Vale descarta Thyssenkrupp desistir da venda da CSA

De acordo com o diretor executivo da Vale, lentidão no processo tem como pano de fundo o pior momento da siderurgia mundial

Rio – A Vale descarta a possibilidade de a sócia alemã Thyssenkrupp desistir da venda da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), novela que se arrasta há mais de um ano. De acordo com o diretor executivo de Ferrosos da Vale, José Carlos Martins, a lentidão no processo tem como pano de fundo o pior momento da siderurgia mundial.

“Negócio depende muito de timing. (…) Provavelmente, a Thyssen entrou na hora errada e quer sair na hora errada”, afirmou. Em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, Martins confirmou que o grupo alemão, antes de fechar a venda da CSA, terá de indenizar a siderúrgica por erros de gestão. Segundo ele, o tema é discutido com os alemães.

O ressarcimento deve vir na forma de perdão de dívidas que a CSA tem com a Thyssen. A companhia alemã tem assegurado sozinha a manutenção da operação da siderúrgica do Brasil, aportando recursos na forma de empréstimos. Martins, porém, não descarta a hipótese de uma disputa judicial em torno do valor da indenização, prevista em cláusula do acordo fechado entre a Vale e a Thyssen em 2009, quando a CSA ainda estava em construção. “Toda cláusula contratual está sujeita a disputas”, afirma.

Mesmo fora dos tribunais, o diretor executivo de Ferrosos da Vale faz segredo da cifra exigida pela mineradora. Martins brinca: “Nós achamos que é grande; eles acham que é pequena.” Já no mercado financeiro, as apostas giram em torno de R$ 300 milhões. A origem da disputa está no acordo de 2009, que modificou o contrato original. Prejudicado pela crise financeira mundial, o grupo alemão pediu socorro à mineradora, que pôs mais R$ 2,5 bilhões no projeto e ampliou a participação de 10% para 27% na siderúrgica.

Nesse rearranjo societário, a Thyssen preferiu continuar sozinha na gestão da empresa. Para se garantir, a mineradora incluiu no contrato uma cláusula prevendo o reembolso caso a siderúrgica perdesse dinheiro por conta de erros cometidos por má administração. Em contrapartida, abriu mão de uma opção de venda, que obrigaria os alemães comprar a fatia da Vale a qualquer momento.

“Isso foi uma demonstração de que fizemos de tudo para ajudar o projeto. Abrimos mão de uma série de direitos, colocamos mais dinheiro lá. Nós cedemos demais”, afirma. Agora, afirma, a fase é de acompanhar o desenrolar das negociações da Thyssen em busca de um comprador para a fatia na CSA.

Nesse processo, o objetivo é assegurar a manutenção dos direitos adquiridos, como o contrato de longo prazo de fornecimento de minério de ferro e o reembolso por erros de gestão. “A eventual indenização por deficiências na implantação do projeto ou operação se enquadra entre esses direitos”, diz.

Martins reitera que a mineradora só se pronunciará sobre a venda quando a Thyssen apresentar uma proposta fechada e vinculante. Atualmente, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) é a única na disputa pelas ações do grupo alemão. O negócio, conforme o diretor executivo de Ferrosos da Vale, tem esbarrado no momento crítico vivido pela siderurgia mundial, que tira de cena compradores.

Com mais de 35 anos de siderurgia, Martins declara afirma nunca ter visto uma crise como esta no setor, que atinge todos os mercados. Mesmo na China, onde o mercado ainda permanece mais forte, as siderúrgicas amargaram resultados mais fracos. “É a mais profunda crise que eu já vi.” Apesar do quadro preocupante, o diretor executivo é otimista em relação ao futuro da siderurgia diante da necessidade de construção de infraestrutura no mundo, especialmente na China, principal mercado consumidor do minério de ferro produzido pela Vale.