Subsídio setorial é um “câncer” no Brasil, diz Pipponzi, da Raia Drogasil

Para Antônio Carlos Pipponzi, presidente do conselho da RD e presidente do IDV, empresários precisam olhar mais para o ambiente de negócios.

Presidente do conselho de administração da rede de farmácias RD (Raia Drogasil), o empresário Antônio Carlos Pipponzi, 66, está acostumado a viajar pelo Brasil para visitar novas lojas da companhia, que fechou 2018 com 1.825 unidades. Recentemente, porém, Brasília tem sido um destino mais frequente para o empresário.

Desde 2017, Pipponzi acumula suas funções na RD com a presidência do IDV (Instituto de Desenvolvimento do Varejo). O instituto reúne gigantes do setor como Magazine Luiza, Lojas Renner, O Boticário e Carrefour; no total são 70 associadas. À frente da entidade, o empresário tem buscado se aproximar do governo e das discussões econômicas com potencial para melhorar o ambiente de negócios no Brasil.

A principal delas é a Reforma da Previdência, ameaçada após os recentes embates entre o presidente da República Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM). “Não dá para ser uma reforma meia boca”, diz Pipponzi. Outros pontos são a legislação trabalhista e a simplificação tributária.

Mas o IDV também tem uma bandeira voltada ao empresariado e que, na visão de Pipponzi, será seu principal legado como presidente da entidade. “O empresário tem que pensar no ambiente de negócio do país. Eu critico muito grande parte das instituições, confederações, sindicatos. Estão todos muito voltados para a defesa do varejo ou da indústria, e ninguém pensa no todo”, disse em entrevista a EXAME.

Na visão de Pipponzi, a busca por benefícios setoriais precisa acabar. “Isso é um câncer. É fruto de legislações completamente tortas. Temos um sistema tributário que foi agregando uma série de benesses que geram desequilíbrio. E isso vira uma coisa sem fim. Você tem desequilíbrio porque tem subsídios ou tem subsídios porque tem desequilíbrios?”, questiona.

O mandato de Pipponzi à frente do IDV termina em maio. Com isso, ele continuará sua atuação na RD. A companhia comprou a concorrente Onofre no final de fevereiro e já admite que deve fechar lojas após a aquisição. Segundo Pipponzi, o mercado de farmácias está saturado e é preciso estratégia para continuar a crescer. “Minha sensação é que o mercado supersaturou, o número de abertura de farmácias foi um recorde absoluto em 2017. Acho que as pessoas já viram que o buraco é mais embaixo”, afirma. A RD pretende abrir 240 lojas em 2019, mesmo número de aberturas em 2018. “Temos um modelo robusto e damos resultado em todos os mercados onde atuamos”, diz Pipponzi.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

EXAME – O senhor vai deixar a presidência do IDV. O que foi feito nesses dois anos?

Antônio Carlos Pipponzi – Revisitamos os valores do IDV, e dentro disso chegamos a um ponto importante: temos clareza de que não adianta fazer brigas simplesmente pelo setor, ficar procurando benefícios para o setor isoladamente. Isso não vai mudar o ambiente de negócios, não vamos ter um país melhor e consequentemente não vamos ter um varejo melhor. Esse foi o ponto mais importante. A partir daí atuamos em algumas frentes, como a modernização das leis trabalhistas, aumento da concorrência no setor bancário e a questão tributária.

Como vê a questão dos subsídios? Recentemente o governador de São Paulo, João Doria, anunciou benefícios para montadoras, por exemplo.

Isso é um câncer. É fruto de legislações completamente tortas. Temos um sistema tributário que foi agregando uma série de benesses que geram desequilíbrio. E isso vira uma coisa sem fim. Você tem desequilíbrio porque tem subsídios, ou tem subsídios porque tem desequilíbrios? A gente quer entrar em Manaus, por exemplo, e até agora eu não entendi como funciona o sistema tributário lá, se vou ter desvantagem ou não. A minha única preocupação quando entro em um estado com a RD é não competir em desvantagem. E muitas vezes tem desvantagem. No Rio Grande do Norte e no Piauí, por exemplo, a gente tem sete pontos de desvantagem em relação às empresas que têm um centro de distribuição naqueles estados. Em um negócio que tem 7% de margem, fica impossível competir, estamos nesses estados simplesmente pagando as contas. Eu não critico muito o fato de se conceder subsídios, embora não seja essa a prática que eu defendo. É importante a mudança do sistema como um todo, porque hoje temos desequilíbrios tão grandes que forçam os governantes a concederem subsídios.

Qual deve ser o papel do empresariado nesse contexto?

O empresariado tem que pensar no ambiente de negócio do país. Por exemplo: estamos preocupados com a reforma da previdência, que é fundamental para restabelecer o nível de confiança no país, que é fundamental para o investimento, que é fundamental para a geração de emprego. O olhar tem que ser não de defesa dos seus interesses. Eu critico muito grande parte das instituições, confederações, sindicatos. Estão todos muito voltados para a defesa do nós do varejo, nós da indústria, e ninguém pensa no ambiente de negócio como um todo. Depois de 42 anos de vida empresarial, tenho certeza absoluta que, se você não olhar a floresta e ficar olhando só para a árvore, não vai resolver nada.

