Todos por um

O número de cooperativas nunca foi tão grande. Descubra por que o sistema é uma opção vantajosa para quem quer garantir o trabalho e aumentar a renda

Momentos de crise são tidos como oportunidades valiosas de crescimento. Pelo menos no que diz respeito ao sistema de cooperativismo no Brasil, parece que o senso comum está mais do que correto. Desde a década de 80, alavancado pelos percalços econômicos e sociais do país, o modelo de organização em que todos são donos do negócio já cresceu mais de 1000% — incluindo nessa conta cooperativas de crédito, educação, saúde, trabalho e produção, entre outras. Só no ano passado, em relação ao ano 2000, o salto das cooperativas de trabalho foi de 19%. Hoje, já são quase 3 mil entidades desse tipo que reúnem 450 mil profissionais interessados em um jeito diferente de colocar suas habilidades no mercado e garantir emprego e renda. “É uma nova relação que torna o profissional auto-suficiente”, diz o advogado José Eduardo Pastore, especialista em cooperativismo. “Sob todos os aspectos há um ganho considerável porque a figura do intermediário, do capitalista que visa ao lucro, é eliminada das negociações.”

Na prática, o que os profissionais associados às cooperativas de trabalho estão descobrindo é que contratantes não faltam e, em razão do volume de ofertas, o rendimento no fim do mês pode até dobrar. A engenheira carioca Tereza Gomes, associada à Cooperativa de Profissionais em Projetos, Orçamentos e Obras (Procoop), por exemplo, tem um cargo de responsabilidade na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e salário acima da média do mercado. “Consigo valorizar minha hora de trabalho porque a empresa não precisa me pagar encargos trabalhistas”, diz Tereza. É interessante para uma empresa negociar com uma cooperativa porque ela economiza tributos sem recorrer a relações informais de emprego e ainda conta com o serviço de parceiros especializados.

Isso porque, via de regra, os profissionais associados já passaram por empregos formais, têm competências amadurecidas e preocupação em se manter constantemente atualizados. Para as empresas há ainda as vantagens contratuais. Quem presta serviço é um determinado profissional, mas o acordo é feito com a cooperativa, que funciona como uma espécie de procuradora do trabalhador. “A Constituição garante tratamento tributário diferenciado às cooperativas e às empresas que as contratam”, diz o advogado Álvaro Trevisioli. “As entidades, por exemplo, não estão sujeitas à cobrança de Cofins e PIS.” A lógica que rege o sistema privilegia as pessoas. O associado mantém-se como profissional autônomo. Não dispõe dos benefícios de um empregado com carteira assinada, mas tem a vantagem de, por estar unido a uma associação, ter acesso a licitações e contratos vetados a pessoas físicas. O que as cooperativas fazem é embutir valores proporcionais às férias e ao 13o salário no preço que propõem aos clientes. E vão além: boa parte já oferece benefícios típicos dos de uma empresa tradicional, como planos de saúde e de previdência privada. “Como o número de participantes é grande, os descontos na hora de contratar esses benefícios também são”, diz Márcio Lopes de Freitas, presidente da Organização Brasileira de Cooperativas (OCB).

Do campo para a cidade

O cooperativismo nasceu na Inglaterra, em 1844, como uma resposta dos trabalhadores à revolução industrial. A primeira cooperativa registrada oficialmente no mundo reunia um pequeno grupo de tecelões. Atualmente, na Europa, segundo dados do Comitê Europeu de Trabalhadores de Cooperativas (Cecop), 1 milhão de pessoas estão vinculadas a 50 mil entidades. No Brasil, o sistema foi bastante utilizado pelo governo federal entre as décadas de 50 e 80, como alternativa para o desenvolvimento rural. “Vem daí a associação distorcida que ainda hoje muitos profissionais fazem de vincular cooperativa apenas a serviços agrícolas”, diz Freitas, da OCB. “Da década de 80 para cá, houve uma mudança significativa no perfil de atuação das entidades como resposta ao processo de globalização e de terceirização nas empresas.”

Um reflexo direto da urbanização — e da modernização — do movimento é o crescimento das cooperativas de tecnologia. A Cooperativa de Trabalho em Tecnologia da Informação (CTI), de São Paulo, por exemplo, foi fundada em 1998 por um grupo de 20 profissionais, para atender um único cliente. Hoje tem 3,8 mil sócios, entre técnicos, consultores e analistas de sistemas, e mais de 100 empresas de médio e grande portes em sua carteira. Sua “folha de pagamento” é de 5 milhões de reais. A remuneração mensal dos cooperados fica acima do mercado: em média, 3 mil reais. O valor/hora negociado chega a 80 reais.”Não somos uma agência de empregos. Nosso papel é gerir os contratos dos cooperados”, ressalta a administradora de empresas Marta Reis, presidente da CTI. “O sócio paga uma taxa de 4% sobre o valor de cada contrato, mas só quando está produzindo”.

A remuneração chega ao bolso do profissional quase integralmente. A fatia que fica na cooperativa (que pode chegar a 15%) se destina aos custos de funcionamento — equipamentos, secretária, motoboy, manutenção da sede — e aos fundos de reserva e de educação e assistência, obrigatórios por lei. O dinheiro é gerenciado por diretores, necessariamente cooperados. Eles recebem salário fixo e têm a opção de, além de captar serviços para a cooperativa, engajar-se em projetos próprios. Cada profissional associado, no entanto, precisa fazer um exercício constante de avaliação de seu desempenho. “Você é o seu patrão literalmente”, diz Guilherme Monteiro da Costa, sócio-fundador da Uniway, cooperativa de informática, do Rio de Janeiro. “O trabalho é autônomo, mas a imagem que deve ficar no contratante é a do coletivo. Por isso, a responsabilidade de estar atualizado aumenta.” É fundamental também aprender a controlar a agenda e a gerir as finanças e o futuro. Há ainda o fator convivência em grupo: disposição para ouvir e para seguir a opinião da maioria. Conciliar visões diferentes é a pedra no caminho do cooperativismo — e, ao mesmo tempo, seu grande mérito. Em tempo: o sistema brasileiro foi considerado modelo para o mundo na última reunião da Aliança Cooperativa Internacional, realizada em Seul, em outubro do ano passado.