Para além dos restaurantes, iFood coloca QR Code em bancas de jornal

Iniciativa expande atuação da Movile Pay, braço de pagamentos do grupo dono do iFood. Foco é aumentar familiaridade do usuário com o formato

Comprar uma revista ou um fone de ouvido em uma banca de jornal e pagar pelo aplicativo do iFood passou a ser possível nas últimas semanas. A Movile Pay, braço de pagamentos da Movile, dona do iFood, está testando a tecnologia de pagamento por QR Code em seis bancas de jornal na avenida Paulista. 

O processo é o mesmo dos QR Codes da Movile Pay já disponíveis em alguns restaurantes. Por ora, todas as bancas participantes estão restritas à avenida Paulista, com planos de expandir para outras 10.000 bancas. O objetivo no futuro é “chegar a todas as bancas do Brasil”, afirma Daniel Bergman, presidente da Movile Pay, que falou com exclusividade a EXAME sobre a iniciativa. 

Para pagar, o cliente precisa abrir o aplicativo do iFood e aproximar a câmera da pequena plaquinha com o QR Code disponível no estabelecimento. O pagamento é feito pelo próprio celular do usuário, com o cartão de crédito cadastrado no iFood, e depois é recebido pelo dono da banca. 

O pagamento por QR Code em restaurantes, primeira empreitada do Movile Pay com essa tecnologia, foi lançado em fevereiro deste ano. Inicialmente, a empresa tinha 3.000 restaurantes cadastrados, e, seis meses depois, chegou a mais de 10.000 restaurantes. A Movile Pay não divulga o número de usuários que usam a solução nem quantos pagamentos processa por dia.

A ideia de expandir a opção para bancas de jornal veio, segundo Bergman, para ampliar a exposição dos usuários ao pagamento por QR Code e, assim, tornar a tecnologia mais conhecida. “Entendemos que a entrada nas bancas aumenta a capilaridade. São muitas pessoas que passam todo dia pelo mesmo local”, diz o executivo. 

Além disso, as bancas e parte dos restaurantes cadastrados para pagamento com QR Code não estavam anteriormente na plataforma de pedidos de delivery do iFood. Existem restaurantes, por exemplo, cuja comida não é própria para delivery. Assim, a carteira digital faz a Movile atingir um novo braço de parceiros no mundo físico, diz Bergman. 

Pagamento por QR Code: bancas tem menor ticket médio, mas aumentam capilaridade do serviço, diz presidente da Movile Pay

Pagamento por QR Code: bancas tem menor ticket médio, mas aumentam capilaridade do serviço, diz presidente da Movile Pay (Movile Pay/Divulgação)

QR code é o novo cartão?

O QR Code, ou quick response code (código de resposta rápida, em português), é como um leitor de código de barras. A diferença é que, em vez de barras na horizontal, tem barras também na vertical, o que aumenta as possibilidades de leitura. O código pode ser lido por qualquer celular com câmera, um programa que faça a leitura do código e conexão à internet. 

Para o usuário, a vantagem é que pagar por QR Code dispensa o uso de cartão ou dinheiro, com o pagamento podendo ser feito apenas pelo celular. O QR Code pode ser também de uma empresa cuja carteira digital permita recarga por boleto bancário, o que ajuda os mais de 45 milhões de desbancarizados no Brasil, isto é, pessoas que não têm ou não movimentam conta bancária. 

O estudo “Novos Meios de Pagamento”, realizado neste ano pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), ouviu 500 pessoas de diferentes idades, rendas e regiões do país e apontou que 17% dos consumidores utilizam QR code para pagamentos em lojas físicas. A fatia totalizaria mais de 30 milhões de brasileiros que afirmam usar a tecnologia para compras. (A margem de erro é de quatro pontos percentuais.)

