Os cenários das montadoras para 2017

Michelle Loureiro

De cada cem carros vendidos no Brasil, 45 são fabricados por General Motors, Fiat ou Volkswagen. Juntas, as três maiores montadoras instaladas no país respondem por quase metade do mercado e possuem diferentes previsões sobre como será o ano de 2017 para a indústria automotiva. Uma coisa é certa, a briga pela liderança está mais acirrada do que nunca.

A General Motors ultrapassou as rivais e é a primeira colocada no ranking de vendas no acumulado de janeiro a setembro deste ano. A montadora americana detém 16,9% do mercado e não quer parar por aí. Nos últimos doze meses, a GM ganhou 1,6 ponto percentual em participação de mercado. A montadora apresenta a menor retração nas vendas: 10,6% nos primeiros nove meses do ano – enquanto que o mercado encolheu 20,1% no período.

Segundo Barry Engle, presidente da GM na América do Sul, a receita da montadora para trafegar nesse cenário instável e ainda abocanhar participação de mercado consiste em quatro frentes: manter os investimentos, renovar a linha de produtos, apostar em novas tecnologias e conter os custos ao máximo. “Nosso plano de investimento de 2013 a 2019 é de R$ 13 bilhões no Brasil. Não tiramos um centavo desse montante”, diz Engle. Na parte de produtos, a companhia faz uma renovação ofensiva na linha, com reestilização em carros como Spin, S10 e o seu modelo mais vendido, o Onix.

Além disso, a montadora aposta no aumento de tecnologia embarcada. Seu sistema de conectividade, o My Link, já está na segunda versão no Brasil e tem as mesmas funções observadas nos Estados Unidos, por exemplo. Além disso, até o fim do ano todos os modelos da empresa terão o sistema One Star, que entre as funções realiza monitoramento dos veículos e pode bloquear o carro em caso de assalto, por exemplo.

Segundo Ricardo Bacellar, diretor da KPMG para o setor automotivo, a questão tecnológica conta pontos a favor da montadora na briga pela liderança. “Esta é uma tendência sem volta e quem sai na frente tem, obviamente, vantagem. Atualmente o custo tecnológico de um veículo é de 25% do total. Em uma década esse patamar representará cerca de 65%”, afirma.

Mesmo em um cenário de vendas menores, restrição do crédito, alta do desemprego e até um possível desinteresse dos jovens pela posse de um veículo, o presidente da GM é otimista. Enquanto a Anfavea, associação que reúne as montadoras, aposta em alta de 8% para o ano que vem, Engle é mais enfático. “O mercado vai crescer de 12% a 14% em 2017 e retomará o patamar de 2,4 milhões de veículos”, diz.

Para o executivo, há evidências que fazem acreditar que a retomada seja de dois dígitos. “A confiança do consumidor chegou ao nível mais baixo neste ano e nos últimos meses tem mostrado uma recuperação. Além disso, as medidas econômicas do governo devem surtir efeito em breve”, afirma.

Engle usa dados como a idade média da frota – de oito anos – e a taxa baixa de motorização para justificar sua previsão. “Nos Estados Unidos, há 800 carros para cada 1 mil pessoas. No Brasil, essa taxa é de 200 para 1 mil. Há muito potencial”, diz. Além disso, ele aposta no contexto histórico. “Nas últimas três décadas, o mercado cresceu em média 5% ao ano. Isso se viu em pouquíssimos mercados pelo mundo”, afirma.

FIAT

Enquanto isso, Stefan Ketter, presidente da FCA (Fiat Chrysler Automobiles), prefere se manter no time dos menos otimistas. “As medidas políticas virão e os primeiros sinais são bons. Mas ainda faltam fundamentos para fazer projeções concretas. Não arrisco palpite para a retomada do mercado, mas não acho que chega aos 8% previstos pela Anfavea”, afirma.

A Fiat, montadora com maior volume do grupo, que contempla ainda Jeep e Chrysler, responde por 15,3% do mercado nacional, em queda de 2,9 pontos percentuais nos últimos doze meses. No acumulado do ano, as vendas da montadora italiana acumulam 140 000 unidades, uma retração expressiva de 42,7% – mais que o dobro do mercado. Mas para Ketter, falar de 2016 já é coisa do passado. “Precisamos pensar no médio prazo agora, em 2019, 2020. O setor passa por um processo de ruptura e temos de pensar em novos modelos de negócio”, afirma.

O executivo é um dos defensores da mudança do papel dos carros na sociedade. Para ele, 2017 será marcado como o começo de um ciclo em que as montadoras terão de assumir outros papéis. “Além de pensar em produtos, temos de nos preocupar com o futuro da necessidade de posse de veículos”, afirma. Para ele, a tendência é que o compartilhamento de veículos ganhe força.

VOLKSWAGEN

Já a Volkswagen, que aparece em terceiro lugar no ranking, mantém-se em linha com as previsões da Anfavea. “O mercado voltará a crescer no ano que vem, na faixa de 5% a 8%, atingindo entre 2,1 milhões a 2,2 milhões de veículos”, afirma o presidente da Volkswagen do Brasil, David Powels.

A empresa aparece com 12,2% de participação de mercado, uma perda de 1,6 ponto percentual de participação nos últimos doze meses. Segundo o executivo, a queda no índice foi causada pela paralisação da produção por mais de um mês entre agosto e setembro decorrente de uma disputa de reajuste de preços com a fornecedora de autopeças Prevent. A Volkswagen espera recuperar ao menos parte das perdas neste último trimestre do ano. No acumulado do ano, até setembro, a companhia alemã contabiliza redução de 37,2% nas vendas. “Estamos em um contexto de queda e tivemos problemas pontuais. Mesmo assim, acreditamos em uma retomada e reiteramos nosso investimento de 6 bilhões de reais no Brasil entre 2015 e 2019”, diz Powels.

Apesar dos cenários particulares, as três maiores montadoras têm alguns desafios em comum. Além de depender da retomada da economia para aquecer o mercado, elas esperam o anúncio do regimento que irá regular o setor nos próximos anos. Em 2017, expira o programa Inovar-Auto, que estabeleceu uma base tributária para inibir a chegada de veículos importados e incentivar a produção local.

O que vem por aí ainda é incerto, mas segundo Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças, a definição de um novo regimento para o setor automotivo deve acontecer no primeiro trimestre de 2017. “Já há uma série de discussões em andamento para substituir esse programa. Acredito que esse modelo expirou. O que vem pela frente será diferente”, afirma. De acordo com ele, “a espinha dorsal do novo programa já está desenhada e não será mais um regime que privilegia a questão da tributação”, diz. O executivo afirma que quatro frentes serão contempladas: segurança, conectividade, emissões e eficiência energética. “Independentemente da origem do veículo, esses critérios terão de ser atendidos. O objetivo é que os veículos vendidos aqui acompanhem a tecnologia global”, afirma.

O novo regimento deve ter duração de dez anos, com revisão depois dos primeiros cinco anos. Essa pode ser uma das ferramentas para trazer a previsibilidade que o setor automotivo tanto almeja.