Vianna, da Delta: única saída é privatizar distribuidoras de energia

Para ex-presidente da Itaipu as empresas privadas de energia conseguem ter uma eficiência que não é possível no setor público

Após uma passagem que durou pouco mais de um ano na presidência da usina hidrelétrica de Itaipu, o engenheiro Luiz Fernando Leone Vianna assumiu no início desta semana o comando da gestora de fundos criada pelo grupo de energia Delta. “Vou assumir o cargo logo depois dessa entrevista”, brincou Vianna em uma entrevista exclusiva a Exame poucas horas depois de desembarcar de mala e cuia em São Paulo. A nova gestora, Delta Energia Asset Management, nasce com um fundo multimercado que captou 1 bilhão de reais em agosto do ano passado. O fundo identifica o melhor momento para comprar energia barata oferecida no mercado e lucra em uma venda futura, com preço mais alto. O objetivo da gestora é ter 5 bilhões de reais sob gestão em um prazo de até 5 anos. Na entrevista, Vianna falou sobre a nova oportunidade e sobre o setor elétrico no país. Ele afirma que os gastos das empresas estatais de energia são insustentáveis no médio e longo prazo. A solução seria concedê-las à iniciativa privada. Confira a entrevista abaixo.

O senhor tinha um mandato de cinco anos na Itaipu, o que o levou a vir para a Delta pouco mais de um ano depois de assumir da Itaipu?

Eu realmente não tinha a intenção de seguir carreira na Itaipu, como meu antecessor [Jorge Samek] que ficou 14 anos. A minha intenção era terminar o mandato, de cinco anos, que terminaria em 2022. O projeto inicial era esse, mas recebi a proposta da Delta e achei muito importante. Essa proposta é diferente do que se vê no mercado porque une duas pontas. Preenche uma lacuna que existe para as geradoras de energia e uma lacuna que está surgindo que é a necessidade de bons investimentos em um momento de taxa Selic baixa. Essa possibilidade de expandir para outros fundos é uma ótima oportunidade.

O senhor passou dez anos na presidência da Associação dos Produtores Independentes de Energia Elétrica e também foi presidente na Copel. A proposta da Delta é no setor de energia é diferente de tudo o que o senhor já fez. Como sua experiência ajuda nessa nova etapa?

Eu entrei no setor elétrico como estagiário. As experiências que tive trazem um conhecimento do setor elétrico e também um relacionamento com pessoas deste setor. Na minha passagem por Itaipu aprendi o poder da negociação. Como trata-se de uma empresa binacional na qual o Paraguai é dono de 50%, não é possível levar uma proposta para votação sem antes negociá-la.

E houve alguma insatisfação que pesou para o senhor deixar Itaipu?

Um blog divulgou que eu não resisti a pressão política e foi por isso que eu saí. Isso é um absurdo. O que acontece é que eu recebi uma proposta interessante em termos de carreira em um grupo sólido. É claro que há uma questão política em Itaipu, tanto é que até agora não definiram o meu sucessor porque há uma disputa. Há sim uma composição política nas indicações e diretorias, ma a minha indicação foi técnica. O fato de a Itaipu ter uma binacionalidade a protege de questões que poderiam fazer mas a empresa. As grande decisões passam pela diretoria que tem representante dos dois países.

Atualmente há um projeto de lei sobre a reforma do setor elétrico que está no Congresso, que vai ampliar o acesso das empresas ao mercado livre de energia. De que forma ela muda a dinâmica da gestora Delta?

Essa reforma do setor elétrico precisa acontecer. Esse modelo atual nasceu em 2004 e foi bastante remendado. Foi um modelo exitoso para a expansão do setor no país, o problema foram os remendos sucessivos. Como a reforma está no Congresso isso pode sair em breve. E isso acontecendo o caminho para a gente entrar ainda mais nesse horizonte de fundos de investimento cresce, porque teremos uma base de clientes maior, uma capacidade melhor de investir geração. Os contratos também passam a ter mais transparência nos contratos.

Há outra questão importante do setor que é a privatização da Eletrobras. Ela vai acontecer ainda este ano?

Ela tem que acontecer. O governo já teve que fazer um aporte de recursos para impedir que a companhia tivesse maiores problemas, mas isso não pode se perpetuar. A primeira etapa da privatização é a venda das distribuidoras da Eletrobras, que está prevista ainda para este mês. Depois há a questão da privatização do próprio grupo através da pulverização do bloco controlador. O novo ministro [de Minas e Energia, Moreira Franco] colocou isso como uma questão de estado. E vai ter que acontecer nesse governo ainda.

E mesmo sem as distribuidoras a situação da Eletrobras continua complicada?

Mesmo sem as distribuidoras ela precisaria de novos aportes do governo para cumprir seus compromissos. O Wilson Ferreira [presidente da empresa] é a pessoa certa no lugar certo. Tem um histórico brilhante que levou ele para essa posição que é o mais desafio de sua carreira. Ele pegou a Eletrobras numa situação caótica, mas ele já fez tudo que podia fazer.

As distribuidoras estaduais também precisam ser privatizadas?

O único caminho do setor, principalmente para as distribuidoras, é a privatização. A forma de gestão faz uma distribuidora ter um custo muito alto. Por exemplo, na Copel tem mais de 8.500 empregados, mais de 6.000 estão na distribuidora e isso gera um custo gigantesco mas que é inerente a uma estatal. O setor privado pode ser mais eficiente. Não acredito que a distribuidora estatal possa apresentar solidez de bons resultados ou até mesmo que seja sustentável a médio e longo prazo.

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