Sócrates corporativo

Você já pensou em se tornar um filósofo? Pois esse pode ser o perfil de profissional de que a sua empresa realmente necessita

Filosofar é um verbo que as empresas modernas praticamente desconhecem. No mundo competitivo em que vivemos, a ação tem sido muito mais valorizada do que a reflexão. Raros são os líderes que reservam uma parte do seu tempo, por menor que seja, para refletir e avaliar melhor o universo à sua volta. A pressão por resultados dita o ritmo do dia-a-dia e o dos negócios. Diante dessa realidade, como seria colocar um filósofo no comando de uma organização? Para o consultor Abraham Chachamovits, essa é a única saída para as empresas que desejam ter uma vida financeira saudável por muito tempo. Segundo ele, o filósofo é aquele profissional capaz de fazer as pessoas terem uma compreensão mais elevada do mundo. Trata-se, acima de tudo, de alguém com formação humanista. “O objetivo do filósofo é conseguir fazer com que a pessoa transcenda seus limites”, diz. Chachamovits é engenheiro da computação, mestre em composição e regência, filósofo e pós-graduado em lógica e inteligência artificial. Foi vice-presidente de tecnologia da informação da Nextel Internacional e diretor de tecnologia e arquitetura da BCP. Mesmo sendo um profundo conhecedor do pensamento lógico, é ao mesmo tempo um homem de profundas cr enças espirituais. E é nessa união de opostos, entre a lógica e a fé, que ele acredita estar o equilíbrio do homem. Chachamovits é brasileiro naturalizado americano e passou 18 anos trabalhando na Europa e nos Estados Unidos. Voltou há três anos para o país, convicto de que o universo corporativo precisa mudar. Ou melhor: transformar-se em algo novo, onde o bem-estar das pessoas seja o objetivo maior. “Só o filósofo poderá ajudar a constituir uma empresa de sucesso e de resultados mais duradouros”, afirma. Chachamovits é autor do livro The Superior Below and the Inferior Above. Publicado em inglês, o livro não tem versão em português. “Eu raciocino e escrevo em inglês”, diz. A seguir, trechos da entrevista concedida a VOCÊ s.a.:62VOCÊ s.a. _ novembro 2001Chachamovits:
“As empresas devem buscar profissionais sensíveis e que tenham um sentido de ética desenvolvido”

Quem é esse filósofo que você tanto defende dentro das empresas?
Quando falo em filósofo, não estou fazendo alusão a alguém que tenha necessariamente formação acadêmica em filosofia. Refiro-me, isso sim, à pessoa que não está totalmente presa às questões mundanas de uma organização, como a produção e o lucro. Defendo a tese de que os líderes devem ter uma formação mais humanista, pois, quanto mais completo for o ser humano, maior a chance de ele liderar as pessoas com sucesso. Nos momentos em que liderei equipes, por exemplo, meu maior prazer era mostrar às pessoas que elas eram sempre capazes de alcançar feitos maiores. O filósofo almeja fazer com que a pessoa transcenda seus limites, e não apenas gere bons resultados financeiros para a empresa. Qualquer líder que não fizer isso estará agindo somente por interesse próprio. O filósofo age sempre pensando no crescimento do grupo.

Onde as empresas podem buscar esses filósofos?
Elas devem buscar profissionais sensíveis e que tenham um sentido de ética desenvolvido. Estamos falando, portanto, de pessoas de bem, que possuem boas intenções. Todo o resto procederá daí. O verdadeiro filósofo comanda sua equipe para que ela tenha uma compreensão mais elevada do mundo. Jamais ele liderará para fins próprios. Isso não é tudo. O filósofo deve ser uma pessoa corajosa, pois terá de enfrentar muitos obstáculos. Na física, sabemos que a luz de uma lâmpada é resultado da passagem da energia pela resistência, que liga os dois pólos. O mal nos dá essa mesma possibilidade. Ele funciona como uma resistência e, ao superá-lo, produzimos luz. É ele que nos motiva. O líder deve ter consciência de que só terá resultados positivos se for um questionador. O questionamento e a reflexão vão fazer com que ele verifique a verdade das coisas — e não só as impressões.

