Por que resgatar a Sony parece um enredo de PlayStation

Armadilhas, adversários, imprevistos – são muitos os desafios para Kazuo Hirai, o novo presidente da empresa

São Paulo – A indicação de Kazuo Hirai como novo presidente da Sony, a maior empresa de bens de consumo do Japão, não deixa de ser uma bela metáfora. Um dos criadores do PlayStation, Hirai enfrentará um enredo de videogame para resgatar a empresa.

Hirai assumirá o joystick da empresa em 1º de abril, quando o atual presidente, Howard Stringer, passará a comandar apenas o conselho de administração da Sony. O executivo ingressou na Sony Music em 1984. Em 1995, mudou para a divisão de bens de consumo e entretenimento da Sony nos Estados Unidos, onde foi um dos responsáveis pelo sucesso do PlayStation no mercado local.

É lógico que, pelo seu currículo, Hirai foi apresentado pela Sony como alguém à altura da tarefa de reconduzi-la aos bons tempos. No comunicado à imprensa, Stringer destaca sua visão global, sua capacidade de liderança e o foco nos resultados.

Mas o desafio não é tão fácil, quanto a Sony faz parecer. Veja, abaixo, as fases e as armadilhas que compõem o novo jogo que Hirai disputará a partir de abril:

Fase 1: acumular créditos com o mercado

Investidores e analistas tendem a dar um crédito inicial para qualquer executivo que assuma a presidência de uma empresa. Com Hirai, não será diferente. O problema é a quantidade de “moedinhas” com que ele inicia a partida: relativamente poucas.

Isto porque, para o mercado, Hirai não é nenhum super-herói de videogame. Analistas ouvidos pela imprensa japonesa afirmam que Hirai é educado, profissional, bem qualificado, mas tende a mudar muito pouco a estrutura da Sony.

E lembram que a principal esperança, quando Stringer assumiu, em 2009, era que um estrangeiro desvinculado dos vícios da cultura empresarial japonesa pudesse dar um choque de gestão na Sony. Se alguém que cortou 30.000 empregos e promoveu fortes mudanças na alta cúpula da empresa não conseguiu, alguém brando como Hirai vai conseguir? É o que se perguntam os analistas agora.


Fase 2: a batalha das TVs

Uma das etapas mais importantes deste jogo é conseguir uma posição relevante no mercado de TVs de cristal líquido (LCD). Dona da marca Bravia, a Sony culpou explicitamente as fracas vendas de TV na Europa e nos Estados Unidos como responsável pelos maus resultados que vem apresentando.

Há oito anos, a empresa não consegue lucrar com a venda de TVs, e cortou sua estimativa de vendas deste ano de 22 milhões de unidades para 20 milhões. Nesta fase do jogo, sua adversária mais forte é a coreana Samsung, segundo os analistas.

Fase 3: a guerra dos gadgets

Se você tem entre 30 e 40 anos, já desejou muito ter um walkman – sim, aquele avô do iPod que se carregava na cintura, enquanto reproduzia fitas cassetes com um chiado charmoso. Pois é: a Sony esteve na vanguarda dos aparelhos eletrônicos ao inventá-lo. Mas os adolescentes daquela época hoje estão mais grisalhos, e os novos preferem um tocador de música digital – de preferência, o da Apple.

Em outra frente, a dos videogames, a Sony assiste ao PlayStation, que já foi considerado revolucionário no mercado, perder espaço para consoles concorrentes, como o Wii, da Nintendo, e o Xbox, da Microsoft.

Fase 4: enfrentar o câmbio desfavorável

Cerca de 70% das vendas da Sony são realizadas fora do Japão. Isto torna a companhia extremamente sensível às oscilações do câmbio – em um momento em que o iene está mais valorizado que o dólar, o que corrói a competitividade dos produtos japoneses no exterior.

As perdas cambiais também são citadas claramente pela Sony como um dos motivos para os maus números dos últimos tempos. Nesta fase, Hirai estará à mercê de forças mais poderosas e invisíveis: a política cambial japonesa e um cenário mundial em que os Estados Unidos não querem, por ora, ver sua moeda se fortalecer.

Bônus: elevar o valor da companhia

À medida que Hirai demonstrar habilidade nas fases anteriores, um outro contador de pontos começará a brilhar na tela do jogo – o do valor de mercado da Sony. Em setembro de 2000, por exemplo, a empresa valia 100 bilhões de dólares. Agora, está cotada em 18 bilhões – bem atrás dos mais de 400 bilhões que vale a Apple.

O problema é que, ao contrário do mundo dos videogames ao qual Hirai está acostumado, não há golpes secretos, poções mágicas ou atalhos escondidos para mudar de fase. O jogo precisa ser cumprido fase a fase – e sem vidas extras, caso erre feio.