Viemos para dividir

Nascida na Grande São Paulo, a Economia de Comunhão cresce no mundo pregando a repartição dos lucros

Quando um empreendedor funda uma empresa, ele pensa primeiro em quê? A resposta mais óbvia é: no dinheiro que poderá ganhar. Temas como financiamento de projetos sociais, gestão participativa e divisão dos lucros são preocupações que costumam surgir só depois de o empreendimento crescer e se firmar. Há, entretanto, algumas empresas que se comportam de modo diferente. Para esse grupo, o objetivo é o lucro, mas também deve ser dividido com a comunidade e, muitas vezes, com os funcionários. Independentemente do tamanho do negócio — o faturamento anual pode não passar de 500 000 reais –, é possível doar algumas centenas de reais por mês a quem precisa mais.

A partilha dos lucros é um dos princípios da Economia de Comunhão, um movimento internacional que envolve cerca de 800 empresas em dezenas de países, 84 delas no Brasil. Tudo começou na Grande São Paulo, há pouco mais de dez anos, por obra da italiana Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, uma organização presente em 180 países que busca promover a fraternidade e a divisão de bens entre os indivíduos, como descrito no Evangelho (leia mais na pág. 20). Quando esteve no Brasil em 1991, Chiara, hoje com 82 anos, declarou que a partilha entre os membros do movimento não estava garantindo uma qualidade de vida adequada a todos. Muitos estavam desempregados, alguns sem ter o que comer. “Ela percebeu que a comunhão de bens tinha de acontecer num nível não só individual mas também empresarial, para gerar mais recursos”, diz Maria do Carmo Gaspar, que viu Chiara discursar para uma comunidade de focolares em Vargem Grande Paulista, na região metropolitana de São Paulo, durante aquela visita.

A pregação da líder do movimento teve efeito imediato. Maria do Carmo, uma professora sem nenhuma experiência empresarial, uniu-se a uma amiga que tinha duas máquinas de costura. Fundaram uma confecção que seguiria os princípios expostos por Chiara. Nascia, assim, naquele mesmo ano de 1991, a primeira empresa da Economia de Comunhão, a La Tunica (o nome, dado pela própria Chiara, é uma alusão em italiano à roupa usada por Jesus Cristo). Assim como Maria do Carmo e sua amiga, muitos focolares no mundo todo fundaram empresas — ou encaixaram negócios já existentes nos novos moldes. Só na Grande São Paulo existem hoje 16, entre elas seis no Pólo Empresarial Spartaco, em Vargem Grande Paulista, 35 quilômetros a oeste da capital. A maioria das empresas do pólo fatura menos de 1 milhão de reais por ano. Juntas, têm 75 funcionários. Apesar dos números modestos, o pólo tem uma importância crucial: as técnicas de gestão desenvolvidas ali são referência internacional para a Economia de Comunhão.

Com cerca de 50 000 metros quadrados, o Pólo Spartaco foi criado como uma espécie de laboratório de testes. “É uma luz para orientar nossas outras empresas no mundo todo”, diz Rodolfo Leibholz, presidente do conselho administrativo da Espri, a sociedade anônima proprietária do pólo. (O capital da Espri, de pouco mais de 1,5 milhão de reais, é bastante pulverizado: são 3 600 associados, muitos dos quais não possuem mais que uma ação — alguns venderam galinhas para comprá-las.) Membro dos focolares desde 1975, Leibholz é diretor da Femaq, uma fundição de Piracicaba que distribui 10% de seu lucro aos funcionários. “Chiara teve a intuição de colocar o amor recíproco dentro das empresas. Nós, empresários, tínhamos de mostrar que isso era possível na prática”, diz

A pioneira La Tunica mudou-se para o Pólo Spartaco em 1994. A ela se juntaram a Eco-Ar (fabricante de produtos de limpeza), a KNE Plast (fábrica de produtos para saneamento), a AVN (que faz embalagens plásticas), a Prodiet (filial de uma distribuidora paranaense de medicamentos) e a Uniben (financeira). A cada ano, o conselho da Espri revisa o plano estratégico do pólo. Até 2010, são esperadas mais quatro empresas, totalizando dez. O projeto também inclui uma área comercial para escoar parte da produção. “Queremos nos relacionar com outros pólos do mundo e facilitar exportações”, afirma Leibholz. Há novos pólos sendo construídos na Itália, nos Estados Unidos, na Argentina, na Alemanha e nas Filipinas. Todos seguem o modelo do Spartaco, que é visitado anualmente por dezenas de estrangeiros — a Economia de Comunhão já foi tema de tese em muitas universidades européias e brasileiras.

