Santander enfrenta dúvidas sobre capital com aperto no lucro

Ana Botín, presidente do Santander, cortou o dividendo, recorreu a acionistas para obter fundos e substituiu diretorias. Mesmo assim, o preço das ações afundou

No ano que passou desde que ela assumiu a presidência do Banco Santander SA, Ana Botín cortou o dividendo, recorreu aos acionistas para obter fundos e substituiu a diretoria nos EUA, no Brasil e no mercado doméstico do banco, a Espanha.

Mesmo assim, o preço das ações afundou.

Antes de uma reunião de dois dias com Botín e sua equipe nesta semana, alguns dos maiores investidores do Santander dizem estar preocupados com que as pressões sobre os lucros em mercados fundamentais acarretem que o maior banco da Espanha tenha dificuldades para desenvolver rácios de capital iguais aos dos outros bancos e cumprir as exigências cada vez maiores dos órgãos reguladores.

“O Banco Santander precisa lidar com dois problemas principais: o atual rácio de capital e a rentabilidade”, disse Christian Solé, analista sênior de ações da Candriam Investors Group em Bruxelas, que administra cerca de 90 bilhões de euros (US$ 102 bilhões) em ativos e possui ações do Santander.

A meta do banco de um rácio de 10 por cento de common equity Tier 1 (CET1, na sigla em inglês) em 2015 “era considerada um número enorme anos atrás, mas não é suficiente para um banco como o Santander, que tem uma exposição alta aos mercados emergentes”.

O desafio para o Santander para reforçar suas defesas de capital é dificultado pelo aperto nos lucros em dois dos seus maiores mercados. As taxas de juros em patamares mínimos recordes na zona do euro estão limitando o crescimento do Santander no mercado doméstico e pressionando as margens.

A diversificação geográfica que ajudou o banco a suportar a crise financeira já não é uma vantagem em um momento em que a economia do Brasil entra em recessão e uma crise política paralisa o país. A divisão brasileira responde por 20 por cento dos lucros do credor.

CET1

Com uma razão de CET1 de 9,8 por cento em junho, o Banco Santander tem a proporção mais baixa entre os 24 maiores bancos europeus de capital aberto, segundo dados compilados pela Bloomberg.

O Deutsche Bank AG tem um rácio de 11,4 por cento, e o UniCredit SpA e o Banco _Bilbao Vizcaya Argentaria SA estão em 10,4 por cento.

A receita líquida no segundo trimestre subiu para 2,54 bilhões de euros, frente a 1,45 bilhão de euros um ano atrás, depois que uma decisão judicial favorável sobre impostos no Brasil permitiu que o credor liberasse provisões.

Excluindo o ganho único, a receita líquida teria sido de 1,71 bilhão de euros.

Botín fez com que conquistar a fidelidade dos clientes fosse uma das maiores prioridades do banco como meio de impulsionar a rentabilidade. Para isso, o credor criou em maio a conta “1/2/3” na Espanha, moldada a partir de um produto similar que apresentou no Reino Unido em 2012, que lhe ajudou a ganhar clientes naquele mercado.

No Brasil, o banco nomeou um novo CEO no dia 9 de setembro, e deve haver uma reorganização depois, segundo o analista da Kepler Cheuvreux Alfredo Alonso.

“A nomeação demonstra a necessidade de mais mudanças na unidade brasileira, que, apesar de alguns progressos recentes, fica atrás das outras em relação ao crescimento e à rentabilidade”, disse Alonso, em uma nota para clientes.

No mês passado, o Santander perdeu para o Banco Bradesco SA um lance pela unidade brasileira do HSBC Holdings Plc.

A aquisição teria ajudado o Santander a reforçar seus R$ 598 bilhões (US$ 154,6 bilhões) em ativos no país acrescentando o sétimo maior banco do Brasil, com R$ 145,7 bilhões em ativos. O Santander é o terceiro maior credor privado do país, segundo dados do Banco Central.

As preocupações com a contração econômica do Brasil contribuíram para o declínio nos preços das ações do Santander. As ações caíram 28 por cento neste ano e tiveram o segundo pior desempenho no índice de referência STOXX Europe 600 Banks Index, que acompanha 46 dos bancos da região.

Somente o National Bank of Greece SA caiu mais.

O banco poderia impulsionar a rentabilidade reduzindo custos, disse um dos vinte maiores acionistas do Santander, que pediu anonimato porque o gerente de ativos não está autorizado a falar sobre empresas particulares.

Embora fosse positivo que o banco atingisse suas metas para 2017, o ambiente de taxas baixas de juros significa que o Santander provavelmente vai ter dificuldades para superar esses planos nos próximos anos, disse o investidor.