Reabilitação de executivos: um lucrativo negócio nos EUA

Programa diferenciado para executivos adictos mostra abordagem elitista para os vícios nos Estados Unidos

Trey Laird sabia que sua vida parecia boa. Após se formar em uma escola de elite em Manhattan e no Dartmouth College, começou a trabalhar em finanças e trilhou o caminho tradicional do sucesso profissional e conforto financeiro. Morava com a esposa e os dois filhos em Darien, Connecticut, uma das comunidades mais ricas dos Estados Unidos.

Ele sempre gostou de festas. “Eu era o cara que jogava beer pong na república”, contou. Depois de tirar o apêndice, porém, ficou viciado em analgésicos controlados.

Laird, que trabalhava com vendas de ativos privados, conseguia aliar o trabalho ao vício. “Eu sabia que tomar OxyContin enquanto escovava os dentes pela manhã não era normal, mas achei que seria assim para sempre. Eu não teria uma vida longa e tudo bem.”

Mas quando a esposa encontrou um frasco de 500 comprimidos de OxyContin vazio, ela o obrigou a começar um tratamento. Laird se internou no Silver Hill Hospital, um centro de tratamento nacionalmente conhecido em New Canaan, Connecticut.

Agora que a crise de opioides tomou a nação de assalto, surge uma indústria que oferece centros de tratamento para executivos como Laird, para aqueles que procuram serviços médicos em um ambiente discreto que lhes permita continuar a trabalhar. Alguns programas chegam até mesmo a oferecer exclusividade para profissões específicas.

Após o período de tratamento, um setor de residências e pessoal de apoio fica disponível para manter os executivos na linha. Nada disso é barato – nem particularmente acessível para aqueles que não têm recursos financeiros –, mas tem a pretensão de ser a melhor opção que o dinheiro pode comprar.

Depois da sua estadia no Silver Hill, Laird buscou uma rede de suporte mais tradicional para recuperação de viciados. E foi então que teve a ideia para formalizar o apoio que dava e recebia.

“Fui pegar uns caras em Silver Hill, e o sujeito ao meu lado, um contador do Meio Oeste, disse que estava preocupado com a volta para casa. Foi minha deixa para começar a oferecer a proteção de morar em um lugar onde todo mundo esteja limpo”, disse Laird.

Em 2015, ele abriu a Lighthouse, uma casa luxuosa em Darien para manter executivos afastados do vício. No ano passado, abriu uma segunda em New Canaan. Com preços que variam de US$10.500 a US$17.500 por mês, não cobertos pelo seguro, elas não são para pessoas com recursos modestos.

A filial de New Canaan tem 743 metros quadrados e é avaliada em mais de US$4,5 milhões. Parece saída de uma revista de decoração; há até um simulador de golfe no porão.

Porém, as casas da Lighthouse são mais do que um espaço confortável; elas fornecem suporte aos residentes, que vão trabalhar durante o dia e voltam à noite. Além de terapia e sessões de tratamento, eles são obrigados a usar um bafômetro e a participar de uma reunião semanal.

Outros locais oferecem programas de tratamento destinados a executivos.

O Silver Hill começou agora uma versão para executivos, em conjunto com a Faculdade de Medicina de Yale. As taxas cobradas serão um pouco menores que a de um quarto privado, que custa entre US$70 mil e US $80 mil por mês, segundo Samuel A. Ball, professor de Psiquiatria de Yale, que será o diretor do programa.

Os Centros de Tratamento Caron, que oferecem vários programas de recuperação, tem uma propriedade em Boca Raton, na Flórida, chamada Ocean Drive, que se descreve como “um centro de reabilitação luxuoso e discreto para pessoas com riqueza e influência”. O custo é de US$75 mil no primeiro mês e US$65 mil mensais depois disso.

A filial da empresa perto da Filadélfia criou programas mais específicos para profissionais da área médica e cobra US$50 mil por uma permanência média de mês e meio. Para os advogados, as taxas são de US$32 mil para um programa de um mês e US$25 mil pelos adicionais.

