Sem rodeio

Tecnologia, produtividade, gestão moderna. A Agrishow, terceira maior feira do setor no mundo, mostra como o campo mudou no Brasil

Megaeventos no interior de São Paulo, daqueles capazes de engarrafar a estrada, costumam ter rodeios emocionantes, apresentações de novas e velhas duplas sertanejas e um inevitável clima de paquera, impulsionado por generosas quantidades de chope. Realizada entre 29 de abril e 4 de maio, a Agrishow de Ribeirão Preto não tem nada disso. E nem precisa. O evento é a maior feira de tecnologia agrícola do país e a terceira maior do mundo. Os milhares de visitantes que circulavam pelos estandes dos 450 expositores inscritos, dos quais 55 empresas estrangeiras, não foram lá para ouvir o bordão “seguuuura, peão”, comum nas arenas, mas para conhecer e adquirir o que há de mais moderno em tratores, colheitadeiras, sementes, fertilizantes, serviços, enfim, tudo que envolve a cadeia produtiva do agronegócio. Com 135 000 visitantes, a feira teve um movimento de negócios estimado em 1 bilhão de reais.

Montada numa fazenda à beira da moderna rodovia que contorna Ribeirão Preto, a Agrishow é um retrato da ampla modernização pela qual passa o agronegócio no Brasil. Nos últimos 12 anos, a produção de grãos no país cresceu de 58 milhões de toneladas para a casa de 100 milhões. No mesmo período, houve o formidável ganho de produtividade de 67%, pois a área plantada praticamente não aumentou. “Isso é resultado, sobretudo, do fato de a agricultura brasileira ter se voltado para o mercado internacional”, afirma o economista Fábio Silveira, da consultoria paulista MB Associados. “Se antes os agricultores viviam para o mercado doméstico, com o auxílio de subsídios federais, agora precisam fazer frente aos padrões mundiais de qualidade e de prazo de entrega.”

O campo representa uma tremenda força da economia brasileira. Segundo a Confederação Nacional da Agricultura, o PIB da agropecuária alcançou 95 bilhões de reais no ano passado. O agronegócio, uma cadeia mais ampla que considera também a produção industrial baseada nas atividades agrárias, somou 341 bilhões, ou seja, um terço do PIB total do país. Com um saldo positivo de 19 bilhões de dólares em 2001, a balança comercial do setor evitou que o país fechasse com déficit as contas do comércio externo. “Esse lado do Brasil está trabalhando feito louco”, diz Sérgio Magalhães, presidente da Agrishow. “Hoje, com a tendência de queda dos preços das commodities, o agricultor está consciente de que necessita de produtividade.” Os avanços obtidos são fruto dos crescentes investimentos no campo. O volume de fertilizantes vendidos no país, por exemplo, dobrou entre 1990 e 2001. Para os fabricantes de máquinas agrícolas, houve um novo impulso (veja gráficos ao lado) em fevereiro de 2000, quando o governo federal lançou o Moderfrota, uma linha de crédito para modernização da frota nacional com juros fixos de no máximo 10,75% ao ano.

Pelas ruas de terra da Agrishow, sob um sol forte, circularam nos seis dias de feira personagens envolvidos de diferentes formas com essa mudança. Pequenos e médios produtores andavam lado a lado com a nata do empresariado rural em busca das novidades tecnológicas. Políticos de todas as esferas, como os candidatos à Presidência da República José Serra e Luiz Inácio Lula da Silva, bateram ponto, assim como o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, governadores, secretários de Estado, prefeitos e deputados. Havia também figuras curiosas, como a russa Olga Sakharova, dona da Agrotehkomplekt, fabricante e distribuidora de máquinas agrícolas, de São Petersburgo. Incansável, a empresária, monoglota, apertava as teclas de seu tradutor eletrônico russo-inglês da marca Brilliant 2000 na tentativa de explicar aos expositores o que pretendia. “Pelo que entendi, ela estava interessada em tratores pequenos”, disse, exausto, um engenheiro de uma grande multinacional depois de 20 minutos tentando compreender o recado de Olga.

Nessa que foi a nona edição do evento, os fabricantes de máquinas agrícolas lançaram mais de 30 modelos, alguns deles integrados a sofisticados sistemas de informática e de navegação por satélite. Na área da pecuária, foi apresentada a raça de gado Senepol, que tem sua origem nas Ilhas Virgens, no Caribe, e é própria para climas tropicais. Na piscicultura, uma empresa paranaense trouxe ao país uma nova variedade de tilápia — espécie considerada o “frango” dos peixes, graças à rapidez de crescimento e à alta taxa de conversão de ração em carne. Desenvolvida na Noruega, essa variedade teve seu DNA descrito e selecionado e promete ganhos inéditos de produtividade (leia quadro na pág. 200).

