Sonho de Marchionne com Alfa Romeo depende da Chrysler

Ainda jovem, o atual CEO da Fiat se apaixonou pela fabricante do conversível Spider Duetto; hoje, ele quer devolver à marca em dificuldades sua antiga glória

Milão – Desde que Sergio Marchionne assistiu “A primeira noite de um homem” às escondidas, por ser um jovem menor de idade nos anos 60, ele tem uma queda pela Alfa Romeo, a fabricante do Spider Duetto conversível que o personagem de Dustin Hoffman dirigiu no filme.

Quatro décadas depois, Marchionne é o CEO da Fiat SpA, a empresa-mãe da Alfa Romeo, e quer devolver à marca em dificuldades sua antiga glória. Para isso, ele precisa do dinheiro da Chrysler Group LLC, controlada pela Fiat.

O problema é que ele não encontrou a maneira de fazê-lo, pois o fideicomisso sindical que possui as ações restantes na empresa insiste em pedir pelo menos US$ 1 bilhão a mais do que o CEO deseja pagar.

Liberar US$ 12 bilhões do cofre da Chrysler significa mais que apenas renovar a Alfa Romeo e concretizar os sonhos de um “jovem bobo”, como Marchionne, 61, chamou sua versão adolescente no Canadá.

A capacidade da Fiat para se recuperar de perdas na Europa depende da combinação com a Chrysler e do acesso aos recursos da empresa americana para financiar novos veículos há muito adiados e interromper um ciclo negativo em sua região natal.

“Marchionne está enfrentando o momento mais difícil desde que a Fiat assumiu o controle da Chrysler”, disse Giuseppe Berta, professor da Universidade Bocconi em Milão. “Ele está correndo para concluir a fusão o quanto antes para investir em novos modelos na Europa”.


Adiamento na produção

A Alfa Romeo tem sido há muito a base da estratégia de Marchionne para a Fiat. O plano é transformar a fabricante de carros italiana de 103 anos de antiguidade, que atualmente vende apenas dois hatchbacks e um pequeno carro esportivo, em uma marca global de alto padrão para derivar lucros de forma similar ao que a Audi faz para a Volkswagen.

A Fiat provavelmente adiará dois novos modelos Alfa Romeo que foram planejados para o período entre o ano que vem e 2015, segundo duas fontes familiares ao assunto, que pediram para não serem identificadas porque o tema é privado.

A fabricante de carros italiana pode concluir até o primeiro trimestre de 2014 os planos para construção de novos Alfa Romeos na fábrica Cassino, no sul da Itália, disseram as fontes. Um representante da Fiat preferiu não comentar.

‘Faz mal’

“Marchionne faz as coisas bem na Chrysler e mal na Fiat”, disse o presidente da Volkswagen AG, Ferdinand Piech, à Bloomberg News, durante um evento em Viena, neste mês. Com base em seu desempenho, a Fiat “não é capaz de sobreviver” por si só, disse o executivo, que discutiu publicamente com Marchionne e expressou interesse em assumir o controle da Alfa Romeo no passado. A Fiat preferiu não comentar as declarações de Piech.

As dificuldades da fabricante de carros na Europa atingiram os planos para a Alfa Romeo. No ano passado, Marchionne reduziu em 40 por cento a meta de vendas a médio prazo da marca. A Fiat agora prevê a venda de 300 mil carros Alfa Romeo até 2016, contra uma previsão de 2010 de 500 mil carros até 2014.


“Se Marchionne realmente quiser relançar a Alfa Romeo, ele precisa do dinheiro da Chrysler”, disse Berta, da Bocconi, ex-diretor dos arquivos da Fiat. “A fabricante tem que investir bilhões de euros na marca, como a VW fez com a Audi”.

Novo conversível

Ainda assim, a Alfa Romeo não está totalmente paralisada. A marca começou a receber pedidos para o carro esportivo 4C, que chegará às lojas dos EUA até abril do ano que vem, como parte de um plano para voltar à América do Norte após uma ausência de quase 20 anos.

A Alfa Romeo também fabricará uma versão moderna do conversível que o rebelde personagem de Dustin Hoffman dirigiu no filme de 1967.

O carro será construído em cooperação com a Mazda Motor Corp. e chegará às concessionárias em 2015. O CEO da Alfa Romeo, Harald Wester, vê motivo para otimismo.

“Eu só posso te dizer que espero que a demanda pelo 4C exceda a produção planejada”, disse Wester, que também está a cargo do plano da Maserati para impulsionar as vendas em oito vezes até 2015, nesta semana, em Milão. Ele preferiu não fornecer mais detalhes dos planos da marca.