Seria irresponsabilidade manter a Fnac, diz presidente da Livraria Cultura

Sérgio Herz, que comprou operação da Fnac em 2017, diz que marca ficou inviável inclusive na internet e vai aproveitar base de clientes.

São Paulo – A Livraria Cultura fechou na semana passada a última loja da rede de livrarias Fnac no Brasil, e encerrou as vendas no site da marca francesa. Segundo o presidente da Cultura, Sérgio Herz, a manutenção das lojas tornou-se inviável.

A operação da Fnac foi comprada pela Cultura em julho do ano passado. A companhia brasileira recebeu 130 milhões de reais para assumir a rede francesa no Brasil, que acumulava prejuízos e estava comprometendo os resultados globais da Fnac Darty, companhia de capital aberto e dona da marca.

A Fnac Darty chegou a dizer em relatório que a Cultura tinha “um ambicioso plano para a Fnac” e iria “construir um nome forte, por meio de um combinação de dois grupos criando valor e sinergias”.

No entanto, com a crise do mercado, a manutenção das lojas seria uma “irresponsabilidade”, disse o presidente da Livraria Cultura a EXAME.

“Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos”, afirmou Herz por e-mail.

O empresário detalhou que, pelo acordo firmado na venda, a Cultura precisaria pagar royalties à rede francesa pelo uso da marca Fnac, mesmo com lojas deficitárias, o que também pesou na decisão de encerrar as operações.

“Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura”, disse.

A Fnac chegou ao Brasil nos anos 1990, e tinha 12 lojas em operação, todas com amplos espaços em pontos comerciais valorizados (e caros) – opção semelhante à da própria Livraria Cultura. A operação tinha necessidade de grande volume de capital de giro, já que, além dos livros, apostava na venda de eletrônicos.

A Fnac Darty reportou faturamento de 7,4 bilhões de euros em 2017, e lucro líquido ajustado de 54 milhões de euros. O Brasil representava menos de 2% do volume de vendas total da companhia.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Sérgio Herz, presidente da Livraria Cultura:

A Livraria Cultura fechou a última loja da Fnac no Brasil e também encerrou as operações do site. Quais os planos para a marca Fnac no Brasil? Há intenção de abrir novas lojas em outros locais no futuro?

Em 2017 compramos as posições da rede francesa no Brasil, algo que já vinha sendo discutido há muito tempo. Naquele momento, conseguimos fechar um negócio interessante: tivemos a possibilidade de ampliar bastante a nossa base de clientes e a nossa oferta de produtos. Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos. Seria uma irresponsabilidade minha tentar manter isso no meio de uma recessão como a que vivemos.

Além disso tudo, a marca não nos pertence, ou seja, pelo acordo firmado na venda, em breve teríamos que começar a pagar royalties por uma rede de baixo desempenho. Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura. Tomadas essas decisões, encerramos não só as lojas físicas, mas o site da Fnac.

O que o fim das lojas Fnac expõe sobre o mercado de livrarias no Brasil e como a Livraria Cultura tem lidado com esse cenário?

Estamos, todos nós, profissionais do setor, atravessando um momento difícil. Além dessa crise econômica profunda, cercada de incertezas e sem diretrizes claras, temos também a mudança de comportamento bem visível da parte do cliente, que está comprando cada vez mais pela internet. Há também as mudanças no varejo como um todo. Cada vez mais as pessoas estão indo para ambientes de compra digitais, essa é a verdade.

O preço do livro no Brasil está defasado há muitos anos. De 2014 até o fim de 2017, a inflação acumulada foi de aproximadamente 32%, enquanto o preço do livro subiu somente 7%. Como se vê, houve um aumento claro de custos e uma forte queda nas receitas. Enfim, a soma de todos esses fatores traz muita insegurança não apenas para as livrarias, mas para toda a cadeia de produção do livro. Estamos todos implicados e precisamos encontrar soluções sensatas, negociadas.

