Por que a JBS vendeu Moy Park para si mesma

Venda envolve “bolsos diferentes de uma mesma calça”, diz analista; compradora é subsidiária da JBS

São Paulo – Na manhã de hoje, 11, a JBS afirmou que vendeu sua participação na Moy Park, processadora de alimentos europeia, para a norte-americana Pilgrim’s Pride, por cerca de 1,3 bilhão de dólares. O objetivo, segundo fato relevante, é “amortizar dívida de curto prazo no Brasil e melhorar o perfil do seu endividamento e liquidez”.

O que o comunicado da JBS não fala é que a empresa compradora é, na verdade, uma subsidiária da própria JBS – ela tem cerca de 78% de participação na americana. “Essa é a grande questão. Não tem uma mudança efetiva de controle, já que são empresas do mesmo grupo”, afirma Shin Lai, estrategista e analista da Upside Investor.

Qual o motivo, então, por trás dessa operação? De acordo com Victor Luiz de Figueiredo Martins, analista da Corretora Planner, o negócio “foi a operação possível de se fazer”. Ele avalia que, diante da provável falta de um comprador que atendesse os preços que a JBS estava esperando, a venda para uma subsidiária foi a maneira que a empresa encontrou para alcançar seus objetivos.

Dessa forma, a JBS manteve seu plano de desinvestimentos e ainda levantou caixa. “Para a vendedora, traz os recursos que ela estava precisando. Para a compradora, gera sinergias. É uma operação ganha-ganha”, conclui Martins. “São todos bolsos de uma mesma calça. Se por um lado ela contrai dívidas, pelo outro levanta caixa”, afirmou.

Para a JBS, a maior vantagem é a melhora em seu balanço. Ainda que nos números consolidados da companhia o passivo continue o mesmo, a empresa afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a venda melhora seu perfil de dívida. “A JBS troca uma dívida de curto prazo no Brasil para uma dívida de longo prazo nos Estados Unidos”, respondeu.

Enquanto no Brasil as ações da JBS subiam, os papéis da Pilgrim’s Pride caíram na bolsa de Nova York durante o dia.

O que a JBS já vendeu

A JBS comprou a Moy Park das mãos da Marfrig em 2015, por 1,5 bilhão de dólares. Dois anos depois, a colocou à venda como parte de seu plano de desinvestimentos.

Em junho, a empresa colocou diversos ativos à venda depois de fechar um acordo de leniência com o Ministério Público Federal. A JBS deverá pagar 10,3 bilhões de multa, o que torna o acordo o maior desse tipo do mundo. A venda dos ativos será usada para reduzir o endividamento da empresa e, consequentemente, a alavancagem.

Em poucos meses, “a JBS já acumulou uma liquidez enorme até agora com essas vendas, que será usada para pagar o acordo e outros passivos que a empresa possa ter”, afirmou Lai.

Ela vendeu por 300 milhões de dólares as ações de suas subsidiárias na Argentina, Paraguai e Uruguai para subsidiárias da Minerva nos respectivos países. A holding J&F vendeu o controle da Alpargatas por 3,5 bilhões de reais. Os novos controladores da companhia são a Itaúsa – Investimentos Itaú S.A., Cambuhy Investimentos e a Brasil Warrant Administração de Bens Empresa S.A (BW).

No início de agosto, ela fechou acordo para vender sua participação na Vigor Alimentos para o mexicano Grupo Lala, por um valor de aproximadamente R$ 1,112 bilhão. A JBS tinha 19,43% de participação no capital da Vigor, vendida por aproximadamente 780 milhões de reais. Em setembro, o grupo holandês Paper Excellence comprou a Eldorado Celulose, empresa da J&F, pelo valor de 15 bilhões de reais. A operação deve ser finalizada em até 12 meses.

Valeu à pena?

Os analistas consultados por EXAME.com calculam que os valores pagos foram bons e adequados ao tamanho das companhias. “Dentro das condições atuais, tanto políticas quanto econômicas, a JBS conseguiu bons preços”, afirmou Martins, da Planner.

Como em qualquer operação do tipo, os preços tendem a baixar se a empresa coloca seus ativos à venda. “É um movimento natural de oferta e procura”, disse ele. Com pressa para levantar caixa, a JBS pode ter aberto mão de preços melhores, avaliam os analistas.

Outro motivo que pode afetar os preços é a insegurança jurídica da compra. “Numa aquisição rápida, a empresa não consegue investigar o ativo a fundo. Assim, não consegue definir o risco jurídico da operação e pode pedir um deságio”, afirmou Lai, da Upside Investor.

No entanto, os analistas avaliam que é difícil afirmar quanto as movimentações políticas e delações impactaram no valor dos seus ativos.