Quem manda é a dona-de-casa

Preços bem comportados dão a medida da concorrência

Em abril passado, a Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), do Ministério da Fazenda, congelou uma aquisição para avaliar seu impacto no varejo. Trata-se da compra da rede GBarbosa pela BRPar, do mesmo grupo do Bompreço, controlado pelo holandês Ahold. O negócio reduziria radicalmente o nível de concorrência entre supermercados na Bahia e em Sergipe. Desde 1997, 41 casos do tipo passaram pela Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da Justiça, um dos órgãos defensores da concorrência no país.

Toda essa fiscalização, porém, não deixa os fornecedores dos supermercados mais felizes. É muito difícil convencer as autoridades de que já há poder demais nas mãos dos grandes varejistas. O governo vê apenas uma possibilidade de problema, no futuro. “Os supermercados têm importância crescente, no Brasil e no mundo”, afirma João Grandino Rodas, presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão máximo no combate à concentração de mercado. “O setor vai exigir muito da nossa atenção nos próximos anos, com certeza.”

O primeiro motivo para essa tranqüilidade com relação à situação atual é o seguinte: para o governo, o que indica se a concorrência está ou não em nível razoável são os preços que a dona-de-casa vê nas gôndolas — e eles andam muito bem comportados. Afinal, a cesta básica subiu apenas 51% desde julho de 1994 e o varejo tem sido apontado como peça-chave para a estabilidade. “Qualquer análise que venhamos a fazer tem como referência o consumidor”, afirma Cleveland Teixeira, secretário adjunto da Seae.

As reclamações dos fornecedores esbarram também na dificuldade de analisar o setor supermercadista, admitida pelos técnicos do governo. Supermercados são comerciantes e, ao mesmo tempo, prestadores de serviços (eles facilitam o acesso do consumidor a várias mercadorias). E os preços dos milhares de produtos ofertados oscilam de forma independente. “Não dá para avaliar o setor supermercadista. Temos de avaliar por produto”, diz Elisa de Oliveira, diretora de proteção e defesa econômica da SDE.