Quais os planos da companhia para as lojas físicas da Livraria Cultura?

Quero trabalhar com poucas, mas ótima lojas. Estamos, atualmente, com 15 pontos físicos na Livraria Cultura. Me parece um bom tamanho para o momento. Iremos transformar a antiga Fnac Goiânia numa nova Livraria Cultura, no primeiro semestre de 2019. Assim estamos nos preparando para ser uma rede mais enxuta, mais dinâmica, mais atraente para os clientes.

A Cultura inovou ao criar teatros em suas livrarias, estimulando eventos e temporadas de qualidade. Levamos gastronomia para nossas lojas. Em 2015, abrimos o estrelado restaurante Manioca na nossa loja do Shopping Iguatemi, na capital paulista. Recentemente, inauguramos um laboratório de criatividade e inovação, numa parceria com a Faber Castell, dentro da nossa loja do Shopping Market Place, também São Paulo. Iremos inaugurar em novembro mais um restaurante na loja do shopping Bourbon de São Paulo, no bairro da Pompéia.  Acreditamos nessa forma de atrair o cliente para o mundo físico, oferecendo a ele algo que é muito mais do que apenas passar pelo caixa e colocar um produto na sacola.

Nossos consumidores vão continuar a ter ótimos motivos para frequentar nossas lojas físicas: um acervo maravilhoso, um serviço ao cliente melhor ainda, uma programação cultural de alto nível, um ponto para um bom café ou um drink, uma mesa para uma refeição leve e transada, espaços divertidos para crianças, até porque leitores são formados desde pequeninos… enfim, estes são os nossos planos.

Quais os planos da Cultura para reforçar sua operação online?

Esperamos crescer em média 20% nos próximos anos. Estamos concentrando esforços para construir um site muito mais moderno, atraente, dinâmico, integrando operações com a Estante Virtual, que é o maior marketplace de livros usados da América Latina. A Estante Virtual, empresa hoje no nosso grupo, é o exemplo de que acreditamos muito no reuso de produtos e na economia compartilhada. Criamos um laboratório de inovação digital, o Eva Labs, sediado no Rio, dentro da Estante Virtual, cuja missão é exatamente a de construir novas soluções para os desafios do varejo na era do e-commerce. Nossos engenheiros estão trabalhando a todo vapor.

A Livraria Cultura tem atrasado pagamentos a editoras. Quais os planos da companhia para regularizar a situação?

Infelizmente, é verdade. Por sete décadas, a Livraria Cultura teve um histórico de honrar seus compromissos. Mas, ao navegar essa crise horrível, tivemos que atrasar pagamentos, sim. Tem sido uma situação muito dolorosa para a empresa, mas temos planos consistentes para  voltar à situação normal.

Ex-funcionários da Fnac fizeram um protesto e reclamam que não receberam multa rescisória. O que a empresa diz sobre isso?

Entendo e respeito o protesto, mas, como já disse, estamos no caminho da normalização de todos os nossos compromissos com fornecedores e, claro, ex-funcionários. Serão indenizados.

A Saraiva, também em crise, iniciou um processo de reestruturação operacional. A Cultura pensa em fazer o mesmo?

Já fizemos nossa reestruturação com a ajuda da consultoria Heartman House. Agora estamos trabalhando na estrutura de capital para normalizar nossas operações.

Qual foi o faturamento da Cultura em 2017 e previsão para 2018? Qual o tamanho da dívida da companhia? E números de lucro/prejuízo?

Não informamos esses números.

A Cultura recentemente comprou a Estante Virtual. Há intenção de fazer novas aquisições?

A compra da Estante foi estratégica, pois estávamos querendo muito entrar no mercado do livro usado. É uma empresa enxuta, opera como uma plataforma, portanto, com custo operacional muito baixo, e é rentável. No momento, não temos intenção de novas aquisições. A hora é de arrumar a casa para os nossos clientes.