Temos espaço para crescer no Brasil, diz diretora do Twitter

Os números não a deixam mentir: nos meses entre outubro e dezembro, o Twitter cresceu 18% em número de usuários mensalmente ativos no Brasil

Há um mês e meio no comando do Twitter no Brasil, a diretora-geral Fiamma Zarife, 45 anos, acredita que a rede social de interesses ainda tem bastante espaço para crescer por aqui.

“Apesar do crescimento nos últimos anos, ainda temos taxas menores de penetração de smartphones e de redes móveis velozes no País. Ainda somos 100 milhões de brasileiros conectados à internet”, diz a executiva, em sua primeira entrevista no novo cargo ao jornal “O Estado de S. Paulo” – antes, Fiamma ocupou o cargo de diretora de agências no Twitter por um ano e sete meses.

Os números não a deixam mentir: nos meses entre outubro e dezembro, o Twitter cresceu 18% em número de usuários mensalmente ativos no Brasil.

O crescimento global do Twitter, no mesmo período, foi de apenas 4%, chegando a 319 milhões de pessoas em todo o mundo – a empresa não revela a quantidade de contas ativas no País em absoluto.

O faturamento recente do Twitter no País é outro destaque, em crescimento de 30% no ano passado, na comparação com 2015.

O momento, porém, é delicado para a empresa no cenário global: desde que o cofundador Jack Dorsey reassumiu o comando do Twitter, em outubro de 2015, a plataforma passou por várias mudanças, teve dois cortes globais de funcionários e perdeu executivos-chave – o cargo de diretor de produto, um dos mais importantes da empresa, teve três ocupantes no último ano.

As mudanças, porém, surtiram pouco efeito no número de usuários mensalmente ativos – apenas 12 milhões se juntaram à plataforma desde a volta de Dorsey.

Além disso, rumores de uma possível venda da empresa rondaram a companhia no final de 2016. Questionada sobre o assunto, Fiamma desconversa. “Estamos focados em simplificar e refinar o produto.”

Na nova função, uma das missões de Fiamma é auxiliar o Twitter a seguir em frente com uma de suas principais apostas: a área de vídeos ao vivo, na qual a empresa têm investido pesado.

Entre as transmissões, estão partidas da liga de futebol norte-americano NFL e os debates da eleição norte-americana.

“Competimos pelo tempo das pessoas, mas o Twitter é o lugar para saber sobre seus interesses. Você não pensa nos seus amigos quando entra no Twitter”, diz a executiva, diferenciando a plataforma de rivais como Facebook e Snapchat, por exemplo.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

– O Twitter cresceu 18% no Brasil no último trimestre, mas só 4% no cenário global. Por quê?

Estamos aqui há quatro anos. Nosso relacionamento com o brasileiro mudou, isso ajuda bastante. Mas o nosso mercado ainda é menos maduro do que outros: somos só 100 milhões de usuários de internet, ainda estamos vendo o crescimento da penetração de smartphones e redes móveis na população.

É tudo uma combinação: não dá para falar em vídeo ao vivo sem ter 3G. Temos espaço para crescer no Brasil.

– O Twitter tem se esforçado bastante na área de vídeo, especialmente ao vivo. É um setor onde acontece uma guerra nas redes sociais – vocês não estão sozinhos. Como o Twitter enxerga essa disputa?

Temos um elemento diferente da maioria das plataformas, porque somos uma rede de conversas. Não temos só a transmissão: temos também todos os pontos de vista. E temos algo além das transmissões ao vivo, pois nós também fazemos parcerias com as TVs pela segunda tela. Sinto que nós recuperamos aquela coisa de antigamente, de assistir TV junto com outras pessoas. Eu vivi essa época, a família reunida na sala.

Hoje, você não está com as pessoas no mesmo lugar, mas todas elas estão no Twitter. No total, 70% dos nossos usuários assistem à TV com o Twitter do lado. Se a TV mostra uma hashtag, pode ter certeza que a conversa continua na internet.

– O Twitter mostrou a posse do Trump. Em outro aplicativo ou na janela ao lado, há um amigo ou parente fazendo um vídeo. Como competir com isso?

A gente concorre pelo tempo das pessoas. O tempo é uma das mercadorias mais valiosas hoje em dia. No caso do Twitter, somos uma rede de interesses: aqui, as pessoas buscam o conteúdo pelo qual elas se interessam. Quando você entra no Twitter, você não pensa nos seus amigos; para pensar neles, você está pensando em outras redes.

– De que forma as mudanças que o Jack Dorsey implementou são sentidas no Brasil?

Temos uma liderança muito forte para simplificar e refinar nosso produto, para ter uma execução disciplinada. No Brasil, essas mudanças recentes tiveram mais sucesso. O Moments [ferramenta do Twitter que oferece curadoria editorial sobre os principais temas do momento] é um desses casos: ele conseguiu se tornar uma porta de entrada amigável para o novo usuário. É um processo.

-Percebo no Twitter um público forte de adolescentes. Como reter esses usuários jovens na plataforma?

O adolescente entra no Twitter porque está interessado em celebridades – o atleta, o artista. Minha filha entra no Twitter para saber o que a Kéfera está fazendo agora, a loja que ela vai. As celebridades também estão em outras plataformas, mas o Twitter tem esse apelo com o tempo real. Se quiser pesquisar sobre o passado, os jovens vão para outro lugar da internet.

– Nos últimos meses, circularam rumores sobre uma possível venda da empresa. Isso afeta a operação brasileira?

Aqui e ao redor do mundo, adotamos a estratégia de simplificar e refinar o produto. Desde que entrei no Twitter, o que vemos hoje é que os usuários entendem bem o que é o Twitter. Nunca fomos mais relevantes do que somos hoje.