Um Vale do Silício no sudeste asiático

Um dos países mais competitivos do mundo, Singapura dá incentivos, cria polo tecnológico e atrai multinacionais para inovarem em seu território

O bairro de One-North, em Singapura, representa bem o salto que o país do sudeste asiático deu nos últimos anos. O distrito é frequentemente comparado ao Vale do Silício, região da Califórnia, nos Estados Unidos, berço de companhias como Google e Facebook e considerada a meca da inovação. Os números motivam a analogia. Com menos de duas décadas de existência, One-North já abriga mais de 400 companhias e 16 000 trabalhadores em uma área de 200 hectares.

É nessa região que estão multinacionais que buscam o país asiático para fazer negócios. A procura não é para menos. Singapura é o sétimo local mais eficiente do planeta para inovação, segundo o ranking The Global Innovation Index, feito pelo World Intellectual Property Organization. Mais: a região é considerada a melhor do mundo em diversos quesitos, como em eficácia do governo, qualidade regulatória e abertura para o capital de terceiros. Em entrevista para a revista EXAME, Lim Chuan Poh, presidente do conselho da Agência de Ciência, Tecnologia e Pesquisa (A*Star) – ligada ao governo de Singapura –, explicou que os resultados são alcançados graças aos investimentos do governo em ciência e educação.

Fatores como esses ajudam a acelerar o desenvolvimento tecnológico da região. A cobertura de telefonia ajuda a demonstrar o avanço. Enquanto o Brasil ainda engatinha na cobertura 4G, o país de 5,5 milhões de habitantes tem acesso total à tecnologia. Uma ligação de vídeo, por exemplo, pode ser feita, inclusive, nos metrôs subterrâneos. O 5G é previsto para estrear já em 2020. Investimentos em trabalhos de computação em nuvem, impressão 3D e automação também são massivos.

O resultado dessa ofensiva é que, todos os anos, Singapura faz mais de 1 000 projetos com empresas, sendo 55% delas multinacionais, 38% pequenas e médias companhias de outros países e 7% corporações locais. “O investidor tem confiança para colocar o seu dinheiro por conta de instituições fortes e atratividade de investimento, além da posição geográfica estratégica”, diz Mário Ogasavara, coordenador do programa de mestrado e doutorado em gestão internacional da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

A empresa brasileira Stefanini sabe bem das vantagens. Há dois anos, a companhia especializada em prestação de serviços e softwares instalou um centro de pesquisa e desenvolvimento em Singapura. A ideia era aproveitar tanto a infraestrutura do país quanto a mão de obra qualificada. O país possui algumas das melhores universidades do continente, sendo a maioria estatal, e atrai instituições de renome internacional, como as conceituadas Yale e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. “O ambiente de negócios e o avanço tecnológico nos permitem alcançar resultados na metade do tempo que conseguiríamos no Brasil”, diz Ailtom Nascimento, vice-presidente executivo da Stefanini.

Incentivo no bolso

A questão fiscal também foi importante para o avanço da empresa na Ásia. Apesar de a Stefanini já atuar em países como China, Índia, Malásia, Filipinas e Tailândia, faltava um avanço na criação de tecnologia no continente. O auxílio do governo de Singapura foi, então, fundamental para a escolha. De acordo com Nascimento, a cada dólar que a companhia investe, outros 4 dólares são recebidos por meio de incentivos fiscais. Até agora, a empresa aportou 1 milhão de dólares na região. “Singapura é orientada a negócios e eles sabem que esse dinheiro investido volta por meio de patentes e movimenta a economia do próprio país.”

Os incentivos para a inovação estão longe de ser pequenos. Segundo dados da A*Star, o estado fez aportes de 3,31 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento no ano de 2014. No mesmo período, a iniciativa privada aportou 5,21 bilhões de dólares.

De olho no mercado continental

Já a fabricante de aeronaves Embraer trabalha com a A*Star em um projeto de automatização da linha de produção da companhia no Brasil. Além disso, desde 2000, a Embraer mantém escritório em Singapura e criou parcerias com 18 indústrias do país para pesquisas pré-competitivas. A meta é aumentar eficiência para conquistar uma fatia do mercado de aviões de médio e pequeno porte na Ásia. E os números chamam a atenção.

Segundo a empresa, as companhias aéreas da região Ásia-Pacífico serão responsáveis pela encomenda de 1 700 aeronaves de 70 a 130 assentos até 2036, o que movimentará cerca de 75 bilhões de dólares. A Embraer estima que 27% do seu total de pedidos virá dos países asiáticos. “Escolhemos Singapura pela localização estratégica e para centralizar as atividades na região”, diz Ricardo Pesce, presidente da Embraer para a região Ásia-Pacífico. “Também enxergamos um potencial para nossos jatos executivos e soluções na área de defesa e segurança no continente.”

Para a P&G, gigante americana de bens de consumo, a investida no sudeste asiático ajuda a preencher lacunas. Com as vendas no Ocidente evoluindo de maneira modesta, as atenções do setor se voltaram para a Ásia. Com o potencial em vista, em 2014 a empresa investiu 200 milhões de dólares para a criação de um laboratório de pesquisa e desenvolvimento. Lá, mais de 500 especialistas criam produtos para o público oriental.

Após fechar o contrato, a P&G passou a ter à sua disposição mais de 25 institutos de pesquisa governamentais, além de hospitais e universidades por todo o país. “Esse acordo permite que a P&G aproveite as tecnologias desenvolvidas na região para acelerar a inovação interna”, diz Poliana Sousa, diretora de marketing da P&G no Brasil. “Melhoramos o nosso portfólio e ainda contribuímos com bilhões de consumidores pelo mundo.” Com parcerias como essas, Singapura quer mostrar que é possível, sim, que o público e o privado caminhem juntos para criar sociedades mais avançadas.