Seria uma postura diferente da adotada por entidades como a Fiesp, por exemplo?

Sim. Se tenho algum motivo para estar aqui é exatamente o fato de acreditar que poderia deixar uma semente diferente do ponto de vista da atuação empresarial. Como presidente do conselho de uma empresa, uma das minhas principais funções é o equilíbrio do curto e do longo prazo, gerenciar resultado versus geração de valor. Isso vale para o IDV também: olhar as condições para termos um varejo saudável, com condições de competitividade, mas nunca deixar de olhar a questão do ambiente de negócios. Acho que é isso que temos que exercitar nas entidades empresariais.

Qual a expectativa em relação à aprovação da Reforma da Previdência?

A Reforma da Previdência é o ponto de partida para tudo. Acredito que teremos uma reforma. A discussão toda é quanto ela vai ser modificada em relação ao projeto que está aí. Não acredito que haja uma falta tão grande de bom senso que para que não haja nenhum tipo de reforma da previdência. Mas com um sistema político fragilizado, o Congresso operando mais através de bancadas… Por mais que os partidos no Brasil não tenham ideologias claras, quando se fala de bancada é pior ainda. Quando fala da bancada da bala por exemplo: como é que cada um pensa com relação à previdência? Fica muito difícil prever. Estamos torcendo, participando. Ela tem que ser uma reforma de impacto, não dá para ser meia boca.

Qual a sua avaliação do início do governo Bolsonaro?

O que temos clareza é que o governo montou um time econômico excepcional, e muito alinhado. Isso foi muito positivo e gerou uma expectativa grande do empresariado. O que acontece hoje é que todas as forças estão voltadas para a Reforma da Previdência. Temos sido convidados a levar propostas nossas para destravar a economia do país, limpar da frente obstáculos sem sentido, indesejáveis. Mas esse processo só vai ganhar força na medida em que conseguir votar a previdência.

Outra discussão na qual vocês têm participado é a da Reforma Trabalhista, que terá pontos julgados no STF (Superior Tribunal Federal). Qual sua avaliação sobre esse tema?

Um tema muito importante é o do trabalho intermitente, que está inserido na Reforma Trabalhista e será discutido no STF. Procuramos nos aproximar dos ministros para fazer um convencimento. Nossa questão é mostrar que o trabalho intermitente já existe. Se você vai a um restaurante aos domingos, tem 20 garçons. No dia útil são cinco garçons. Se você me disser que esses 15 garçons estão registrados na semana toda, eu te digo que esse restaurante vai quebrar. O horário que o varejo faz não é o que o empresário quer fazer. É o horário que o cliente quer. E o horário que o cliente quer não é o mesmo da época da criação da CLT por Getúlio Vargas. Para o varejo esse tema é fundamental, e para o país também. Para o estudante, o aposentado, a dona de casa é importante ter a possibilidade de jornadas flexíveis.

Falando de RD. Vocês compraram a Onofre há pouco tempo. O que espera dessa aquisição?

A Onofre tem uma relevância grande especialmente em São Paulo na classe A B, sempre se destacou por ter bons pontos comerciais. Tem algumas sobreposições com a RD, sim, e com certeza fecharemos lojas. É uma estratégia opcional para aumentar a rentabilidade do negócio. E eles têm algumas expertises interessantes: uma é o fato de terem sido uma das primeiras redes a abraçar uma linha mais sofisticada de perfumaria, com uma loja mais inspiracional. Podemos ter algum aprendizado a tirar daí. Outro tema é o comércio virtual. A Onofre sempre foi forte nesse segmento. A gente passa por um momento na RD em que, depois de ter construído uma rede muito robusta, o tema da transformação digital é muito importante.

Acredita que há farmácias demais no mercado brasileiro?

O que tenho visto é que existem redes que eram pequenas e estão alavancadas, ou redes novas entrando no mercado, e com isso o mercado fica mais competitivo. Olho esse cenário com certa desconfiança, vejo números de balanço de outras redes bastante apertados. Minha sensação é que o mercado supersaturou, o número de abertura de farmácias foi um recorde absoluto em 2017. Acho que as pessoas já viram que o buraco é mais embaixo. De repente todo mundo despejou um monte de farmácias no mercado, mas e aí? Como foram os resultados? O quanto isso está aumentando o endividamento? Os números mostram uma desaceleração de quem começou a acelerar.

Mas essa avaliação vale para a própria RD?

Nesse negócio, marca é muito importante, a oferta de valor está muito calcada na qualidade do atendimento, na confiança, e esse é um diferencial da RD. Hoje temos 45% das lojas em São Paulo e 55% fora de São Paulo, e temos resultados homogêneos em todos os mercados. A RD seguiu seu crescimento com consistência, com oferta de valor em todos os lugares. Nosso maior ativo hoje é uma marca que podemos expandir para todo o país.