Presidente do Happn: para encontrar o amor, é preciso ser proativo

Em visita ao Brasil, o francês Didier Rappaport, presidente do app de namoro Happn, falou sobre os planos para se diferenciar de concorrentes como o Tinder

Você cruza com alguém na rua e, voilà, minutos depois, nome e fotos da pessoa aparecem na tela do seu celular. Parece ficção científica, mas é assim que funciona o aplicativo de namoro francês Happn, que está no Brasil desde 2015 e já tem 7,5 milhões de usuários por aqui. O Brasil é um dos três mercados mais importantes do Happn, assim como Estados Unidos e Índia, e foi o país onde o app mais cresceu em 2018, ganhando 2 milhões de novos usuários.

Em visita a São Paulo, o presidente e cofundador do Happn, Didier Rappaport, falou a EXAME sobre a estratégia do app para melhorar a desgastada imagem do namoro online e se diferenciar de rivais como o norte-americano Tinder (do grupo The Match Group, também dono de apps como o OkCupid, e que detém mais da metade do mercado nacional). Rappaport diz que o Happn “não tem medo de falar de amor” e que quer trazer o real para o virtual. “Os vencedores de amanhã serão os que reconciliarem o mundo real com o mundo digital”, diz. Entre novas funcionalidades a serem lançadas neste mês, haverá mais espaço para que os usuários se mostrem “para além da foto”, antecipa Rappaport.

O presidente também aponta que, no Brasil, as mulheres têm mais atitude que em países da Europa, e dá dicas para os solteiros que queiram conhecer a alma gêmea. “Seja proativo. Se você não puxar conversa com as pessoas com as quais gostaria de conversar, o amor nunca vai acontecer”, diz. Veja abaixo os principais trechos da conversa.

Como foi o processo de lançar o Happn, especialmente aqui no Brasil?
Lançamos o app em Paris, em 2014, e meses depois estávamos em Londres, Berlim e Nova York. E um ano depois já lançamos no mercado brasileiro, porque ouvimos que era um ótimo mercado para namoros. Então, viemos para cá, e estamos muito impressionados. Hoje temos mais de 7 milhões de usuários no Brasil. Pelo que sabemos, o Happn é muito conhecido e considerado no país.

Ao contrário de apps como o Tinder, em que é possível conhecer pessoas a quilômetros de distância, o Happn cruza pessoas que passaram pelo mesmo lugar ao longo do dia. Por que a opção por esse modelo?
No começo, quando falávamos no conceito de namoro online, as pessoas diziam que era “muito virtual, muito enganoso”. As pessoas se sentem como estando num supermercado onde você pode encontrar um monte de perfis, como se fossem produtos na prateleira. Então, imediatamente tivemos aquela sensação de que os vencedores de amanhã serão os que reconciliarem o mundo real com o mundo digital. Porque, no fim, só existe um mundo: o real. Então, optamos por essa combinação única de localização e tempo real.

E em que medida esse formato diferente do Happn pode ajudar a reconciliar o real e o virtual, como o senhor mencionou?
No fim do dia, quando você abre o Happn, as pessoas que você vê são pessoas que compartilham a vida com você, porque estão naquela hora próximas a você. Então, por que eu deveria ficar online para conhecer novas pessoas, quando cruzamos todos os dias com tantas pessoas? E a segunda razão é que realmente tentamos ser românticos. Nós todos sabemos que amor é imprevisível. Em grande parte do tempo, o amor vai acontecer quando você não está esperando. Você pode estar andando na rua e encontrar, na esquina, alguém pelo qual sinta atração ou algo assim. E isso é exatamente o que acontece no Happn, porque você de fato cruzou com todas essas pessoas que você vê na tela.

