Paulo Ferraz: mais uma vítima da Enron

A espetacular concordata da Enron mostrou, entre outras revelações, que o banqueiro carioca Paulo Ferraz tinha acesso privilegiado ao que se passava dentro da empresa de Houston. Na condição de membro do Conselho de Administração da empresa de Houston, ele integrava a subcomissão de auditoria, justamente a área responsável pela tarefa de destrinchar as contas da companhia. Desde, porém, que seu nome veio à tona em meio às revelações de fraudes na contabilidade da Enron, Ferraz, que é diretor executivo da companhia Bozano, adotou o mais absoluto silêncio. Pedidos de entrevistas encaminhados por jornalistas brasileiros e estrangeiros recebem sempre a mesma resposta: não há nada a declarar. Sua assessoria de imprensa não confirma sequer se ele contratou advogado para se defender da ação que funcionários da companhia movem contra dirigentes da empresa para se ressarcir de prejuízos milionários que lhes causaram.

O que levou Ferraz ao board da Enron? Fontes ligadas à filial brasileira da empresa dizem que o executivo carioca teria chegado ali a convite de Jeffrey Skilling, o ex-todo poderoso CEO da companhia. Até meses atrás, Skilling possuía uma casa no Rio de Janeiro, em sociedade com o ex-presidente da filial brasileira da empresa Diomedes Christoupoulos. A casa, projetada pelo arquiteto Cláudio Bernardes, falecido recentemente, localiza-se junto à Estrada do Joá e tem esplêndida vista para o mar.

Pessoas próximas a Ferraz dizem que não há nenhum mistério nas razões que levaram a Enron a convidá-lo para integrar o seu conselho. “Foi pura meritocracia. Ele é um executivo de sucesso, muito bem relacionado e que chegou a ser apontado pela revista BusinessWeek como uma das novas lideranças empresariais do Brasil”, diz uma dessas fontes. Para uma empresa que fez das relações com as pessoas certas um de seus pilares de sustentação, interessaria ter em seu conselho um executivo brasileiro com esse perfil.

E quais foram os motivos que levaram Ferraz a aceitar o convite para integrar o Conselho de Administração da Enron? Se hoje são execrados, até poucos meses atrás os principais executivos da companhia estavam no topo da elite corporativa americana. Sentar-se num Conselho de Administração ao lado de Skilling e de Kenneth Lay — o Kenny Boy, como o ex-poderoso chefão da Enron era chamado pelo presidente George W. Bush — não deixava de ser um cartão de visitas e tanto. “Eles eram as pessoas mais idôneas do mundo”, diz uma fonte próxima ao banqueiro. “O que ele não sabia é que poderiam lhe arrastar para uma fria.”