Fazendo o bem

Não existem normas rígidas para pertencer à Economia de Comunhão nem um contrato ou estatuto. Deve-se apenas aderir a alguns princípios, como fazer que os funcionários sejam felizes e se realizem no ambiente de trabalho — as ferramentas usadas para isso vão do diálogo constante à participação nos ganhos. Com relação ao lucro, a orientação é para que seja dividido em três partes: uma é reinvestida no negócio, outra vai para centros de educação dos focolares e a terceira é distribuída. Cada empresa decide a hora de compartilhar seus ganhos, para que isso não prejudique o andamento dos negócios. “A doação não é feita a instituições, mas a indivíduos que tenham ligação com o movimento”, diz Márcia Baraúna, assistente social que fez mestrado sobre a Economia de Comunhão. “Eles recebem uma ajuda mensal até que sua situação social melhore.” No ano passado, as empresas brasileiras doaram 61 000 dólares. O dinheiro arrecadado em todo o mundo vai para uma comissão dos focolares na Itália, que decide quais os membros do movimento que mais precisam ser beneficiados.

Ser uma empresa filiada à Economia de Comunhão envolve cumprir a lei à risca: pagar todos os impostos e só empregar com carteira assinada. O relacionamento com clientes e fornecedores deve obedecer a princípios éticos. Atividades prejudiciais ao meio ambiente não são permitidas. A Eco-Ar, por exemplo, trata todos os seus resíduos químicos, mesmo que isso não seja exigido por lei. “Empresas do nosso porte geralmente não fazem isso”, diz Ercília Teixeira Fiorelli, diretora da empresa. A Eco-Ar é provavelmente a história de maior sucesso do pólo. Seus amaciantes e produtos de limpeza já são vendidos a preços populares em redes como Carrefour, Sonae e Econ. Com 21 funcionários, faturou 5 milhões de reais em 2001. Ercília atribui os bons resultados a seu esforço em motivar pessoalmente cada colaborador. “Mesmo com um processo semi-automático, meu faturamento mensal por homem é de 20 000 reais, alto até para os padrões internacionais”, afirma.

Ercília comanda outro negócio no pólo: a financeira Uniben, criada para fomentar empresas da Economia de Comunhão que acabavam se endividando demais para conseguir capital. O principal objetivo da Uniben é orientar o cliente, não apenas procurar ganhar dinheiro com ele. “Não posso dar crédito a alguém que sei que vai quebrar, só para ganhar o que a pessoa usou como garantia”, diz Ercília, que conhece bem o mercado financeiro: trabalhou por 15 anos num banco. “Eu me sentia menos gente l”, diz.

Mudança de hábito

O caso de Ercília é comum na Economia de Comunhão: membros dos focolares que ganhavam bons salários como executivos em grandes empresas, mas não se sentiam realizados. Na KNE Plast, essa é a situação dos dois sócios-diretores. Odilon Augusto de Souza Junior foi gerente de várias áreas da Rockwell Fumagalli, multinacional que fabrica rodas metálicas, onde trabalhou durante 17 anos. Já Luiz Gonzaga Colella ficou 25 anos na Union Carbide, empresa do setor químico. “Ganhava muito bem e tinha possibilidade de subir ainda mais”, diz. “Mas a idéia de Chiara foi a resposta para várias questões que eu tinha a respeito de minha vida profissional.”

Para investir no pólo, não basta ter dinheiro e disposição: é preciso ser aprovado pelo conselho da Espri. Por falta de afinidade com a proposta da Economia de Comunhão, aportes de capital já foram recusados — apesar da situação difícil de algumas empresas. A AVN, por exemplo, existe há dois anos e fechou no vermelho em ambos. O conselho da Espri estuda de que modo pode intervir na gestão da empresa. É sinal de que boas intenções não são condição suficiente para se manter no pólo: é preciso também mostrar resultados.