Por outro lado, há estudos que mostram que as novas gerações têm cada vez mais dificuldade para se relacionar. Que papel os aplicativos de namoro têm nesse cenário?
Quando conversamos com pessoas solteiras e perguntamos “por que você está solteiro?”, elas respondem, no mundo todo, que é porque “é difícil”. É um tanto esquisito, porque estamos vivendo nesse chamado “mundo conectado”, mas as pessoas se sentem solitárias. E nosso objetivo é solucionar esse problema doloroso, ajudar as pessoas a se conectarem. Isso acontece porque, novamente, os aplicativos focam muito no mundo digital. Quando você consegue remover um perfil só mexendo os dedos, é como se estivesse jogando fora um objeto, mas se esquece que atrás das imagens há pessoas reais. Todo o design do Happn é pensado para concertar isso. Você nunca vai ver um “deslizar” [ato de deslizar a tela para aprovar ou não o parceiro] no Happn. Nós recebemos todos os dias testemunhos de pessoas, temos na parede do escritório fotos de casais que se conheceram por meio do Happn e que nos escreveram para dizer obrigado. E isso nos faz muito felizes.

Existe um estigma de que as pessoas só usam apps de relacionamento como Happn e Tinder para encontros sem compromisso, mas não para relacionamentos sérios, mas o senhor diz que o Happn é romântico. O senhor avalia que seus concorrentes são menos românticos?
Se vemos o marketing dos meus competidores, você tem o Tinder com “Single, not sorry” [algo como “solteiro, mas não sinto muito por isso”], o que é meio estranho, porque você é um aplicativo de relacionamento e diz “solteiro mas tudo bem, eu gostaria de continuar solteiro”? Na verdade, é um conceito a se vender, mas não é um conceito para relacionamentos. Ou temos o Bumble onde só as mulheres podem puxar conversa, algo em que não acreditamos. Somos um aplicativo de relacionamento, e não estamos com medo de falar de amor. Sabe, nós somos franceses, os franceses gostam muito de amor! Mas também não vamos falar de amor do jeito que ele era há 30 anos. Porque desde então, as regras mudaram muito. Estamos falando de amor moderno. Não há mais estigmas, todo mundo pode fazer o que desejar.

Nesse cenário de amor moderno, dá para encontrar um grande amor em um aplicativo?
Eu nunca vou dizer “venha para o Happn e eu prometo que você vai encontrar um amor”. Seria mentira. O que eu vou fazer é usar a tecnologia para te ajudar a se conectar com as pessoas. E se você quiser se apaixonar, eu diria que não fique esperando – seja proativo. E se você encontrar alguém especial mas perder a chance de falar com essa pessoa? Se você não puxar conversa com as pessoas com as quais você gostaria de conversar, o amor nunca vai acontecer. Então, a ideia hoje é fazer as pessoas responsáveis por suas próprias vidas. Nossa comunicação é: venha para o Happn, use, mas saia o mais rápido possível. E se você quer conexões, você tem que agir.

Há quatro ou cinco anos, quando as pessoas começaram a usar o Happn e o Tinder no Brasil, ficavam um pouco envergonhadas em admitir que usavam essas ferramentas. Isso mudou?
O mercado melhorou muito nos últimos anos. Há dez anos, estar num app de relacionamento era ser um perdedor. Hoje, estar num app de relacionamento é dizer “ok, eu vou colocar meu destino nas minhas próprias mãos”. Tenho uma história engraçada sobre isso: eu conheci um cara que conheceu a noiva dele no Happn. Ele me adicionou no LinkedIn para me agradecer, e disse “eu estava na livraria e vi a minha noiva, e graças ao seu aplicativo eu pude conhecê-la”. Bom, ele me convidou para o casamento dele e tudo mais. Mas ele terminou a mensagem com um “PS”: “se você vier, por favor, não diga à minha avó que eu conheci minha esposa no Happn”. Foi muito engraçado, eu amo essa história.