As novidades eram alardeadas a cada cinco minutos pela Rádio Agrishow. “Veja as melancias sem sementes no estande da Nacamura Frutas e Hortaliças!”, bradava o locutor. “Conheça a maior colheitadeira do mundo no estande da John Deere!” O público analisava cada uma delas, não pela óptica da curiosidade mas pela relação custo-benefício, calculada na ponta do lápis. “Corremos cada vez mais atrás de tecnologia, e nesta feira existe um clima muito favorável para sua absorção”, afirma o produtor Orcival Gouveia Guimarães, do município de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. “As empresas expositoras trazem seus melhores engenheiros para explicar os produtos.” Com uma lavoura de mais de 7 000 hectares de algodão, soja e milho, além de quatro revendas de máquinas e 4 500 cabeças de gado, Guimarães faturou cerca de 70 milhões de reais no ano passado. Ele era um dos poucos participantes que se beneficiavam nas duas pontas da feira. Além de pesquisar produtos para sua lavoura, Guimarães, como outros distribuidores de máquinas agrícolas, levou uma equipe de vendedores de suas lojas de Mato Grosso para integrar o estande da Massey Ferguson, marca do grupo americano Agco. Esperava repetir o feito do ano passado, quando sua equipe fechou contratos de 15 milhões de reais durante a Agrishow.

Diferentemente do que ocorre nas feiras do gênero na Europa, nas quais o fabricante apenas expõe seu produto, na Agrishow é possível comparar o desempenho de marcas concorrentes com testes em campo, a exemplo do que acontece nas mostras americanas. O teste é um dos momentos mais interessantes da Agrishow — a hora da verdade para os fabricantes. Na área que circunda os estandes, são plantados anualmente 192 hectares com diversas culturas, como milho, soja e feijão. Na hora dos testes, uma longa fila de produtores se estende pelo campo para aguardar a entrada dos monstrengos. Passa uma colheitadeira de milho de uma marca e lá vão os agricultores avaliar seu rendimento e verificar a qualidade do milho debulhado. Quando se trata de uma semeadeira, o público não hesita em tirar um canivete do bolso e abrir um pequeno buraco na terra para verificar a quantidade de sementes e o volume de fertilizante injetado pela máquina. Alguns chegam a estender fitas métricas para medir a distância entre os buracos. Exagero? De jeito nenhum. Essa precisão que os agricultores exigem hoje equivale à expectativa que um industrial tem em relação à qualidade de produção das máquinas de sua fábrica. Cada vez mais as fazendas são encaradas e administradas como empresas.

A tecnologia é uma das partes mais visíveis desse processo de modernização, mas não é a única. Veja o exemplo da Fazenda Santa Isabel, criada em 1897, produtora de cana e soja no município de Guariba, a 55 quilômetros de Ribeirão Preto. O discurso do engenheiro agrônomo Paulo Rodrigues, de 34 anos, membro da terceira geração da família que adquiriu a propriedade, em 1948, não difere do de um executivo de grande empresa da avenida Paulista ou da avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Ao falar sobre a fazenda, começam a pipocar expressões como reengenharia, agilidade de decisões, confiabilidade de dados ou aprimoramento de recursos humanos. “O produtor muitas vezes é encarado como um jeca-tatu”, diz Rodrigues. “Mas isso não existe mais.” Em 2000, ele concluiu o mestrado em administração no campus da USP em Ribeirão Preto. O que fez na fazenda da família — cujo número de funcionários e máquinas foi reduzido a um terço na última década, enquanto a produtividade cresceu anualmente à base de 1 tonelada de cana a mais por hectare — mostra isso.

Há dez anos, eram desenvolvidas na Santa Isabel 22 atividades diferentes. Rodrigues resolveu concentrar-se nas três principais competências da empresa — cana, soja e produção de mudas — e descartar as outras 19. Para cada uma das quatro unidades da fazenda havia um gerente. “Isso gerava desperdícios na alocação de recursos”, diz Rodrigues. “Algumas vezes, uma unidade precisava de um trator a mais e outra estava com um estacionado.” Rodrigues resolveu abolir a divisão por fazendas e repartir as responsabilidades dos encarregados por tipo de atividade. Um passou a cuidar da colheita, do plantio e do controle de ervas daninhas. Outro, do preparo do solo e da adubação. Os demais encarregados foram dispensados.