Acredito que não deva ser fácil encontrar profissionais com esse perfil. A que você atribui a escassez de pessoas com essa formação mais humanista?
Não, não é fácil encontrá-los. E a razão é simples: o homem aprendeu ao longo de sua história a viver uma vida sensorial. Só conhece aquilo que toca, sente, vê, escuta. As empresas, por sua vez, querem resultados que nem sempre são possíveis de ser atingidos. Há muita pressão. Isso tudo contribui para a formação do profissional da forma como está aí. O homem, no entanto, precisa ser mais refinado e descobrir que pode transcender todas as coisas com sua mente. Com isso, ele começará a enxergar as partes, que antes eram isoladas, como sendo um todo. Empresas que seguem a linha filosófica tornam-se entidades que unificam essa cultura. O filósofo pode ajudar a constituir uma empresa de sucesso e de resultados mais duradouros. Essa companhia certamente valorizará mais seus recursos humanos e se esforçará intensamente para que as pessoas tenham um equilíbrio maior entre as vidas profissional e pessoal. Jamais será uma organização efêmera como muitas que existem por aí.

Você diria que é possível uma empresa contar apenas com filósofos em sua equipe?
Eu não penso dessa forma. Consigo, isso sim, imaginar uma empresa onde todos tenham os mesmos valores, ou seja, que sejam transparentes, honestos, íntegros, que não façam fuxicos nem falem mal dos colegas. Todos nós temos funções diferentes. A empresa ideal é aquela que tem um pouco de tudo, desde que sua direção seja única: correta e ética. Qualquer organização só é completa quando há a representação das essências básicas da humanidade. Sempre vai ter o chato, o brincalhão, o filósofo, o líder, o arrogante, o humilde. Tem de existir, é a lei da identidade. É assim que se forma um corpo coeso, e cabe a todos nós favorecê-lo. Curiosamente, as empresas têm valorizado todos os aspectos do corpo, com exceção de um: a mente. Eu diria que aqueles que enxergam essa necessidade têm a obrigação moral de fazer tudo o que for possível para tirar seus colegas de uma posição que só traz escuridão para a empresa.

Você costuma dizer que as pessoas precisam desenvolver sua espiritualidade. Como isso pode ajudar um profissional no seu dia-a-dia no escritório?
O homem espiritual acredita pela fé que Deus existe. E, ao aceitar essa existência, ele se sente menor do que se Deus não existisse. Quem é temente a Deus toma cuidado com suas ações e não faz nada desonesto mesmo estando entre as quatro paredes do seu escritório e com a porta fechada. A beleza da espiritualidade é que ela nos ajuda a separar o bem do mal. Nossas ações passam a ser compatíveis com aquilo em que realmente acreditamos e temos convicção. Se eu desejo bem a você, jamais irei feri-lo. Você procura tratar o outro com respeito e, com isso, torna-se um cidadão mais refinado. A pessoa espiritual reconhece que precisa tornar o seu ser mais nobre sem esquecer, por outro lado, o sustento de sua família e de ajudar a sua comunidade. Você não pode viver dentro de uma matéria ignorando o espírito nem ter um espírito ignorando o corpo. É preciso viver de maneira equilibrada.

A hierarquia rígida que existe em inúmeras empresas é também responsável pelo comportamento nada humanístico de seus líderes?
Quando uma empresa tem como seu valor máximo o dinheiro, ela é estruturada de forma hierárquica para atingir esse objetivo. Quanto mais perto do dinheiro o indivíduo estiver, maior a responsabilidade e o poder. Isso vai se propagando para os outros níveis da organização, atingindo até as pessoas que estão mais distantes do centro do poder. Dessa forma, há maior dificuldade nos processos de transição entre os vários níveis da hierarquia. Se você é meu chefe, mesmo que não esteja nessa posição por mérito e capacidade, sou obrigado a respeitar suas determinações. Quando o subordinado é mais capaz do que seu chefe, o superior torna-se um limitador. Você não pode alcançar os níveis mais altos da hierarquia porque ele está criando um obstáculo. Para vencê-lo, você precisa ter o desejo, o talento e a capacidade de superá-lo. As relações ficam tensas. Está na natureza daquele que cria obstáculos impedir a sua ascensão. E está na natureza daquele que é sufocado superá-lo sempre.

