Quem é a argentina Flybondi, companhia aérea low-cost que chega ao Brasil

Empresa é a terceira companhia aérea de baixo custo a ter autorização para operar no país e vai oferecer voos a partir de outubro

São Paulo — Em meio a passagens aéreas mais que dobrando de preço nos últimos meses, uma boa notícia para os consumidores: mais uma empresa aérea de baixo custo vai chegar ao Brasil, desta vez a argentina Flybondi. A empresa foi autorizada na última terça-feira, 2, a operar no país pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e vai começar a realizar voos por aqui a partir de outubro.

A princípio, os voos da empresa serão somente entre o Rio de Janeiro, no Aeroporto do Galeão, e Buenos Aires, capital argentina. Serão três voos semanais entre os destinos.

A Flybondi é a terceira empresa do tipo “low-cost” (com passagens mais baratas, foco em eficiência e menos serviços para os passageiros) a ser autorizada a voar no Brasil.

Já haviam sido aprovadas, no ano passado, a chilena Sky Airline (com voos entre Santiago, capital chilena, e os aeroportos do Galeão, no Rio, Guarulhos, em São Paulo e Hercílio Luz, em Florianópolis) e a norueguesa Norwegian Air (com voos entre Londres, na Inglaterra, e o Rio de Janeiro).

Tendo feito o primeiro voo apenas em janeiro de 2018, a Flybondi tem no currículo o fato de ter inaugurado a categoria low-cost na Argentina e, desde então, já transportou mais de 1,6 milhão de passageiros.

Mesmo com o curto período de operação, a empresa chegou ao posto de terceira maior companhia aérea no mercado doméstico, posição que ocupa desde abril deste ano.

Entre janeiro e junho, a Flybondi atingiu participação de 9% do mercado doméstico argentino (com 4.772 voos e mais de 160.000 passageiros transportados no período), ante 15% da Latam e 68% da Aerolineas Argentinas, segundo dados da agência de aviação nacional argentina. (A quarta posição no mercado local é de outra low-cost, a Norwegian, que tem 7% do mercado no período).

Nos últimos doze meses, a empresa mais que dobrou seu número de passageiros e de voos. A Flybondi opera atualmente com cinco aviões Boeing 737 e 17 destinos, com foco nos voos dentro da Argentina.

O nascimento da Flybondi no país vizinho acontece em um contexto de expansão do mercado aéreo local, incentivado pelo governo do presidente Mauricio Macri e que o Ministério do Transporte argentino batizou de “Revolução dos Aviões”.

“A Flybondi é uma jovem empresa resultado de uma política liberal do governo Macri, e que conseguiu ganhar mercado focando em eficiência, tendo custos de operação menores e um modelo diferente das líderes Aerolineas Argentinas e Latam”, diz Gianfranco Beting, o Panda, um dos fundadores da companhia aérea brasileira Azul e hoje presidente da consultoria de comunicação e marketing para aviação Jetgroup.

Avião da Flybondi: no Brasil, companhia argentina vai enfrentar mercado controlado por três grandes empresas

Avião da Flybondi: no Brasil, companhia argentina vai enfrentar mercado controlado por três grandes empresas (Flybondi/Instagram/Reprodução)

Planos para o Brasil

Embora ainda tenha pouca presença fora da Argentina, a Flybondi deve tentar, no futuro, chegar a outras cidades brasileiras além do Rio.

“Estamos muito felizes com o lançamento de um novo destino internacional e alcançá-lo em tão pouco tempo é um sucesso importante para a empresa e para o setor”, disse o presidente da Flybondi, Sebastián Pereira, em nota no site da empresa comunicando a chegada ao Brasil.

O presidente afirmou que espera poder adicionar outras rotas internacionais em pouco tempo, o que deve incluir novos destinos brasileiros.

Em audiência com o governo argentino ainda no fim de 2016, antes mesmo de ter começado oficialmente a operar, a empresa pediu ao presidente argentino Mauricio Macri autorização para operar mais de 20 rotas rumo ao Brasil (incluindo capitais como São Paulo, Florianópolis, Salvador, Recife e Curitiba).

Como alvos da Flybondi no mercado brasileiro estariam inclusive destinos argentinos para além de Buenos Aires, como Córdoba, Bariloche e Rosário, o que daria mais opções aos brasileiros.

