Visitamos a Saudi Aramco, a petroleira de 2 trilhões de dólares

O governo saudita anunciou neste domingo a abertura de capital da Saudi Aramco, e espera que a estatal seja avaliada em até 2 trilhões de dólares

Riade — A Arábia Saudita revelou neste domingo uma das notícias mais esperadas por investidores para 2019 — a petroleira estatal Saudi Aramco vai mesmo abrir capital no que deve ser a maior oferta da história. Um dia antes da confirmação, em meio à expectativa pela notícia, EXAME visitou as instalações da petroleira, a 200 quilômetros da capital do país, Riade.

Quase tudo o que diz respeito à Saudi Aramco é superlativo. Considerada a empresa mais rentável do mundo, com um lucro líquido de 111 bilhões de dólares em 2018, a gigante petrolífera saudita controla a segunda maior reserva de petróleo do planeta. As reservas comprovadas garantem, ao menos, 70 anos de exploração no ritmo atual. A Saudi Aramco vale entre 1,5 trilhão e 2 trilhões de dólares, mais do que a mais valiosa empresa listada do mundo, a Apple.

Milhares de funcionários trabalham incansavelmente para extrair mais de 10 milhões de barris petróleos por dia — mais que o triplo da produção brasileira. Alguns moram dentro dos limites dos próprios complexos de produção, em prédios de dois ou três andares que lembram o estilo dos subúrbios de alto padrão de grandes cidades americanas, ou vão e voltam nos ônibus da companhia.

Apesar do escaldante calor que pode chegar aos 50 graus, não há do que se queixar. A petroleira é administrada como uma companhia privada de alto desempenho, e não como um feudo estatal. Os salários são acima da média de mercado e algumas unidades da empresa ficam a poucos quilômetros das praias do Golfo Pérsico. Um dos resorts mais luxuosos do mundo, voltado a visitantes estrangeiros e expatriados que trabalham na Arábia Saudita, foi aberto há pouco tempo na região.

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Até algumas décadas atrás, tudo isso seria inimaginável. Camelos e beduínos dominavam a paisagem nos locais onde hoje estão situadas as unidades produtoras da empresa. Americanos e britânicos já tinham conhecimento sobre o potencial da extração de petróleo no Oriente Médio nos anos 30, quando os engenheiros da Standard Oil Company of California, que estava na corrida pelo chamado “ouro negro”, descobriram imensas reservas no meio do deserto saudita, a mais de 200 quilômetros da capital, Riade. Logo foi feito um acordo com o reino saudita para a exploração de petróleo. A produção começou em 1935 e ganhou força nos anos seguintes.

Os campos de Abqaiq, onde o petróleo jorra com facilidade, foram descobertos em 1940. O local foi um dos alvos dos ataques por mísseis em setembro deste ano que interrompeu temporariamente metade da produção da empresa – a agressão foi assumida pelos rebeldes houthis, do Iêmen, que vive uma guerra civil agravada pela interferência da Arábia Saudita e do Irã.

A Saudi Aramco foi nacionalizada em 1980 e desde então vem irrigando a economia saudita com rios de petrodólares. A empresa deu também uma contribuição importante para uma das principais características da Arábia Saudita. Desde o início, centenas de engenheiros e geólogos dos Estados Unidos foram contratados para trabalhar na Saudi Aramco, levando boa parte da cultura americana para o deserto. Não à toa, hoje as principais cidades do país florescem com shopping centers, redes de fast food internacionais e hotéis acarpetados com ótimo ar-condicionado e máquinas de café, algo menos comum em outros países do Oriente Médio.

Nas unidades da Saudi Aramco, o conforto não é menor: aviões com poltronas de couro e refeições preparadas por chefs transportam executivos e visitantes internacionais. Só falta mesmo abrir o champanhe, algo por enquanto fora de cogitação. Apesar de todas as recentes mudanças no reino e um certo afrouxamento das rígidas regras de comportamento, promovidas pelo príncipe Mohamed bin Salman, bebidas alcóolicas continuam proibidas. O brinde pela abertura de capital da empresa, anunciada neste domingo, deve ser mesmo com café árabe.