Renovação de botecos da Ambev prejudica alguns donos

Um contrato com a Ambev pode render mesas e equipamentos novos, mas alguns proprietários de bar estão com problemas para manter os estoques cheios

Francisco Nunes assinou um contrato com a Ambev SA no ano passado que rendeu mesas e equipamentos novos para seu boteco em uma favela do Rio de Janeiro. O que Nunes, 58, disse que não recebeu foram garrafas suficientes de Budweiser para manter o estoque cheio.

“Muitas vezes eu tive que sair e comprar cerveja por conta própria no depósito ou não teria nada para oferecer”, disse ele em seu bar, no calor de um dia de verão no Brasil.

A Ambev, fabricante de cervejas como a Bud, está tentando ampliar as vendas mirando empreendedores como Nunes. Ajudando a decorar bares e oferecendo treinamento de gestão, a cervejaria com sede em São Paulo se une a empresas de varejo e de outros setores que tentam explorar uma classe média em crescimento nos enclaves e bairros urbanos mais pobres da periferia das grandes cidades.

A experiência de Nunes mostra a promessa e as dificuldades da iniciativa. Alguns proprietários satisfeitos dizem que seus estabelecimentos enfeitados atraíram mais vendas e uma clientela de nível mais elevado, incluindo mais mulheres.

Outros, como Nunes, reclamam dos obstáculos como, por exemplo, o grande número de bares semelhantes e as restrições ao que eles podem vender — nada de Coca-Cola, por favor. A Ambev produz e distribui a Pepsi no Brasil.

A Ambev, uma unidade da Anheuser-Busch InBev NV, maior empresa cervejeira do mundo, considerou o programa um sucesso.

Cerca de 1.000 estabelecimentos da franquia Nosso Bar, como eles são chamados, agora estão espalhados pelo Brasil, e outros milhares estão em planejamento, segundo a Ambev, que controla quase 70 por cento do mercado cervejeiro do país.

‘Crescimento econômico’

“A rede Nosso Bar estimula o empreendedorismo brasileiro e é uma ferramenta de melhoria na qualidade de vida do pequeno empreendedor”, disse Alberto de Souza Filho, gerente corporativo de franquias da Ambev.

“Queremos levar crescimento econômico às comunidades e proporcionar ao cliente a possibilidade de ter uma experiência diferenciada”.

A empresa disse em um e-mail que está atuando rapidamente para resolver problemas de entrega similares aos de Nunes.

Os bares em favelas representam um desafio particular. Eles são tradicionalmente sujos, ineficientes e pouco amistosos para mulheres, muitas vezes com apenas um banheiro malcheiroso e latas de lixo transbordando de papel higiênico usado.

Mobília nova

O programa de franquias da Ambev busca mudar isso. Os donos de bares investirão até R$ 28.000 (US$ 9.800) e pagarão uma mensalidade de até R$ 600, segundo o site da Ambev.

Em troca, a Ambev oferece financiamento, marketing e treinamento, assim como novos equipamentos e mobília.

Uma franquia de padrão mais alto com um investimento inicial de a partir de R$ 500.000, chamada de “Seu Boteco”, dá aos donos de bares mobília de madeira e grandes janelas de vidro que fazem com que os clientes se sintam como se estivessem “em uma calçada do Rio de Janeiro”, segundo o site da Ambev.

A questão, é claro, é que os donos ficam limitados às cervejas da Ambev, como Skol e Corona. Ao atrair clientes de renda mais alta, além de mulheres e famílias, a Ambev pode vender mais marcas de alto padrão, o que significa colocar a Budweiser nas favelas.

Mulheres bem-vindas

O proprietário de bar Alexandre Nunes, sem parentesco com Francisco Nunes, não tem problemas em manter os produtos da Coca-Cola de fora. Ele pagou cerca de US$ 3.500 por uma franquia do Nosso Bar para reformular o Boteco Bolonha, no bairro do Jaguaré, em São Paulo, e atrair famílias de média e baixa renda.

Em seis meses, até dezembro de 2013, a receita havia crescido 60 por cento e ele voltou aos lucros quase imediatamente, disse, preferindo não dar detalhes. Mulheres e crianças já não temiam o que antes era um ambiente desagradável frequentado por consumidores inveterados de bebidas.

‘Muito bem’

“Antes eu não consegui atrair famílias, amigos e casais por causa da história do bar, e em um mês nós começamos a ver uma mudança e às vezes, agora, temos até lista de espera”, disse Nunes. “Estamos ganhando dinheiro e contratamos mais trabalhadores. As coisas realmente estão indo bem”.

Marcos Antônio de Oliveira não está nem de perto tão feliz assim com sua franquia. Ele disse que as vendas em seu bar em São Paulo, localizado perto da Arena Corinthians, construída para a Copa do Mundo do ano passado, rapidamente dobraram para cerca de US$ 28.000 por mês, depois que ele pagou US$ 4.600 pela franquia Nosso Bar, em 2013. Parte disso se deveu ao aumento das matrículas em uma faculdade de Medicina próxima. Contudo, os negócios estagnaram desde pouco antes da Copa.

Ele não tem permissão para oferecer a cerveja local favorita, Itaipava, nem produtos da Coca-Cola. E os concorrentes copiaram o estilo do Nosso Bar, disse ele, reformando seus bares e instalando toldos vermelhos e mesas decoradas com decalque vermelho sem pagar as tarifas de franquia.

“No início, ser uma franquia nos diferenciava”, disse Oliveira, 53, que é também estudante de Enfermagem. “Agora todos os bares do bairro são vermelhos. Eu preciso fazer algo para me destacar novamente”.