Segmento de planos de saúde é desconhecido

Tão vital quanto desconhecido. Assim é o setor de saúde privada no Brasil. Somente no ano passado, pela primeira vez, essas empresas apresentaram seus balanços financeiros. Mesmo assim, nem todos vieram a público. A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que recebeu esses dados, até hoje ainda não apresentou um raio X de como está esse setor.

Um estudo realizado pela empresa Capitólio Consulting, porém, mostra que a situação é delicada.

Pela análise do balanço dos anos de 2001 e 2002 de 1000 empresas, foi possível verificar que houve queda no faturamento real no ano passado, enquanto as despesas médicas cresceram. Esses gastos haviam consumido 79,2% do faturamento em 2001 e em 2002 chegaram a 79,7%. Para uma situação financeira minimamente confortável, o ideal é que não passe de 75% , diz Walter Graneiro, sócio da Capitolio.

O estudo mostrou ainda vários outros pontos preocupantes. Entre eles, que a rentabilidade patrimonial, que foi possível ser calculada para 833 empresas, apresentou resultado negativo em 32,4% delas. Isso significa que essas operadoras ou tiveram prejuízo no ano passado ou estavam com passivos a descoberto.

A carência de uma gestão profissional é apontada por vários especialistas como uma séria deficiência do setor. Um indicativo disso é que é praticamente impossível encontrar consultores que conheçam mais profundamente a situação das operadoras individualmente. Simplesmente porque são pouquíssimas as empresas que em algum momento foram em busca desse tipo de assessoria.

A Intermédica contratou recentemente os serviços da Galeazzi & Associados. Desde novembro do ano passado, três profissionais da consultoria estão cumprindo expediente na empresa de planos de saúde. A Intermédica não detalha o trabalho que está sendo feito, mas entre os objetivos, segundo uma pessoa ligada diretamente ao projeto, estão a melhora do desempenho dos processos internos e a otimização dos custos.

Boa parte da ineficiência que atinge o setor é herança de um tipo de gestão adotada na época da inflação galopante. Como os custos médico-hospitalares costumam ser pagos com até 60 dias de prazo, a inflação permitia girar esse dinheiro no mercado financeiro. O ganho, alto, cobria os déficits operacionais , diz Afonso José de Matos, sócio-diretor da Planisa, consultoria especializada na área de saúde. Depois do Plano Real, a fragilidade dessas empresas veio à tona.

Fazer a gestão dos recursos disponíveis com uma aprofundada análise de custo-benefício é questão de sobrevivência, apesar de prática ainda rara no mercado brasileiro. A saúde pode não ter preço, mas tem custo , lembra Lais Perazo, gerente de saúde da Towers Perrin, consultoria em Recursos Humanos.

Apesar de óbvia a necessidade de cortar custos, mesmo quem obtém resultados positivos nesse sentido não gosta de divulgá-los. Isso porque os planos de saúde e o governo, que desde 2000 regula o setor com mãos de ferro, vivem em constante embate. Todo reajuste dos planos de saúde individuais, por exemplo, tem de ser aprovado previamente pelo governo. No mercado corporativo, essa ingerência no preço não existe. Isso tem feito muitas empresas abandonarem a venda dos planos individuais.

O tema custo dos planos de saúde não causa discussões acaloradas apenas no Brasil nem é privilégio de países subdesenvolvidos. Ele promete ocupar lugar de destaque na disputa da eleição presidencial dos Estados Unidos no ano que vem.

A previsão é que, em 2004, pelo quinto ano consecutivo os custos com planos de saúde fiquem na casa dos dois dígitos 16% neste ano e 12% no próximo. E isso é muito para a economia norte-americana, considerando que a inflação do país deve encerrar 2003 em torno de 2,5%.

Uma reportagem publicada em outubro pela revista BusinessWeek diz que, como forma de conviver com essa realidade, as empresas estão cada vez mais repassando aos próprios funcionários uma parte maior da fatura referente aos gastos com planos de saúde. A alegação é que esse é um jeito de conscientizá-los de que o serviço não é gratuito e que precisa ser usado sem desperdícios.