Por que a Amazon desistiu de Nova York

Após um longo processo seletivo com dezenas de cidades candidatas, a gigante do ecommerce foi criticada por fazer exigências de mais, e oferecer de menos

Se você conseguir vencer em Nova York, conseguirá em qualquer lugar, diz a famosa música New York, New York, escrita por Michael John Montgomery e popularizada por Frank Sinatra. Pois bem, a Amazon não conseguiu. Justo ela, esse gigante que engole mercados inteiros, que tem 27 milhões de metros quadrados de lojas, escritórios e centros de distribuição (mais de cem vezes o estádio do Maracanã), que faturou 233 bilhões de dólares no ano passado. Apesar desse poder todo – ou antes por causa dele – a Amazon encontrou uma resistência que não esperava e cancelou os planos de abrir uma nova sede em Long Island City, no Queens, em Nova York.

É um recuo e tanto. A Amazon levou mais de um ano no processo de escolha de sua segunda sede. Dezenas de cidades se candidataram, oferecendo incentivos fiscais de olho nos empregos e nos investimentos que viriam junto com a gigante. A disputa foi tão acirrada que a Amazon acabou escolhendo não uma, mas duas sedes, no final do ano passado: Nova York e Arlington, um subúrbio da capital, Washington, no estado de Virgínia.

Só que, se os governos do estado e do município ofereceram quase 3 bilhões de dólares de incentivos, esperando a criação de 25.000 empregos diretos, os sindicatos e alguns ativistas levantaram uma oposição ferrenha. De um lado, às relações ríspidas que a empresa costuma ter com seus empregados, de outro ao impacto geográfico, social e econômico que um corpo desse tamanho provocaria.

A Amazon tinha apoio de cerca de 70% dos moradores, de acordo com pesquisas, mas não foi suficiente. Quando o senador Michael Gianaris, um dos maiores oponentes do projeto, foi eleito na semana passada para um assento no conselho estadual, onde teria poder de veto para a instalação da empresa, a Amazon achou que o esforço não valia a pena. Reuniões com representantes dos sindicatos já haviam sido infrutíferas, com pouquíssimas concessões de parte a parte.

“Como uma criança petulante, a Amazon insiste que as coisas sejam do seu jeito, ou ela pega a bola e vai para casa”, disse Gianaris. “Para a Amazon, o compromisso de construir uma nova sede requer relacionamentos colaborativos e positivos com representantes estaduais e municipais que nos apoiarão no longo prazo”, disse a empresa.

A analogia da criança petulante não está muito longe da verdade. Embora a busca de subsídios para investir um estado ou cidade seja prática comum entre grandes empresas, a Amazon levou a prática a um nível inédito, promovendo um leilão reverso, em que as cidades candidatas tinham de se preparar do mesmo modo como os países elaboram propostas para sediar as Olimpíadas ou a Copa do Mundo. A empresa esperava tapete vermelho e agradecimentos, mas aí vale o estereótipo do nova-iorquino, que a recebeu com dúvidas e questionamentos.

Trata-se de uma derrota política para o governador Andrew Cuomo e para o prefeito Bill de Blasio, que tanto se esforçaram para vencer a gincana da Amazon. De Blasio, no entanto, soube responder à altura, alinhando-se com os vitoriosos: “Você tem que ser durão para vencer em Nova York”, escreveu no Twitter. “Nós demos à Amazon a oportunidade de ser uma boa vizinha e fazer negócios na maior cidade do mundo. Em vez de trabalhar com a comunidade, a Amazon jogou essa oportunidade fora.”

A Amazon declarou que não pretende reabrir a concorrência para substituir Nova York. Ela vai manter os planos de se instalar em Washington e aumentar cada um dos seus 17 centros corporativos nos Estados Unidos e no Canadá. Disse que espera ter “novas chances de colaboração” à medida que continua a investir em aumentar sua presença em Nova York.

Não chega a ser um segundo divórcio para Jeff Bezos, que anunciou sua separação de MacKenzie Bezos no começo de janeiro, após 25 anos de casamento. O episódio parece mais o abandono de uma noiva no altar. Com um bilhete afirmando que pretende continuar o namoro.