Você está dizendo, na verdade, que o modelo ideal de hierarquia é aquele que respeita o mérito e a capacidade individual?
Exato. Em cada nível subseqüente da hierarquia deveria existir, proporcionalmente, o mérito. Se eu estou num nível mais elevado numa determinada estrutura, teoricamente deveria ter mais capacidade, preparo e habilidade do que aqueles que estão abaixo de mim. O mesmo princípio vale para aqueles que ocupam posições acima da minha. Infelizmente não é assim que o mundo funciona. No nível microscópico da empresa, há pessoas que assumem cargos de comando por causa apenas das circunstâncias. E elas não têm preparo filosófico, psicológico e espiritual para administrar o poder com humildade. Muitos chefes usam o poder para obstruir o desenvolvimento das pessoas e favorecer seus interesses pessoais. Se você é uma pessoa de princípios, valores, refinamento e tem méritos, não se dará bem nessa estrutura na qual a empresa foi moldada.

Por que você diz que a maioria dos chefes são pessoas egotistas?
Vi muitas vezes funcionários descobrirem a solução que a empresa tanto buscava para seus problemas e o chefe ficar irado por não ter sido ele o pai da idéia. O líder que age dessa forma comete dois crimes. O primeiro é prejudicar a empresa para a qual trabalha (e que paga seu salário) para tentar se favorecer e permanecer no cargo. Trata-se de uma pessoa que vive apenas para suprir as próprias necessidades. O egotista não é humilde e a simples existência das pessoas representa uma ameaça. Ele não consegue tolerar o brilho dos colegas de trabalho. Um comportamento bastante característico desse tipo de pessoa é a dissimulação. Chega a um ponto em que ela passa 50% do tempo dissimulando e os outros 50% não dissimulando. E, se isso é verdade, ela dissimula o tempo todo. Não dá para saber quem é verdadeiramente essa pessoa. O segundo crime a que me refiro é esse chefe não permitir que as pessoas descubram que alguém abaixo dele trouxe a luz, a solução do problema. Ele acredita que o brilho do subordinado será a sua escuridão. Eu repito: esse tipo de líder é um criminoso.

Mas, se essas pessoas estão em cargos de comando, não seria porque elas têm algum mérito?
Elas geralmente possuem mérito técnico. O problema é que isso não revela a sua qualidade de ser humano como um todo, mas apenas uma parte dela. Os líderes devem ter a capacidade de compreender o mundo sob um ponto de vista holístico, o que daria a toda a equipe uma noção de conjunto. Esse é o grande problema do chefe que é apenas um excelente técnico: na maioria das vezes, ele não tem a noção de conjunto. Os empreendedores geralmente acreditam que é fácil montar uma empresa: basta conseguir um investidor para colocar a grana no negócio que o resto acontecerá naturalmente. É um erro grave. O empreendedor monta então o organograma, que nada mais é do que um mapa pragmático formado por líderes despreparados e que trará muita dor e pouco lucro. É claro que há empresas organizadas dessa forma que faturam bilhões. Mas eu digo que elas estão, na verdade, conseguindo apenas uma fração do seu potencial de lucro. Se fossem estruturadas de acordo com o mérito e a capacidade de seus profissionais, certamente os resultados seriam infinitamente melhores.

Que futuro você prevê para as organizações?
Estamos vivenciando o último estágio da organização com modelo hierárquico. Ela tentará resistir, mas não conseguirá se manter. O modelo organizacional do futuro será o da colaboração. E ele emergirá naturalmente. Sempre procurei acabar com a hierarquia nas empresas por onde passei. Fazia isso reconhecendo o mérito das pessoas. De acordo com a necessidade, agrupava o time de uma forma ou de outra. Em alguns momentos, eu liderava. Em outros, era liderado por subordinados que conheciam mais determinado trabalho do que eu. Que problema há nisso? O líder não pode dizer que é o mais importante do grupo, pois ele não sobreviveria sem as outras pessoas. Liderar é apenas mais uma função entre as várias existentes dentro de um time. Quem conseguir enxergar essa realidade terá nas mãos uma equipe borbulhante, feliz, extremamente focada em resultados, com desejo de trabalhar. E é nessas condições que uma empresa vai longe.