Os desafios da Cosan além dos trilhos

O objetivo é ser a maior companhia de logística integrada do país

São Paulo – Ele fez fama e (muita) fortuna com açúcar e álcool. Durante anos conhecido como “rei do etanol”, o empresário Rubens Ometto Silveira Mello tem agora em suas mãos uma bucha de canhão.

Caberá ao grupo Cosan, do qual é controlador, transformar a endividada América Latina Logística (ALL), que tem boa parte de sua malha e ativos sucateados, em uma concessionária ferroviária eficiente.

Os desafios não serão poucos. Para promover essa virada, na avaliação do mercado, a empresa terá de tomar mais dívida. Só dessa forma ela conseguirá atingir seu objetivo: ser a maior companhia de logística integrada do País. A dívida líquida da companhia no primeiro trimestre do ano somou R$ 4,6 bilhões.

Idealizada para ser o grande veículo de escoamento da safra brasileira de grãos do Centro-Oeste para o Porto de Santos, a ALL deu dor de cabeça ao governo e foi alvo de bombardeios de todos os lados.

Os problemas foram em boa parte atribuídos à gestão errática e à dificuldade da companhia em dar vazão a todos os contratos firmados com clientes, afirmam fontes.

Muitos dos críticos da ferrovia apostam que, sob a gestão da Cosan, a nova Rumo-ALL conseguirá fazer valer o peso de sua responsabilidade, que é tornar mais ágil o agronegócio da porteira para fora.

“A trajetória do grupo Cosan, que protagonizou os principais movimentos de fusões e aquisições nos anos 2000 para se tornar líder no setor sucroalcooleiro e se verticalizar no segmento de combustíveis, foi de sucesso. Agora, a companhia tem pela frente sua prova de fogo para se consolidar como um grupo de infraestrutura e energia”, diz Herbert Steinberg, sócio da consultoria Mesa Corporate.

As negociações que culminaram na mudança de controle da ALL não foram nada fáceis. Foi uma novela, que durou dois anos, com muitas idas e vindas, disputas na Justiça e mudanças no meio do caminho, até chegar na proposta apresentada pela Rumo, subsidiária da Cosan, em 24 de fevereiro, na qual o grupo assume o comando da companhia.

A nova Rumo-ALL aguarda agora o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para pôr em marcha um ambicioso plano de expansão, com investimentos de R$ 7 bilhões nos próximos cinco a sete anos, segundo fontes de mercado.

Divisão

O grupo Cosan também vai se separar em dois negócios – infraestrutura, com a nova Rumo-ALL, e energia, que abarca as seguintes divisões: Raízen (distribuição de combustíveis e produção de açúcar e etanol), Comgás (gás canalizado), Radar (propriedades rurais) e lubrificantes.

“Nós vemos uma segregação cada vez maior porque enxergamos tipos de investidores diferentes, objetivos e dinâmicas diferentes entre esses dois negócios”, diz Marcos Lutz, presidente do grupo.

Essa mudança começou a ser desenhada em meados dos anos 2000. Pragmático, Rubens Ometto percebeu que ser “apenas” líder no volátil mercado de açúcar e álcool seria um tiro no seu próprio pé. Foi um trabalho de desapego, muito incomum em empresas familiares.

“A verdade é que sempre acreditei no setor de açúcar e álcool. Tentei a vida inteira trazer meus pares para trabalhar, juntos, no desenvolvimento do mercado internacional. Via muita sinergia nessa união, mas sempre fui mal interpretado. Chegou uma hora que cansei”, diz Ometto.

Para dar essa guinada, foi a mercado buscar executivos de calibre pesado – assim, como ele, estilo linha dura. Ex-CSN, Lutz entrou em 2007 e ajudou Ometto a dar forma à companhia de infraestrutura. Marcelo Martins, vice-presidente de finanças e relações com os investidores, se juntou ao time no mesmo ano para coordenar o processo de fusões e aquisições e gestão financeira.

Julio Fontana Neto, que transformou a MRS de uma ferrovia deficitária em companhia lucrativa, chegou em 2009 para colocar a Cosan literalmente nos trilhos. “Estar em uma negociação do lado oposto da Cosan é muito difícil. Eles são uns tratores”, diz uma fonte.

O time da Cosan – resultado da contração dos nomes das usinas Costa Pinto e Santa Bárbara – não só consolidou a companhia como maior produtora de açúcar e álcool do Brasil, como promoveu a diversificação da empresa.

Com forte DNA em aquisições, o grupo segue analisando novas frentes nos setores em que já atua: quer continuar crescendo, mas sem perder o foco. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.