País que despreza a ciência é doente, diz Pedro Moreira Salles

Em entrega de prêmio, pesquisadores também criticaram o corte de verbas de universidades públicas pelo governo Jair Bolsonaro

São Paulo — O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, foi palco ontem à noite de uma contundente defesa da educação e da tecnologia pela elite econômica e científica do Brasil.

Era a festa de entrega do 1º. Prêmio de Ciência e Tecnologia da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), maior produtora mundial do metal nióbio, usado principalmente para aumentar a resistência e a maleabilidade do aço. Uma plateia de cerca de 350 executivos do setor de mineração e cientistas ocupou o auditório do museu.

Abrindo a cerimônia, Pedro Moreira Salles, presidente do conselho de administração da CBMM e do Itaú Unibanco, defendeu o papel da pesquisa e da inovação para impulsionar o desenvolvimento do país.

“A produtividade do Brasil está estagnada há 20 anos. Sem alteração nesse quadro, estaremos presos na armadilha do crescimento incipiente com cadeias de produção do século 20. Esse é um sonho medíocre de país”, afirmou. “Não há aumento de produtividade sem uma academia que combine ensino com pesquisa, trabalhando em conjunto com empresas que assumam o risco de inovar. Como no Brasil o ensino privado não se dedica à pesquisa, a solução para desatar o nó da nossa produtividade passa por universidades públicas autônomas e de qualidade, onde as ideias circulam livremente e são expostas ao pensamento crítico, sem as algemas dos preconceitos e das ideologias.”

Moreira Salles disse ainda que “não existe alternativa fora dos fatos e das evidências”. “Um país que dê as costas à razão e ao conhecimento será um país pobre, doente, inseguro e triste”, afirmou. “A ciência expande o nosso horizonte e diminui a nossa perplexidade. Um país que oferece ao mundo conhecimento é um país honrado.”

O executivo frisou que, na década passada, os gestores públicos e cientistas brasileiros conseguiram reduzir em mais de 70% o desmatamento das florestas do país, “dando a maior contribuição à humanidade com a mitigação do efeito estufa”.

Em alusão às atividades que sustentam a economia do país, Moreira Salles afirmou também que as pré-condições para uma agricultura e uma mineração competitivas são a ciência e a tecnologia. “Agricultura sem pesquisa é cultura de subsistência. Mineração sem pesquisa é garimpo”, disse.

O palestrante especial da noite era o pesquisador americano Paul Romer, vencedor do prêmio Nobel de economia de 2018 por seu trabalho que comprova que a tecnologia e a inovação são os motores da prosperidade de longo prazo das nações.

Ao agradecer a presença de Romer, Moreira Salles disse: “Seus estudos são um poderoso argumento para que não descuidemos do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação que vem se estabelecendo entre nós ao longo de várias décadas.

Sem esse complexo de instituições, agências e programas de ensino, fomento e pesquisa, não teríamos vencido nem parcialmente o agudo atraso econômico e social que nos caracterizava até não muito tempo atrás”. E alertou: “A descontinuidade dessas ações põe em risco o que a custo já erguemos e impede que o sistema como um todo alcance um imprescindível patamar de mais elevada complexidade”.

O mesmo tom marcou os discursos de todos os cientistas que participaram da celebração, incluindo Artur Ávila, primeiro latino-americano a receber a medalha Fields, o maior prêmio mundial de matemática, e Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências. Os pesquisadores criticaram os cortes nos orçamentos das universidades públicas e em agências de apoio pesquisa como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro.

Marcelo Viana, diretor geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada e um dos dois agraciados com o prêmio da CBMM, ressaltou a importância de lembrar ao governo e à sociedade o papel que o conhecimento científico tem para o desenvolvimento humano, social e econômico. “Em 30 anos como cientista, este é o período em que mais vejo talentos brasileiros saindo do país para buscar ecossistemas de pesquisa mais amigáveis e que lhes permitam desenvolver suas capacidades”, disse.

O biólogo João Calixto, o outro vencedor do prêmio, chamou os tempos atuais de obscuros. “A ciência e a tecnologia são imprescindíveis para o país superar as suas dificuldades, especialmente nossos graves problemas sociais, dos quais o desemprego é o que traz mais desalento, especialmente entre os mais jovens”, afirmou.

Calixto, que desenvolve medicamentos a partir de plantas nativas brasileiras, há 40 anos tem apoio do CNPq nos seus estudos na Universidade Federal de Santa Catarina. “Os cortes realizados pelo governo federal nos orçamentos das universidades públicas com toda certeza terão reflexos extremamente graves sobre o desenvolvimento do país em um futuro próximo”, disse.

Mas o pesquisador tentou encerrar seu pronunciamento com otimismo: “Em uma democracia, governos são passageiros. Vamos aguardar porque teremos dias melhores”. Assim como os que discursaram antes, foi ovacionado.