Apesar das boas intenções desses programas, as taxas elevadas e acomodações de luxo são criticadas por profissionais de tratamento, que dizem que há uma linha tênue entre paparicar e ajudar.

“A questão é se o termo ‘executivo’ é apenas um código para os ricos ou alguém em uma função de poder”, disse Arden O’Connor, executiva-chefe do O’Connor Professional Group, que dá consultoria sobre planos de tratamento para dependência e transtornos alimentares.

Mas acrescentou que era útil para as pessoas que iniciam programas de tratamento estarem perto de outras da mesma idade e realidade. Entrar no grupo errado poderia fazer alguns executivos mais velhos resistirem à iniciativa.

“Se você os colocar em um local cheio de jovens de 27 anos que abandonaram a faculdade por causa do consumo de heroína, dirão que não estão tão mal quanto eles e irão embora.”

Ball disse que o novo programa para executivos no Silver Hill é tão rigoroso quanto outros programas do hospital, mas com uma ênfase mais individual. Os residentes poderão trabalhar, desde que isso não afete seu tratamento.

“Estamos construindo, de forma estruturada, a oportunidade para que continuem conectados ao trabalho, na medida da permissão de sua empresa. Talvez sejam executivos prestes a fechar grandes negócios, e não podem desaparecer por um mês. Podem manter a comunicação, e é isso que nos difere de outros programas.”

Bradley F. Sorte, vice-presidente de operações da Flórida no Caron, disse que os programas da empresa adaptados para médicos e advogados os diferem ainda mais dos de tratamento geral. No caso dos médicos, o nível de cuidados corresponde ao conhecimento que têm.

Quando os viciados em recuperação terminam seu tempo em um centro de reabilitação, muitas vezes vão para uma casa onde todos estão limpos e cujo objetivo é ser uma ponte de volta para suas vidas.

Barry Goldberg, 62 anos, executivo de West Hartford, Connecticut, conta que quando terminou seu tratamento hospitalar contra o alcoolismo no Mountainside, em Canaan, Connecticut, no ano passado, não estava pronto para voltar para sua família e preferiu ficar em uma dessas casas.

Ele foi para a Lighthouse em Darien e lá ficou por três meses. Disse que se manteve ocupado com reuniões e trabalho durante todo o dia e isso o ajudou a permanecer na linha. À noite, jantava e compartilhava histórias com outros residentes que tiveram sucesso em suas carreiras. Seu programa terminou em janeiro.

“Evitei uma recaída. Atribuo isso ao programa amplo e diversificado que segui”, disse Goldberg.

Certamente, há críticas a essa abordagem elitista. Quer seja proposital ou não, os programas voltados para executivos atraem grupos de pessoas ativas, que são capazes de manter suas carreiras e juntar dinheiro para pagar a conta. São profissionais como Laird, que chegou ao nível do diretor em sua empresa mesmo enquanto tomava drogas antes de pegar o trem para o trabalho.

“Se você ainda tem emprego, dá para resolver o problema a qualquer momento. Há o aspecto da liberdade financeira. Você sente que pode cair fora”, disse Ariel Eliaz, gerente da NYC Sober Living em Park Slope, no Brooklyn, que cobra US$7.500 por mês.

Eliaz, que também trabalha como ator, não tinha dinheiro quando largou o vício, aos 33 anos, em 2012. Entende porque os executivos precisavam de um ambiente diferente, mas disse que, para ele, foi a amizade dos outros dependentes que o recuperou e que o fez permanecer assim.

O que esses centros para executivos fornecem, uma mistura entre clínica de reabilitação e resort cinco estrelas, é uma zona indefinida que alguns deles precisam para se sentir bem.

O’Connor disse: “É preciso encontrar alguém que lhes dê alguma motivação externa, até que haja a motivação interna. Quem ganha os tubos e está no auge, casado com alguém que não quer lhes dizer não, só tem o conselho administrativo para incentivá-lo, principalmente se disser algo do tipo: ‘Você arruinou o último relatório de lucros’.”