Como os usuários brasileiros se comportam no Happn? As diferenças culturais dos países se refletem no comportamento?
Sim, notamos algumas diferenças a depender do país. Por exemplo, as mulheres são muito mais ativas no Brasil no que diz respeito ao “primeiro movimento”, seja dando o primeiro like ou começando uma conversa. Eu ganhei muitos likes desde que eu cheguei aqui! [risos]
No Brasil, há muito mais mulheres fazendo esse primeiro movimento do que, por exemplo, na França. Inclusive, em países do sul da Europa, como França, Itália e Espanha, as mulheres são muito menos ativas que no norte da Europa, como no Reino Unido ou nos países nórdicos. E as mulheres são bem ativas até mesmo na Índia – o que é impressionante. E nós gostamos disso: a melhor situação é a igualdade, porque num sistema de igualdade, nós não temos que ficar assegurando que as mulheres serão ativas; tem de ser natural.

Mas, espera, o senhor está no Happn? Está solteiro?
Não, não estou solteiro! Estou no Happn, mas por motivos profissionais. [risos]
Meus filtros no aplicativo são homens e mulheres de 18 a 70 anos, para que eu tenha o feeling do que está acontecendo no app. Eu tenho algumas conversas interessantes no Happn. Outro dia eu estava conversando com uma mulher que me disse “Ah, você diz que é o presidente do app? Até parece, não acredito em você”. E eu disse “ok, não precisa confiar em mim. Mas realmente sou eu!” [risos]
E ela disse que pensou que era uma campanha de marketing, e começamos a conversar. Foi muito legal.

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O Happn se conecta com redes sociais dos usuários, como Facebook e Instagram, além de receber dados como localização e telefone. Há algum tipo de comercialização desses dados?
Não temos nenhuma monetização por dados. É uma escolha. O Happn ganha dinheiro com o que chamamos de modelo freemium, ou seja, a maioria dos usuários usa de graça, mas há ferramentas adicionais pagas. Esse é o modelo. Somos uma empresa da União Europeia, onde a legislação de proteção de dados é muito forte. Acreditamos que os dados pertencem ao usuário. O que não significa que você não possa usar os dados dos usuários para ganhar dinheiro; mas, se fizer isso, tem de deixá-lo ciente.

E uma pergunta sobre segurança: o Brasil é um país perigoso, e mulheres, sobretudo, podem ter medo de usar o Happn e deixar com que potenciais agressores vejam os lugares pelos quais elas passam com frequência. Esse tipo de preocupação está no radar de vocês?
Com certeza. Primeiro, a distância dos cruzamentos é 250 metros. E numa grande cidade, em um círculo de 250 metros, você não consegue encontrar ninguém em particular. Claro, estamos cientes de comportamentos errados de usuários no passado, e deixar as pessoas seguras é um dos nossos pilares, sempre buscamos ouvir a opinião das mulheres usuárias. Tanto que somos, por exemplo, o app de relacionamentos mais usado na Índia, à frente do Tinder. E, como você sabe, a Índia é um país muito perigoso para mulheres, com muitos casos de agressão e estupros. Outro ponto é que as pessoas delimitam a faixa de idade. Eu, que sou um cara velho, não posso ver uma menina jovem se ela não quiser.

Quais são os planos para o Happn no Brasil? Planeja levar o app para mais cidades?
Para começar, no dia 15 de maio, vamos lançar uma reformulação no app que vai adicionar novas funcionalidades – que, infelizmente, não podemos dizer ainda. E entre as novidades está uma maior cobertura nacional no Brasil a partir de setembro. Ainda temos algumas dificuldades: o DNA do Happn são os cruzamentos, e quando vamos para cidades pequenas, talvez não haja usuários suficientes para encher a timeline. Isso é uma limitação.

O senhor estava dizendo como o Happn é maior que o próprio Tinder na Índia. Vocês têm alguma expectativa para que isso aconteça no Brasil?
Não. Nós consideramos que o melhor jeito de ser bem-sucedido é, primeiro, ter o produto certo, e as coisas vão acontecer naturalmente. Claro, somos uma empresa, temos que fazer marketing, temos que ter objetivos sustentáveis e lucrativos, não temos medo de dizer que queremos ganhar dinheiro. Mas, por ora, o foco da empresa está no produto, na tecnologia.