Pão de Açúcar: entre fraudes e prejuízo

Letícia Toledo

Em uma teleconferência realizada na última semana de julho e que durou quase duas horas, executivos do Grupo Pão de Açúcar (GPA), maior varejista do país, tentavam convencer analistas e gestores de ações de que as estratégias adotadas pela empresa estão começando a dar resultados, apesar dos números no balanço mostrarem o contrário. Os esclarecimentos na conferência não foram suficientes para acabar com as dúvidas sobre os problemas que levaram o grupo a apresentar um prejuízo de 583 milhões de reais no segundo trimestre do ano – de longe o pior resultado que o grupo já teve e que marcou o seu quinto trimestre consecutivo de perdas.

A maioria dos analistas definiu os resultados como fracos e confusos. Não é simples enumerar os problemas que afligem um grupo que reúne algumas das marcas mais tradicionais do país, como as varejistas de eletroeletrônicos Casas Bahia e Ponto Frio e os supermercados Extra e Pão de Açúcar. Os prejuízos têm origem em uma junção de acontecimentos que vão desde a crise econômica do país até roubos de mercadorias e fraudes nos balanços de uma de suas controladas.

No varejo alimentar, que reúne marcas como Pão de Açúcar e Assaí, o problema é a rede de hipermercados Extra. No início do ano passado, os supermercados e hipermercados da rede começaram a ser reformados para amenizar a queda na frequência de clientes nas lojas. O objetivo é adequar as lojas à tendência dos consumidores de preferir mercados menores.

A crise obrigou a companhia a acelerar as reformas, mas as obras ainda não alcançaram nem a metade das quase 340 lojas do Extra. Em época de crise, as pessoas vão menos aos supermercados, principalmente os grandes. No primeiro semestre do ano, as vendas no Extra caíram 4,2%. Já o seu principal concorrente, Carrefour – que iniciou a reforma dos hipermercados antes – aumentou em mais de 13% suas vendas no período. “O Carrefour adotou a estratégia primeiro, se reestruturou e cresce mais que o Extra”, afirma João Mamede, analista do banco Santander.

Fora dos supermercados, as vendas nas lojas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos do grupo, Casas Bahia e Ponto Frio, que integram a Via Varejo, também encolhem por conta da crise. O prejuízo da rede chegou a 89 milhões de reais no segundo trimestre. Isso mesmo após a companhia demitir 17% de seus funcionários e fechar 62 lojas em um período de 12 meses até julho deste ano.

Cnova: de prejuízos à fraudes

O maior problema do GPA hoje atende pelo nome de Cnova – operação que reúne o comércio eletrônico dos sites Ponto Frio, Casas Bahia. As vendas sempre cresceram, até chegar 2016. Este ano, as vendas da Cnova – que é a segunda maior companhia de e-commerce do país, atrás apenas da B2W, que reúne o comércio eletrônico das Lojas Americanas e do Submarino – caíram 31% somente entre abril a junho. “A companhia enfrentou vários problemas este ano ao mudar alguns de seus sistemas operacionais, teve muito consumidor reclamando e deixando de comprar nos sites”, diz um executivo de uma das empresas concorrentes. Concorrência que, por sinal, só aumenta. Enquanto o e-commerce da Cnova enfrenta problemas, as vendas online da varejista Magazine Luiza cresceram 30% no primeiro semestre deste ano. Além disso, o retornou ao e-commerce no fim de julho.

Não bastassem as queda nas vendas e os novos concorrentes, denúncias de que funcionários realizaram desvios de produtos dos centros de distribuição da Cnova levaram a uma investigação interna, iniciada em dezembro do ano passado. A investigação, concluída em julho deste ano, apontou erros na contabilidade e fraudes na administração da empresa – que levaram a uma redução de patrimônio no valor de 400 milhões de reais no balanço de 2015 da Cnova.

Em documento encaminhado ao órgão regulador do mercado de capitais nos Estados Unidos, SEC, a Cnova revela que, entre os erros identificados nos relatórios há, por exemplo, reduções no valor de contas a pagar, aumento no valor de ativos e também incorreções em faturas de produtos vendidos. Segundo o documento, 13 funcionários foram demitidos devido ao envolvimento nas fraudes.

Durante o processo também ocorreram mudanças no comando da companhia. Em janeiro, German Quiroga renunciou à presidência da Cnova no Brasil. Na época, a renúncia foi apontada como uma decisão de caráter pessoal e acordada com o grupo. No formulário sobre as investigações, a Cnova afirma que o ex-presidente da companhia “não tomou medidas para prevenir ou parar a alteração de registros e substituição de controles existentes e outros desvios de conduta que foram posteriormente identificados pela investigação, e também ocultou a existência de tais práticas ou dirigia outros ex-funcionários a fazê-lo”. Procurado por EXAME Hoje, Quiroga preferiu não comentar o assunto.

O pesadelo dos franceses

Todos esses problemas não constavam nem nos piores pesadelos do grupo francês Casino, que após dois anos de brigas com o empresário Abílio Diniz assumiu o controle do GPA, em agosto de 2012.

De lá pra cá, os franceses iniciaram uma série de mudanças no grupo. Começou pelos nomes de executivos, a primeira troca foi na presidência do GPA, em abril de 2014, quando Ronaldo Iabrudi substituiu Enéas Pestana. A partir daí, os franceses decidiram impulsionar as lojas menores do grupo – com as bandeiras Mini Mercado Extra e Minuto Pão de Açúcar. O número destas lojas dobrou em menos de dois anos e chegou a 297 unidades.

