Passado nazista distancia fundador da Porsche de sua cidade

A cidade natal de Ferdinand Porsche, fundador da icônica marca de carros esportivos, retirou o nome de seu filho dos cartazes que dão boas-vindas à cidade

Praga – A cidade natal de Ferdinand Porsche – o inventor do Fusca e fundador da icônica marca de carros esportivos que leva seu sobrenome – retirou o nome de seu filho mais ilustre dos cartazes que dão boas-vindas à cidade por causa de seu envolvimento com o nazismo.

Porsche (1875-1951) nasceu no seio de uma família da então minoria alemã na cidade tcheca de Vratislavice nad Nisou, quando essa ainda estava sob a soberania do Império Austro-húngaro e era conhecida como Maffersdorf.

A cidade, com cerca de 8,5 mil habitantes, contava até agora com oito letreiros que davam boas-vindas à cidade e, inclusive, um museu situado naquela que fora sua antiga residência, todos lembrando que o famoso construtor automobilístico nasceu nessa região do norte de Boêmia.

No entanto, até o momento, nenhuma delas fazia menção à colaboração de Porsche com o nazismo e nem a sua pertinência à SS, a guarda pretoriana dos hierarcas do Terceiro Reich, explicou à Agência Efe o prefeito da cidade, Ales Preisler.

“Como construtor e pesquisador, Porsche foi genial, mas a gestão municipal anterior não informou nos materiais publicitários sobre seus anos de guerra, nos quais, apesar de não ter feito parte do Partido Nazista, foi membro honorífico da SS, e não há menção disto”, afirmou o governante.

Desta forma, após as queixas apresentadas por um grupo de 200 moradores, alguns deles com familiares mortos em campos de concentração nazistas, o novo prefeito decidiu retirar o nome de Porsche dos cartazes situados na entrada da cidade e completar a informação recolhida na antiga casa do engenheiro, transformada hoje em um museu.

“Meu pai morreu com o trabalho forçado. Não quero nazistas no cartaz do nome de minha cidade”, declarou um residente em declarações a um jornal local.

Com as mudanças, “a placa comemorativa em sua antiga casa deixará de se chamar “Memorial” e passará a receber o nome de “Exposição de Ferdinand Porsche””, detalhou o prefeito.


Essa casa, que abriga o Porsche Classic Club, com um total de 70 membros em todo o país, foi recentemente adquirida por Skoda Auto, a fabricante tcheca do grupo Volkswagen, que deve realizar uma reforma integral no local.

“Não vejo razão de obstaculizar este projeto, pois não temos nada contra Ferdinand Porsche como engenheiro construtor. É um homem que participou do progresso técnico e do desenvolvimento”, ressaltou o prefeito da cidade.

Embora haja uma grande polêmica em torno deste caso, não são todos os habitantes da cidade que estão contentes com o distanciamento de seu célebre filho, já que muitos defendem que o nome do construtor é bom para a cidade e atrai turistas da vizinha Alemanha.

“Voltam a cuspir sobre a figura de uma pessoa integra”, comentou o diretor do museu dedicado ao engenheiro, Milan Bumba, que, além disso, é presidente do Porsche Classic Club.

Este devoto do inventor do Fusca lembra que o museu da cidade recebe a visita de três mil pessoas durante os meses que abre – de maio a outubro – e destaca a importância da indústria do automóvel na região.

Vratislavice é hoje uma cidade próxima a Liberec, a mais próspera do norte da República Tcheca, que deve boa parte de sua prosperidade ao setor automotivo e aos cristais de Boêmia.

“Há interesse das empresas de automóveis que essa figura seja lembrada. É uma forma da tradição automobilística ser mantida”, explicou à Efe Pavel Valcik, ex-gerente da filial tcheca do multinacional espanhola Grupo Antolín.

Porsche nasceu no dia 3 de setembro de 1875 no seio de uma família que possuía um negócio de minério, mas acabou se transformando no homem que revolucionou a produção de veículos alemã.

Em 1934, Porsche recebeu a incumbência para a fabricação do Fusca com o objetivo de dar aos cidadãos da Alemanha nazista um modelo acessível e de baixo custo. Assim, nasceu o chamado “carro do povo”.

As fábricas do construtor alemão foram utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial para fabricar material militar e nelas também usaram mão de obra forçosa, segundo vários estudos históricos alemães.

O grupo automobilístico alemão Volkswagen é na atualidade um dos maiores construtores mundiais de automóveis e, em 2012, adquiriu a totalidade do fabricante de automóveis de luxo Porsche.