O interesse da Flybondi pelo Brasil tem razão de ser. Buenos Aires é o quarto destino mais buscado pelos brasileiros no buscador de passagens aéreas Voopter, enquanto Santiago, no Chile, é o segundo. As cidades brasileiras que mais buscam voos para a capital argentina são São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte.

Partiu Buenos Aires?

Para Petterson Paiva, presidente do Voopter, a chegada da empresa argentina pode levar a um movimento de queda nos preços das passagens na rota para Buenos Aires.

Na pré-venda de passagens da Flybondi saindo do Rio, a depender do dia escolhido no site da empresa, é possível encontrar passagens de ida e volta para Buenos Aires na faixa dos 500 a 700 reais (entre 5.000 e 8.000 pesos argentinos), e até voos por pouco mais de 300 reais (3.600 pesos argentinos).

O preço médio de um voo entre o Aeroporto do Galeão, no Rio, e o Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, foi de 1.026 reais entre os meses de abril e junho deste ano, segundo dados do Voopter. No Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, o ticket médio para o mesmo destino foi de 899 reais no período.

“O consumidor brasileiro, no geral, não tem apego a marcas de companhias aéreas, mas a condições como preço, horário e escala”, diz Paiva. “Se a Flybondi chegar com preços menores, as grandes brasileiras vão ter que mostrar algo para ganhar o consumidor.”

O modelo é muito popular na Europa, onde as empresas de baixo custo são favorecidas, entre outros fatores, pelas rotas curtas entre um país e outro e pela livre circulação de pessoas na União Europeia. Na América do Sul, onde voos entre países vizinhos como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai podem durar entre três e quatro horas e não há necessidade de passaporte, rotas mais baratas e eficientes também têm espaço para crescer.

A expectativa é que a Flybondi e outras empresas de baixo custo chegando ao Brasil, além de roubar mercado das grandes, chegue também a consumidores que nunca viajaram antes. Um número do qual a Flybondi se orgulha, segundo as informações em seu site oficial, é o fato de que 200.000 passageiros voaram de avião pela primeira vez na vida usando o serviço da empresa.

“Te disseram que voar era para poucos. Que era difícil e impagável. Que viajar de avião era a exceção e não a regra. Somos a Flybondi e estamos aqui para mudar isso”, escreve a empresa na apresentação em seu site.

Tripulação da Flybondi: desde o primeiro voo feito em 2018, empresa transportou 1,6 milhão de passageiros

Tripulação da Flybondi: desde o primeiro voo feito em 2018, empresa transportou 1,6 milhão de passageiros (Flybondi/Instagram/Reprodução)

O custo brasileiro

Operar no Brasil, contudo, “não é para amadores”, afirma Beting, da Jetgroup, e será um desafio para as empresas estrangeiras chegando por aqui. “Os custos do Brasil vão incindir sobre eles, como o alto preço do combustível. O Brasil ainda é um ambiente muito tóxico para novas companhias aéreas”, diz o executivo.

“Ainda é prematuro para dizer se vai dar certo, e outras empresas de low-cost já falharam antes. Mas como há um movimento mais amplo, com várias empresas chegando ao mesmo tempo, elas devem conseguir se estabelecer”, diz Cleverson Pereira, professor do centro universitário Uninter, de Curitiba, e especialista no mercado de aviação.

Paiva, do Voopter, acredita que, embora a chega de estrangeiras operando voos internacionais seja importante, a grande “revolução” virá somente quando essas empresas começarem a operar também voos domésticos, de um lugar a outro dentro do Brasil.

A entrada de estrangeiras no mercado doméstico foi autorizada neste ano após a aprovação de uma Medida Provisória do governo do ex-presidente Michel Temer (PMDB).

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Atualmente, 97% do mercado interno é operado por Gol, Latam, Azul e Avianca, esta última em processo de recuperação judicial desde o fim do ano passado e com voos paralisados. Sem a Avianca, as três maiores respondem por 90% do mercado doméstico, segundo a Anac. No mercado internacional, as quatro empresas realizam quase 100% dos voos.

“Somente três empresas aéreas operando em um país com as dimensões que tem o Brasil ainda é um número muito restrito”, afirma Paiva.

Vai ser difícil, mas se as estrangeiras conseguirem sobreviver aos desafios do Brasil, quem ganha é o consumidor.