Pedro Parente: a Petrobras é vítima

Antes de participar no EXAME Fórum, encontro realizado em São Paulo na última sexta-feira com empresários e investidores, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, conversou com EXAME Hoje sobre o plano de venda de ativos da empresa e como pretende recolocar a estatal entre as maiores empresas de óleo e gás do mundo. Parente também comentou sobre os processos que a Petrobras enfrenta nos Estados Unidos por conta dos desvios de recursos dos últimos anos. Segundo ele, a estratégia é defender “com unhas e dentes” que a Petrobras foi vítima de uma quadrilha. Leia abaixo:


A Lava-Jato colocou a Petrobras no centro do maior esquema de corrupção do país. Como reerguer uma empresa que foi afetada financeira e moralmente?

Eu acho que temos que fazer duas linhas de ação, como estamos fazendo na empresa. Tem toda uma linha de ação que tem tudo a ver com a investigação, apuração dos desvios que aconteceram na empresa. Há uma comissão especial que é liderada pela ex-ministra do STF Ellen Gracie. Essas coisas estão tendo seu curso normal. As investigações estão caminhando. Essa é uma linha de ação que me referi. A outra é lidar com o presente e o futuro da empresa. Sendo que no presente o mais importante é lidar com o tamanho da dívida da empresa. A Petrobras tem uma divida da ordem de 125 bilhões de dólares. O maior problema dessa divida liquida é que ela corresponde a cinco vezes a sua geração operacional de caixa, o que é um numero muito elevado. O trabalho que temos que fazer é reduzir muito rápido essa dívida nos próximos dois anos e, depois disso, a empresa volta a crescer no seu core business, que é óleo e gás.

Como lidar com o constrangimento das práticas ilícitas cometidas pela antiga gestão?

Eu acho que tem que lidar de acordo com o que se recomenda a lei. A gente tem uma Constituição. Temos os códigos civil e penal no Brasil. Temos instituições que funcionam. Temos a Polícia Federal, os procuradores e a Justiça. O funcionamento dessas instituições é a melhor maneira de lidar com essas questões. E, como eu disse, existe esse trabalho em relação às investigações, mas existe também o trabalho para lidar com o presente e o futuro da empresa. Essa é a garantia da sua sobrevivência e também para a Petrobras voltar a ser uma empresa respeitada e motivo de orgulho para todos os brasileiros.

A Petrobras enfrenta ações judiciais nos Estados Unidos de investidores que se sentem prejudicados pela má gestão e pelos desvios na empresa nos últimos anos. No momento essas ações estão suspensas por um recurso da empresa. Mas qual é o risco desses processos? Qual é o montante envolvido nas ações?

Em primeiro lugar e acima de tudo, isso é diferente de outros processos que aconteceram. A Petrobras foi vítima. Foi vítima de um grupo que se instalou no poder. Quadrilhas, como denomina o próprio Procurador-Geral. É muito importante diferenciar a situação da Petrobras como, por exemplo, da Enron. A Enron e outras empresas que foram alvo desse tipo de processo nos Estados Unidos, foram beneficiárias do que aconteceu. O que de maneira nenhuma pode-se dizer sobre a Petrobras. O que aconteceu na Petrobras foi em benefício de pessoas, grupos e empresas outras que não a Petrobras. A Petrobras é vitima. Essa tem sido a base da nossa argumentação nas ações nos Estados Unidos, incluindo a class action e ações no próprio departamento de justiça e na SEC, que é a CVM americana. Então esses processos estão em andamento. A decisão final não depende da própria empresa. Mas o que a empresa defende com unhas e dentes é que foi sim vítima e que, portanto, qualquer indenização tem que levar em conta esse aspecto.

O programa de desinvestimentos ocorre num momento de mercado ainda desfavorável — e com a necessidade de fazer caixa rapidamente. Como vender a preços adequados os ativos da companhia?

Em primeiro lugar, é importante registrar que em todos os processos de parceria e desinvestimentos temos avaliações independentes. É a chamada fairness opinion de pelo menos dois bancos, normalmente três e, às vezes, quatro bancos. Eles asseguram que os preços que estamos vendendo os ativos, como o próprio nome diz, são justos, são adequados. Essa é a primeira observação. A segunda é que o setor de óleo e gás é um setor que tem uma abrangência internacional, que é um setor que comercializa uma commodity. Isso faz com que o interesse dessa indústria traga para os nossos ativos um valution de acordo com parâmetros internacionais. O fato de estarmos nesse setor de óleo e gás ajuda a trazer uma melhor precificação para os ativos.

Houve um tempo em que a Petrobras queria ser a maior petroleira do mundo. No momento ela é a empresa mais endividada do setor. Qual é a Petrobras desejável para o futuro?

A Petrobras que nós desejamos para o futuro — e acho que posso dizer em nome da diretoria, do conselho e dos nossos executivos e também me atrevo a dizer que é o desejo da sociedade brasileira — é uma empresa que seja respeitada por ser uma empresa ética, profissionalizada. Uma empresa onde a meritocracia é fundamental. E, no que diz respeito ao seu tamanho, a Petrobras se situar entre as maiores do mundo. Ser a maior do mundo eu creio que não seja possível. Mas estar entre as maiores do mundo com todas essas características desejáveis numa boa empresa — com boas práticas empresarias, comerciais e éticas — é o que a gente quer.