No mesmo estudo feito no ano anterior, em 2018, o QR Code sequer obteve respostas, o que mostra um crescimento expressivo. Ainda assim, os campeões seguem sendo dinheiro (68% dos usuários usam o papel para pagamentos em lojas físicas), cartão de crédito parcelado (62%), crédito à vista (59%) e débito (54%). Os pagamentos por aplicativo (como Samsung Pay e Apple Pay) em lojas físicas também cresceram, de 4% para 24%. 

QR Code e aplicativos também são os meios de pagamento que os usuários responderam que mais gostariam de utilizar, mas não utilizam (20% e 17% dos entrevistados citaram aplicativo e QR Code, respectivamente). Uma das barreiras é que a própria aceitação dos estabelecimentos ainda é baixa se comparada a cartões ou dinheiro, mostra o estudo. 

No processo de popularizar o pagamento pelo código, um dos desafios é a própria educação do usuário para usar a ferramenta, diz Bergman. O executivo afirma que o ticket médio nas vendas em bancas de jornal é menor que em um restaurante, mas a Movile investiu no projeto mesmo assim por avaliar que o principal ganho será em aumentar o uso do código. 

App que não acaba mais 

A Movile Pay é uma entre as muitas empresas que vêm lançando carteiras digitais e opções de pagamento por QR Code. O Mercado Livre lançou há alguns meses uma parceria com o McDonald’s para colocar o código nos balcões da rede de fast-food. O PicPay, maior carteira digital do Brasil, com 10 milhões de usuários, fez uma parceria com a Cielo para pagamento por QR Code nas maquininhas da adquirente.

O QR Code da Cielo também é aceito em outra dezena de carteiras digitais, como as contas digitais BanQi (da Via Varejo) e Next (do Bradesco). Outras adquirentes, como GetNet (do Santander), Stone e PagSeguro também têm opções de QR Code. O banco Itaú lançou neste ano a Iti, que permite a lojistas aceitar pagamento por QR Code de usuários de todos os bancos, desde que o cliente tenha o aplicativo instalado. E a lista continua. 

Para além de aceitação dos restaurantes e conhecimento do usuário, uma das principais barreiras que pode frear o crescimento no uso do QR Code é, justamente, o excesso de opções. Embora o código QR seja universal, os aplicativos com carteira digital que aceitam pagamento por esse meio não se conversam, o que obrigaria o consumidor a ter dezenas de aplicativos diferentes instalados no celular.

Bergman aponta que, em alguns estabelecimentos, já é comum ver o QR Code do iFood ao lado do de mais de uma concorrente, de modo que o cliente pode escolher sua preferida. Na prática, contudo, o mais comum é que cada loja tenha parceria com uma carteira diferente, o que ainda dificulta a vida do usuário. 

No passado, questão semelhante acometeu as maquininhas de cartão. Até 2010, o mercado era controlado por Cielo (antiga Visanet) e Rede (antiga Redecard), e cada uma só aceitava cartões de Visa e Mastercard, respectivamente. Uma regra do Banco Central de 2010 fez cair a exclusividade das bandeiras. 

A regulação do Banco Central também abriu espaço para o surgimento, ao longo dos anos, de novas concorrentes. Hoje, é raro encontrar um terminal de pagamento que não aceite determinada bandeira de cartão. 

“O que aconteceu com as maquininhas foi bom para todo mundo, fez o lojista ganhar mais. Para o QR Code, a discussão de uma padronização também já existe, e é natural que ela evolua com o tempo”, diz Bergman. Por ora, no entanto, o foco das empresas está mais em colocar seus produtos na rua, diz o executivo. “No futuro, as empresas podem começar a fazer parcerias e ter sucesso. As empresas com agenda de colocar o consumidor no centro vão naturalmente conversar [para unificar o QR Code]”, afirma. 

Bergman diz que a carteira digital da Movile Pay cresce na casa de três dígitos todos os meses. “O nosso maior concorrente não são outras carteiras, mas é sempre o dinheiro. Mudanças em meio de pagamento são lentas”, diz. Ainda há um longo caminho a percorrer até que sacar o celular para uma compra seja tão normal quanto inserir um cartão em uma maquininha ou pegar dinheiro na carteira.