Um investimento ainda mais agressivo foi adotado na marca de “atacarejo” do grupo, Assaí – a única do GPA que conseguiu crescer acima da inflação este ano e continua abrindo novas lojas mesmo com o cenário de crise no país. Para o segundo semestre está prevista a inauguração de mais 10. Hoje, são quase 100 lojas em operação.

“A crise levou mais consumidores a procurarem atacarejos como o Assaí, que tem produtos que, quando comprados em maior quantidade são bem mais baratos”, afirma Paola Mello, analista de varejo do banco Citi.

O maior concorrente do Assaí é o Atacadão, que pertence ao grupo Carrefour e tem 126 lojas no país. No Carrefour, a marca ganhou tamanha relevância que já corresponde a 65% das receitas do grupo no Brasil. As vendas do Assaí, que cresceram 37% só no segundo trimestre, correspondem a 35% do faturamento total dos supermercados do GPA.

O crescimento do Assaí motivou o grupo a iniciar um projeto para converter hipermercados Extra em lojas do atacarejo. Neste segundo semestre de 2016, duas lojas Extra serão reformadas em um projeto piloto. “O único problema é que o Assaí tem uma margem menor. É preciso controlar bem as despesas para que ele seja rentável”, afirma Mello.

Uma outra preocupação sobre a rentabilidade das marcas do GPA, segundo analistas, é a política agressiva de descontos da marca Extra que começou a ser adotada no segundo trimestre deste ano. Para atrair clientes em tempos de crise, a rede criou descontos progressivos, ofertas diárias na parte de frutas e verduras e também em itens básicos. As estratégias aumentaram o fluxo de clientes nas lojas, mas, para analistas e investidores, ainda não ficou claro qual o real retorno que os preços mais baixos podem trazer nos resultados da empresa. “A expectativa do GPA é que as vendas da empresa acelerem e isso gere uma diluição de custos e despesas mais pra frente. Mas, por enquanto, é apenas um investimento. Os resultados podem começar a aparecer no ano que vem”, afirma João Mamede, do Santander.

Na Via Varejo, durante a última teleconferência, o grupo disse que está mudando o modelo operacional de suas lojas do Ponto Frio e das Casas Bahia, sem dar grandes detalhes. “Já verificamos resultados positivos, mas que ainda não nos permitem adiantar informações. Por enquanto, podemos afirmar que o novo modelo de operação de loja nos colocará em um patamar superior em 2017 em relação aos nossos concorrentes”, disse Isabela Cadenassi, gerente de relações com investidores do GPA em entrevista a EXAME Hoje.

A saída é vender?

O maior problema do grupo, a Cnova, também passa por mudanças organizadas pelos franceses. Os negócios da Cnova no Brasil, que hoje funcionam de maneira independente e com acionistas próprios, serão incorporados à Via Varejo. Para isso, o grupo francês Casino fará uma oferta pública de aquisição das ações da Cnova NV (grupo que reúne as operações de sites no Brasil e em vários outros países), que são listadas na bolsa americana Nasdaq. Com o fechamento de capital, as operações internacionais da Cnova ficarão com o Casino. No Brasil, os sites da Cnova estarão sob comando da Via Varejo, que deve desembolsar 127 milhões de dólares, pouco mais de 400 milhões de reais, para controlar a Cnova.

Se a ideia parece confusa, o objetivo é claro: devolver as operações da Cnova, que controla o e-commerce do Ponto Frio e Casas Bahia, de onde, na visão de especialistas, a operação nunca deveria ter saído: a Via Varejo, que detém a operação física do Ponto Frio e Casas Bahia. “No dia a dia, os sites da Cnova atuaram todos esses anos como concorrentes das lojas físicas. As companhias lutavam entre si para oferecer os melhores preços ”, diz um executivo de comércio eletrônico.

Se tudo der certo, os franceses deixarão a operação de comércio eletrônico no país totalmente nas mãos da Via Varejo. Com a notícia, começou a ganhar força rumores de que a saída dos franceses do e-commerce no Brasil é o primeiro passo da companhia para deixar completamente os negócios de eletrodomésticos e eletrônicos no país, em que atua através da Via Varejo. Hoje, o grupo detém 43,4% das ações da Via Varejo por meio do Grupo Pão de Açúcar.

Recentemente, o Casino iniciou a venda de ativos para reduzir seu endividamento. Nos últimos meses, a empresa vendeu ativos no Vietnã e na Tailândia por 4,1 bilhões de euros – cerca de 13 bilhões de reais. Em entrevista ao jornal francês “Le Figaro”, em maio, o presidente do Casino, Jean-Charles Naouri, afirmou que pretende vender mais negócios nos países onde a companhia atua. Para especialistas e executivos próximos à empresa ouvidos por EXAME Hoje, a saída do grupo da Via Varejo parece fazer sentido, já que a especialidade do grupo mesmo são os supermercados.

“Em nossa visão, a potencial venda da Via Varejo poderia ainda ajudar na gestão e enfatizar os esforços do Grupo Pão de Açúcar no segmento alimentar, que representam mais de 55% dos ganhos do grupo e vem sofrendo nos últimos anos”, dizem analistas do banco Citi em relatório. Em nota lançada recentemente, os franceses negaram a venda. Se o plano não é vender, o jeito é esperar pra ver se, em algum momento, os executivos franceses conseguirão mostrar aos investidores – com números – que todas essas mudanças fazem sentido.