Profissão: voluntário

Empresas fazem parceria com o Hospital do Câncer para fazer o bem

Fazer as unhas de uma pessoa que está se submetendo a sessões de quimioterapia para combater um câncer é uma tarefa que exige cuidados especiais. Esse tipo de paciente não pode ficar sem a cutícula (a película que recobre o entorno das unhas), pois ela protege o organismo contra a invasão de bactérias. Além do cuidado para não ferir um paciente com a resistência minada, ajudá-lo a ficar mais bonito auxilia, e muito, na sua recuperação emocional. Arrumar o cabelo, amarrar elegantemente um lenço na cabeça ou disfarçar a falta de sobrancelhas com a maquiagem adequada podem ser decisivos na travessia de uma fase tão delicada do combate ao câncer. É para isso que mais de 100 funcionários da rede de salões de beleza Jacques & Janine se revezam no Centro de Convivência do Hospital do Câncer, em São Paulo.

Dois cabeleireiros e uma manicure dão expediente no local todas as segundas e quartas-feiras, das 9h30 da manhã às 4h30 da tarde. Outros 25 funcionários da Natura revezam-se em duplas, às terças e sextas-feiras, para ensinar automaquiagem e contar histórias às pacientes. “É claro que a maquiagem não muda a vida de uma pessoa, mas dá um refresco”, diz Angela Serino, gerente de ação social da Natura. “É um momento que lembra a mulher que ela não deve se abandonar.”

As parcerias com empresas foram a saída encontrada para concretizar o projeto do Centro de Convivência. “Queríamos trabalhar com especialistas porque não há mais lugar para amadorismo no voluntariado”, diz Liana de Moraes, presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer, organização fundada em 1946 por Carmen Prudente. “Seria impossível contratar pessoas ou treinar voluntários para essas atividades”, afirma.

A construção do centro, que ocupa 550 metros quadrados, foi bancada pela Votorantim, que viabilizou também a nova ala do hospital, destinada ao tratamento de radioterapia. Salas amplas com paredes em tons pastel, música de fundo e combinação de luz artificial e natural transformaram o espaço num oásis de leveza e claridade no complexo hospitalar, que atendeu 270 000 pacientes no ano passado. “Queríamos que as pessoas tivessem um lugar para respirar, sem aquele peso de hospital”, diz Liana. Curiosamente, ela tomou contato com o hospital quando seu sogro, o empresário José Ermírio de Moraes Filho, morto no ano passado, manifestou a doença. “Fomos para um hospital em Nova York e os especialistas de lá recomendaram o Hospital do Câncer, aqui mesmo no Brasil.”

Outras empresas, como a Ikesaki, que doou os equipamentos e os móveis para a montagem do salão de beleza, e voluntários individuais, como professores de ioga e de artes plásticas, colaboram para que o Centro de Convivência ofereça atividades durante a semana inteira. Há até sessões de cinema que incluem filmes ainda em cartaz. As sessões são oferecidas pelo portal Cineclick.

Dentro das empresas foi fácil recrutar funcionários dispostos a ajudar. “Sempre tive vontade de fazer um trabalho desse tipo, mas nunca encontrei oportunidade”, diz a cabeleireira Josilda Barbosa da Silva, de 35 anos, funcionária da rede Jacques & Janine. “Quando a empresa convidou, aceitei na hora.” Valeu a pena? “Trabalho o dia inteiro, mas me sinto como se estivesse de folga”, afirma.