Os funcionários da área de produção da fazenda também tiveram sua vida mudada. Há 12 anos moravam na propriedade 66 famílias. Com o auxílio de uma assistente social, foi iniciado um programa de transferência do pessoal para a cidade. A Santa Isabel estimulou os empregados a poupar, doou parte do material de construção para novas casas e financiou outra parte. Hoje, apenas seis famílias permanecem na fazenda — como era previsto no programa –, as outras 60 moram em casas próprias nas cidades vizinhas. “Essas famílias cresceram social e intelectualmente”, afirma Rodrigues. “Têm escola, mais qualidade de vida e estão integradas na sociedade.”

O benefício das mudanças aparece no dia-a-dia da fazenda. “Você pode ter um trator igual ao do seu vizinho e vice-versa”, diz Rodrigues. “Mas terá a melhor rentabilidade aquele que contar com as melhores pessoas cuidando de sua operação”, diz Rodrigues. No ano passado, ele criou a figura do auditor interno, que verifica se as recomendações sobre o plantio, como o número de gemas de cana por metro (algo que deve variar de acordo com o tipo de solo), estão sendo cumpridas. Os erros apontados pelo auditor não vão parar nos ouvidos de Rodrigues — são comunicados diretamente aos dois encarregados responsáveis pelo cumprimento das metas da produção.

Outro visitante da Agrishow, o engenheiro agrônomo Antonio Josino Ribeiro Meirelles, de 56 anos, chama a atenção para mais um aspecto que está mudando no campo: a preocupação com a comercialização. “A venda é hoje tão importante quanto a produção”, afirma Josino, como é mais conhecido. Mineiro de Leopoldina, com praticamente toda a vida passada no interior de São Paulo, ele é um médio produtor de cana, soja e milho em Batatais, cidade próxima de Ribeirão. Josino começou a estudar os mecanismos da Bolsa Mercantil e de Futuros (BM&F) em 1987 e hoje vende entre um terço e metade de sua produção de soja via contratos futuros. A vantagem? “Meus rendimentos melhoraram e ganhei mais estabilidade financeira”, diz. Segundo Josino, os negócios com soja chegam a ser fechados com três preços diferentes no mercado. Em outubro e novembro de 2001, a Carol — Cooperativa dos Agricultores da Região de Orlândia, que compreende Batatais — ofereceu aos produtores contratos futuros de compra de uma saca de soja por 10 dólares. Em dezembro e janeiro, colocou outro preço, em moeda nacional: 25 reais (o que equivalia a menos de 10 dólares na ocasião). Hoje, colhida quase toda a safra, quem se apresentar para vender, sem ter assinado nenhum desses contratos, receberá 20 reais pela saca. Resultado: o sojicultor que fechou contrato antes está ganhando de 20% a 25% a mais do que quem vende o produto hoje — uma diferença que dificilmente poderia ser igualada com ganho de produtividade.

Nessas apostas, para acertar mais do que errar é preciso informação, coisa que Josino busca na internet e em jornais e publicações especializadas. “Estou ligadão”, diz. “Minha atividade no passado era mais tranqüila, mas bem menos rentável.” Por estar antenado, Josino já deu boas tacadas. Em 1999 resolveu vender sua fazenda de café. “Li estudos sobre o crescimento da produção no Vietnã e vi que as perspectivas para o setor não eram nada boas.” Os estudos estavam certos. Embora de baixa qualidade, a produção vietnamita derrubou os preços internacionais, e 1999 foi o último ano em que sua fazenda deu lucro. Hoje a saca de café é vendida no mercado internacional a um preço inferior ao custo de produção no Brasil. “Adquiri uma visão diferente do negócio quando comecei a trabalhar de olho nas perspectivas futuras”, afirma Josino. “Atualmente, é melhor negociar café do que plantá-lo.”

A despeito das melhorias obtidas pelos negócios agrícolas nos últimos anos, os especialistas acham que não é hora de acomodação. “Precisamos avançar mais uma etapa na escala de produção criando produtos para setores específicos de mercado e que ofereçam melhor remuneração”, diz Silveira, da MB Associados. O alerta faz sentido: o aumento de produtividade e de volume não implica diretamente mais rendimento. Com mais competição internacional, e políticas de subsídios em muitos países — nos Estados Unidos, o Congresso acaba de aprovar mais 180 bilhões de dólares para os agricultores em dez anos –, os preços das commodities são deprimidos. “O momento é de pensar em estratégias de desenvolvimento da indústria de alimentos para criar mais valor agregado”, afirma Silveira.