouco menos de um terço disso). No Brasil, o reajuste dos planos de saúde chegou a 13% em 2017.

Este é um problema global porque as pessoas estão vivendo mais, e tendo problemas mais sofisticados. E porque esta é uma área em que não vale a máxima de que “muito de uma coisa boa acaba sendo ruim”: não existe excesso de saúde, e isso cria um potencial poço sem fundo de gastos.

É por isso que a iniciativa dos três amigos será acompanhada tão de perto. Não porque eles possam melhorar o atendimento dos 950.000 empregados que têm em conjunto. Mas pela esperança de que seus resultados sejam transferíveis.

Como disse Dimon, em seu comunicado: “nosso objetivo é criar soluções que beneficiem nossos empregados americanos, suas famílias e, potencialmente, todos os americanos”.

Poderia ter dito “todos os cidadãos do mundo”. Mas, a despeito da força e da competência do trio, o anúncio merece a significativa dose de ceticismo que recebeu de especialistas.

Cinco razões para pessimismo

Aparentemente, o primeiro passo da futura companhia deverá ser azeitar as operações, especialmente com uso de ferramentas tecnológicas.

“Minha suposição é que eles vão criar um plano próprio de gestão de saúde para seus empregados”, disse Caroline Pearson, vice-presidente na consultoria de saúde Avalere Health. “Em vez de contratar os serviços de gestão de benefícios, eles vão assumi-los para testar novos modelos de pagamentos e entrega de cuidados médicos”, afirmou ao site de notícias Vox.

Em parte, esta iniciativa lidaria com uma peculiaridade do mercado americano. Lá, existe a figura da empresa que negocia a compra de remédios para os planos de saúde com os laboratórios (chamadas de PBM, acrônimo de Pharmacy Benefit Manager, ou gestora de benefícios farmacêuticos). Trata-se de um intermediário, que supostamente consegue ter poder de barganha para obter descontos nos remédios.

Um avanço mais significativo seria um sistema de gestão para conter o número de exames desnecessários, encaminhar o paciente para o especialista certo, incentivar hábitos de prevenção ou de tratamento nos estágios iniciais da doença.

Só que isso já foi tentado. E por empresas de tanta envergadura quanto a Amazon – como o Google e a Microsoft. Sem falar nas startups: “Há uma tonelada de apps centrados no comportamento dos empregados, em controle de custos e bem-estar”, diz Caroline. “Será que a Amazon vai criar uma plataforma tecnológica atraente o bastante e integrada o bastante às vidas diárias dos trabalhadores para fazer alguma diferença?”

Se conseguir, o caminho pode ser o mesmo da computação em nuvem. Criada a princípio para uso interno, gerenciando o site de mercado eletrônico, a nuvem da Amazon virou um serviço – e em seguida uma empresa – independente.

Mas não faltam dificuldades. A primeira: os sistemas de gestão são secundários em relação aos grandes gastos de saúde. “Eles contribuem para pequenas vitórias, mas não são balas de prata”, disse Jonathan Kolstad, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, ao New York Times.

A segunda: a saúde é um mercado local, o que dificulta o controle de preços de hospitais e médicos, pela limitada oferta de concorrentes.

A terceira: o mercado de saúde é extremamente regulado pelo governo, o que limita as possibilidades de negociação, a oferta de tratamentos alternativos, a chegada de novos competidores (que poderiam trazer soluções diferentes).

A quarta: o modelo conhecido de inovação disruptiva é oferecer um serviço de pior qualidade, mais barato, que com o tempo vai ganhando mais qualidade. Mas, em saúde, as pessoas normalmente não aceitam trocas por produtos piores, mesmo que eles sejam muito mais baratos.

A quinta: mesmo com tantos empregados para servir de cobaias aos seus sistemas, falta escala às três empresas. A Amazon, por exemplo, tem 500.000 funcionários, mas espalhados pelo país. Não é o suficiente para sustentar um plano de saúde próprio.

Dois motivos para otimismo

Pelo lado otimista, há menos argumentos, mas talvez tão poderosos quanto os pessimistas.

O primeiro se chama Warren Buffett. Aos 87 anos, ele próprio é uma evidência de que os ricos tendem a viver mais. Bem mais. Sua motivação em entrar nesse negócio é corrigir essa discrepância (uma demonstração, aliás, de que o mundo dos negócios oferece tantas possibilidades de causar impacto social quanto o mundo da filantropia).

Buffett não costuma entrar em iniciativas que não tenham boas possibilidades de dar certo.

O segundo – e talvez principal – argumento se chama Jeff Bezos. Não é que a Amazon não tenha lá os seus fracassos (seu tablet e seu celular da linha Fire, por exemplo). Mas essa estratégia de entrar em um mercado apenas para estudar como ele funciona, experimentar algumas iniciativas, dar espaço e incentivo para os talentos aflorarem… Bezos fez isso no Washington Post, e conseguiu transformar um modelo decadente em um exemplo inspirador.